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Os curtumes de couro de Fez no Marrocos

Os curtumes de couro de Fez no Marrocos

A cidade de Fez, a terceira maior cidade do Marrocos, foi fundada por Idriss Ben Abdallah, um dos descendentes de Maomé no século 8 e atualmente abriga mais de um milhão e quatrocentos mil pessoas, sendo também o local da mais antiga universidade do mundo segundo o Livro Guinness dos Recordes. Chamada Al Quaraouiyine, foi fundada em 859, por Fatima al-Fihri, filha de um próspero comerciante na época. Naquela época, Fez floresceu como polo comercial, e tendo aproximadamente 200 mil habitantes, sendo a maior metrópole do planeta.

Em Fez se encontra a maior Medina, também chamada Almedina de Fez do mundo árabe. Com mais de 1200 anos, a Medina de Fez é classificada como Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1981, por sua arquitetura, que preserva a sua história milenar. Verdadeiro labirinto, a Medina se situa em uma área de 350 hectares, com 170 mil habitantes, 25 mil casas, 250 mesquitas e milhares de estabelecimento comerciais distribuídos em 10 mil vielas. Fez atingiu o seu apogeu no século 9, sobre o controle dos Merínidas, quando substituiu Marraquexe como capital do país. O planejamento urbano e a maior parte dos monumentos – madraçais, fontes, palácios e mesquitas – datam desse período. Embora a capital política de Marrocos tenha se transferido para Rabat em 1912, Fez permanece a sua capital cultural e espiritual. Fez foi construída em três diferentes momentos da história, e recebeu três nomes: Fes el Bali, Fes Jdid e Nouvelle Ville.

A cidade foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO em 1981. A parte mais velha que praticamente parou no tempo, sendo localizada por trás de um muro alto, com becos estreitos e sem circulação de carros, onde centenas de comerciantes e artesãos vendem uma variedade de produtos. Fez é famosa por seus produtos de couro e a maior parte vem do bazar de couro (souq). Souq é o local de três antigos curtumes de couro, sendo Chaouwara Tanneries, o maior e mais velho, com quase mil anos de idade.

Os curtumes de Fez são compostos de inúmeros pequenos tanques feitos de tijolos e cimento com até um metro e meio de profundidade preenchidos com uma vasta gama de corantes e vários líquidos espalhados como se fosse uma imensa palheta com tintas que mais parecem aquarelas. Dezenas de homens, mergulhados até a cintura no corante, trabalham sob o sol quente, manuseando os couros e imergindo-os profundamente nos tanques. Tais curtumes processam as peles de vacas, ovelhas, cabras e camelos, transformando-os em produtos de couro de alta qualidade, como casacos, calçados, chinelos e utilizados no revestimento de cadeiras, sofás e outros artigos de decoração. Todo esse trabalho é feito manualmente, sem a necessidade de máquinas modernas, e o processo mal mudou desde os tempos medievais, o que torna esses curtumes uma atração turística, atraindo milhares de turistas todos os anos.

Em Chouara Tannery, as peles são primeiro embebidas em uma mistura de urina de vaca, cal viva, água e sal. Esta mistura caustica ajuda a amolecer o couro resistente, afrouxando o excesso de gordura, carne e pelos que estejam na pele. Os couros são encharcados por dois ou três dias, e nessa etapa os homens eliminam a carne e pelos, a fim de preparar os couros para o tingimento. Os couros então são embebidos em outro conjunto de tanques contendo uma mistura e água e excremento de pombo, que contém amônia que atua como agentes amaciadores e permitem que os couros se tornem maleáveis e assim possam absorver o corante. O curtidor dentro do tanque usam seus pés descalços para amassar os couros por até três horas, até alcançar a maleabilidade desejada.

Depois os couros são transferidos para tanques contendo corantes naturais, como flor de papoula (vermelho), índigo (azul) henna (laranja), madeira de cedro (marrom), hortelã (verde), açafrão-da-terra (amarelo) e para o preto o antimônio. Até algumas décadas atrás, o tingimento era feito exclusivamente com corantes vegetais. Mas hoje, os corantes industrializados tomaram conta do mercado, mesmo os marroquinos preferirem negarem a mudança. Outros materiais utilizados para o tingimento incluem pó de romã, que é esfregado nos couros para torná-los amarelados e o azeite que os tornará brilhantes.

Uma vez que o couro esteja na tonalidade desejada, são levados para secar sob o sol. O couro acabado é então vendido aos artesãos que fazem os famosos chinelos marroquinos, conhecidos como babuches, bem como carteiras, bolsas, móveis e outros acessórios de couro. Muitos destes produtos são exportados para os mercados europeus.

O melhor ponto de vista para observar o trabalho dos artesãos do couro é do alto de qualquer prédio que circunde o espaço. Estrategicamente, os comerciantes que vendem produtos de couro adquiriram quase todos os imóveis na redondeza.Aproveitando da curiosidade nata do turista, os comerciantes convidam o visitante a entrar na loja e subir até o último andar, onde terão a melhor vista – de verdade – dos poços onde o couro é curtido e tingido. Provavelmente o vendedor será o guia, informando também como são tratados os couros e de onde vêm os corantes. As fezes de pombo, urina de vaca e restos de carne putrefata produzem um cheiro tão forte e repugnante no local que os guias geralmente fornecem ramos de hortelã aos visitantes que os colocam próximos as narinas e assim ajudam a superar o odor.

Os curtumes de couro de Fez no Marrocos

Crédito da foto

Os curtumes em Fez ganharam importância quando os árabes começaram a ser expulsos da Espanha, no século 13. Até então, Córdoba era a principal produtora de couros no mundo ocidental. Mas com a partida dos árabes, Córdoba teria perdido também a mão-de-obra especializada, o que teria dado espaço para Fez se tornar o novo polo de produção. Com uma tradição de oito séculos de curtumes, Fez pretende manter essa tradição viva. Nos últimos anos, foram feitos planos pra transferir a atividade pra fora da cidade pelo cheiro e a poluição provocada (todos os resíduos químicos são jogados no Rio Oued Sebou), mas como o impacto econômico seria gritante, a ideia foi ficando pra depois.

Os curtumes de couro de Fez no Marrocos

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Fontes: 1 2 3

“Como todo grande viajante, vi mais do que poderia me lembrar e me lembro mais do que poderia ter visto”. – Benjamin Disraeli

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