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A agonia eterna do Leão de Lucerna

A agonia eterna do Leão de Lucerna

Quase dois séculos se passaram desde que um animal ferido, com uma ponta de lança encravada no corpo, foi esculpido na pedra, com a dor na face, numa agonia sem fim. Ele está escondido da agitação da cidade num pequeno parque da cidade de Lucerna, na Suíça. Turistas de várias partes do mundo visitam o lugar, tiram fotos, possam alegres, mas talvez, bem poucos sabem da trágica história por trás, daquele leão moribundo.

O Monumento do Leão de Lucerna (também conhecido como Löwendenkmal) é o trabalho do escultor dinamarquês Bertel Thorvaldsen, feito em 1821, e relata com realismo e romantismo próprio da paixão de seu tempo, à tragédia com a perda de 700 vidas, homens pertencentes à Guarda Suíça, a serviço de Luís XVI durante a Revolução Francesa. Homens que foram massacrados no palácio de Tulherias, em Paris no dia 10 de agosto de 1792, por homens que usaram a frustração e a raiva contra um rei traidor, aos mercenários que foram considerados cúmplices de suas ações.

A agonia eterna do Leão de Lucerna

História

Desde o início do século 17, a Guarda Suíça um regimento profissional e disciplinado (já que inteiramente composto por mercenários com grande tradição de serviços prestados à monarquia), serviu na França. A 6 de Outubro de 1789, o rei Luís XVI foi forçado a retirar-se com a sua família do Palácio de Versalhes para o Palácio das Tulherias, e em Junho de 1791 tentou fugir para fora do país. Em 1792, durante a Insurreição de 10 de Agosto, revolucionários invadiram o palácio.

A luta rebentou espontaneamente depois da família real ter sido escoltada das Tulherias para tomar refúgio na Assembleia Nacional Legislativa. Os suíços ficaram sem munições e foram oprimidos pelo número superior de revolucionários. Uma nota escrita pelo Rei sobreviveu até aos nossos dias, ordenando aos suíços que retirassem e voltassem aos seus quartéis, mas isto só foi efetuado depois da sua posição se ter tornado insustentável.

A agonia eterna do Leão de Lucerna

Dos 950 Guardas Suíços defendendo às Tulherias, cerca de 600 foram mortos em combate ou tentando render-se aos atacantes, que furiosos devido aos tiros disparados contra a multidão, creditaram os disparos aos Guardas. Cerca de 60 foram feitos prisioneiros no Hotel de Ville e são massacrados lá. Outros morrem na prisão, em decorrência de seus ferimentos, ou mortos durante os Massacres de Setembro que se seguiram. Acreditasse que uma centena de Guardas teriam sobrevivido.

Os nobres em armas, calculados em cerca de 200, passaram despercebidos com suas roupas civis e foram na maior parte capazes de escapar com vida da confusão instaurada. Excetuando os suíços que escaparam das Tulherias, os únicos sobreviventes do regimento foram 300 homens que haviam sido destacados para a Normandia alguns dias antes de 10 de Agosto.

Os oficiais suíços estavam na sua maioria entre os massacrados, embora o Major Karl Josef von Bachmann — no comando nas Tulherias — tenha sido formalmente julgado e guilhotinado em setembro, ainda usando o seu casaco de uniforme vermelho. No entanto, dois oficiais suíços sobreviventes viriam a alcançar patentes superiores sob as ordens de Napoleão. Com a constituição suíça de 1848, serviços de mercenários em países estrangeiros foram considerados crimes, com exceção da Guarda Suíça no Vaticano. A guarda papal pode ser considerada como uma mistura de folclore com seus trajes coloridos e com um policial moderno.

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Monumento

A iniciativa de criar o monumento partiu de Karl Pfyffer von Altishofen, um oficial da Guarda Suíça que estava de licença em Lucerna quando ocorreu o evento de 10 de agosto. Ele ficou tão chocado com a morte de seus companheiros, que decidiu criar algo que homenageasse os guardas que defenderam tão bravamente o Palácio de Tulherias. Porém a ideia não era tão simples assim, e levou cerca de 30 anos, para concretizar seu projeto. Em 1818, apresentou o projeto a cidade e conseguiu o apoio financeiro das famílias nobres da cidade. Depois de tentar encontrar um artista suíço, decidiu escreveu uma carta com a proposta para Bertel Thorvaldsen (1770-1884), um renomado escultor dinamarquês em 1819.

O escultor se interessou em criar a obra, mas não poderia executa-la por estar trabalhando em Roma, porém fez os esboços da escultura. A execução da obra foi confiada ao escultor suíço Eggenshvelleru, mas este morreu ao cair de um andaime e em seu lugar, foi contratado o escultor alemão Lukas Ahorn (1789-1856) que terminou a obra em agosto de 1821, exatamente 29 anos após os trágicos acontecimento com os guardas suíços. A escultura foi feita na parede vertical de rocha, numa antiga pedreira explorada ao longo dos séculos para construir a cidade. Depois de pronta, se tornou uma das esculturas mais famosas da Europa.

A agonia eterna do Leão de Lucerna

Esculpida em uma rocha de arenito, a escultura é famosa por seu surpreendente realismo. Com cerca de 10 metros de comprimento e 6 metros de altura, ela retrata os últimos minutos de vida de um leão sobre um leito de escudos e lanças. Acima do felino, está a inscrição “Helvetiorum fedei ac Virtuti“, que significa “Glória a lealdade e a coragem dos suíços“. O leão moribundo é representado empalado por uma lança, cobrindo um escudo com a flor-de-lis da monarquia francesa; ao seu lado encontra-se um outro escudo com o brasão de armas da Suíça.

A inscrição por debaixo da escultura lista os nomes dos oficiais, e o número aproximado dos soldados que morreram (DCCLX = 760), e sobreviveram (CCCL = 350). O autor Mark Twain proclamou o Monumento do Leão como “a pedra mais triste e comovente do mundo“. A pose do leão foi copiada em 1894 por Thomas M. Brady (1849–1907) para o seu Leão de Atlanta, que comemora os soldados confederados desconhecidos sepultados no Cemitério de Oakland em Atlanta, na Geórgia, EUA.

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Como curiosidade, os moradores na cidade de Lucerna, gostam de contar que Bertel Thorvaldsen não foi pago pelo seus serviços e assim ele projetou o leão na pedra dentro de um buraco na forma de um porco, como uma forma de vingança ao povo da cidade. Se é verdade ou não, ninguém sabe ao certo, mas o escultor dinamarquês só viu a criação que havia projetado, vinte anos mais tarde, em 1841 e elogiou o trabalho de Lukas Ahorn. O leão é a personificação consumada de tristeza e dor, uma lembrança do feito heroico dos guardas, que se sacrificaram pela salvação do rei de um país estrangeiro.

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Fontes: 1 2 3 4

Artigo publicado inicialmente em 5 de dezembro de 2015

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Ver Comentários (4)

4 Comentários

  1. Elizabeth Rodrigues

    24 de abril de 2016 às 17:11

    Quando fui a Suiça fiz questão de visitar esse lugar em Lucena. Ao olhar para o leão da a nítida impressão de que ele vive em sofrimento.

    • Magnus Mundi

      17 de maio de 2016 às 12:15

      Elizabeth, parabéns na escolha dos roteiros de suas viagens e acredito que essa foi justamente a sensação que o artista queria que as pessoas tivessem ao ver o monumento e foi muito feliz em seu planejamento.

  2. Marisa Mendonça

    28 de julho de 2016 às 09:34

    Amei…emocionante

  3. Juliane Budant

    27 de julho de 2017 às 10:26

    É realmente de tirar o folego, uma das melhores obras que vi na Europa.
    Parabéns pela matéria.

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