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Pequeno cão marrom, memorial contra o sofrimento dos animais

Pequeno cão marrom, memorial contra o sofrimento dos animais

A vivissecção é o ato de dissecar um animal vivo com o propósito de realizar estudos de natureza anatomo-fisiológica. No seu sentido mais genérico, define-se como uma intervenção invasiva num organismo vivo, com motivações científico-pedagógicas. The Little Brown Dog (O pequeno cão marrom) é um símbolo contra a vivissecção. A triste história deste Terrier começa em 1902, quando o Professor Ernest Starling da University College London fez a primeira cirurgia no animal, retirando-lhe o seu pâncreas e deixando-o nos dois meses seguintes numa gaiola — gemendo e chorando.

Em fevereiro de 1903, o sádico médico reabriu o abdômen do cãozinho para verificar os resultados da primeira cirurgia, fechando o corte com grampos; a seguir, passou o animal para o Dr. William Bayliss, que fez um novo corte, agora no pescoço, durante uma aula. Depois de meia hora, o cãozinho marrom passou para as mãos de um estudante que matou o cão, apunhalando-o com uma faca, seu coração.

A estátua do pequeno cão marrom

Reconstituição da demonstração de vivissecção de 1903 por William Bayliss mostrada na corte durante o julgamento de novembro de 1903, em Londres. William Bayliss está de pé atrás de um cão em uma mesa de operação, e à sua direita, Ernest Starling, juntamente com outros técnicos. | Crédito da foto: Arquivos da University College London

Naquele dia, duas suecas e anti-vivissecionistas — Leisa Schartau e  Louise Lind-af-Hageby — se matricularam como estudantes para documentar tais incidentes e assistiram à aula do Dr. Bayliss. No mesmo ano, as mulheres publicaram um livro intitulado The Shambles of Science: Extracts from the Diary of Two Students of Physiology, onde expuseram os métodos cruéis dos pesquisadores. O livro chamou a atenção de Stephen Coleridge, secretário da NAVS – National Anti-Vivisection Society, que percebeu que duas leis contra a crueldade haviam sido transgredidas no manuseio do animal – ele não havia sido anestesiado e tinha sido usado em mais de um experimento. Quando Coleridge criticou publicamente os cientistas, Dr. Bayliss processou Coleridge por difamação e ganhando a ação.

A estátua do pequeno cão marrom

A nova estátua do cão de Brown, por Nicola Hicks, em Battersea Park. | Crédito da foto: Tagishsimon / Wikimedia

No entanto, se Coleridge perdeu nos tribunais, diante da opinião pública ele saiu vitorioso: a maioria da população ficou horrorizada com o sofrimento do cãozinho. Em quatro meses foram conseguidos 5.735 libras e uma estátua de bronze em sua homenagem foi inaugurada, em 15 de setembro de 1906, num local isolado perto da Old English Garden, em Battersea Park, Londres, Inglaterra. A estátua retratava um cão sentado ereto sobre uma fonte de água cilíndrica, que tinha bebedouros separados para seres humanos e animais. A estátua tinha uma placa que dizia:

“Em memória do cão terrier marrom levado a morte nos laboratórios da University College, em fevereiro de 1903, depois de ter suportado vivissecções por mais de dois meses, tendo sido entregue de um pesquisador para outro, até que finalmente a morte o libertou. Também em memória dos 232 cães que foram vivissectados no mesmo lugar durante o ano de 1902. Homens e mulheres da Inglaterra, por quanto tempo será tolerado esse tipo de coisa?”

Os estudantes de medicina e de veterinária de Londres ficaram ofendidos com a placa, devido à natureza acusatória da inscrição. Eles repetidamente vandalizaram o memorial, protestando contra a estátua e acabavam confrontando-se com jovens trabalhadores. Em novembro e dezembro de 1907, centenas de estudantes se rebelaram nas ruas e fizeram outros ataques contra o monumento, fazendo com que fosse necessário usar a força policial para controlar a multidão. Muitos estudantes foram presos e multados. Tais confrontos ficaram conhecidos como os Tumultos do Cão Marrom. Após esses incidentes, guardas foram posicionados ao lado da estátua para protege-la 24 horas dor dia.

A estátua do pequeno cão marrom

A estátua original do cão marrom. | Crédito da foto: National Anti-Vivisection Society

Uma tentativa do conselho da cidade de tirar a inscrição falhou, pois argumentaram que o que estava escrito de fato aconteceu. No entanto, vieram as eleições e um novo conselho foi empossado, agora nas mãos de outra ideologia política, aprovou a retirada do monumento, o que aconteceu no dia 10 de março de 1910; a remoção causou grande descontentamento, a ponto de três mil pessoas protestarem em Trafalgar Square e exigirem que a estátua fosse devolvida, mas sem sucesso.

Passados tantos anos, a vivissecção continua, ainda que feita às escondidas em indústrias de cosméticos, por exemplo. Então, em dezembro de 1985, a National Anti-Vivisection Society erigiu uma nova estátua (esculpida por Nicola Hicks) do cãozinho marrom em Battersea Park, para lembrar o sofrimento de milhões de animais de laboratório no mundo todo — e principalmente, para que o sofrimento daquele cãozinho marrom jamais seja esquecido. Ele tem a mesma inscrição que o original, embora não haja bebedouro desta vez.

A estátua do pequeno cão marrom

Protestos do dia 19 de março de 1910 em Trafalgar Square, Londres contra a remoção da estátua.

A estátua do pequeno cão marrom

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“Aprenda com o ontem, viva para o hoje, acredite no amanhã. O importante é não parar de questionar!”. – Albert Einstein

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