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Sheela na gigs, os entalhes eróticos da Idade Média

Sheela na gigs, os entalhes eróticos da Idade Média

As sheela na gigs são entalhes figurativos medievais em pedra de mulheres de cócoras e nuas mostrando uma vulva exagerada encontradas principalmente em igrejas, castelos e outras edificações, especialmente na Irlanda e Grã-Bretanha, às vezes junto a figuras masculinas. Na Irlanda se encontra o maior número de Sheela na Gigs conhecidas. No livro The Sheela-na-Gigs of Ireland and Britain: The Divine Hag of the Christian Celts – An Illustrated Guide (Guia Ilustrado – A Divina Bruxa dos Celtas Cristãos), Jack Roberts e Joanne McMahon citam 101 exemplares encontrados na Irlanda e apenas 45 encontrados na Grã-Bretanha, mas podem ser encontradas em toda a Europa ocidental e central. Um dos melhores exemplares pode ser encontrado na Round Tower em Rattoo, no Condado de Kerry na Irlanda. Outro bem conhecido pode ser visto em Kilpeck, em Herefordshire, na Inglaterra.

Sheela na Gigs, os entalhes pornográficos da Idade Média

Sheela na gig na igreja de St Mary and David em Kilpeck, Inglaterra | Crédito da foto

O que torna essas esculturas tão intrigantes é o fato de que elas terem sido encontradas predominantemente em edifícios religiosos medievais, como igrejas e locais monásticos. Estudiosos dizem que os entalhes protegem da morte e do mal. Outras figuras grotescas como gárgulas também são encontradas em igrejas por toda a Europa, sendo comum dizer que a sua presença afasta os espíritos malignos. São comuns sobre portas e janelas, para proteger estas abertura.

Os homens no passado acreditavam que resolviam algumas situações expondo a genitália feminina. Também acreditavam que por essa inusitada tática adquiriam boa sorte, além de poder de expulsar demônios, de espantar algum mal iminente ou fazer com que leões e ursos corressem sem agredi-los. Acreditavam que diante de uma vagina exposta tornavam-se melhores guerreiros, melhores homens. Acreditavam, enfim, que diante de qualquer adversidade, levantar as saias de uma mulher era a melhor opção. O ato concedia-lhes poder e segurança. A crendice passou de várias gerações e existiu, em algumas culturas, até o século 18. De qualquer maneira, a exposição da vagina era bem interpretada em diversas situações. É neste contexto que, acredita-se, estão inseridas algumas das muitas teorias em torno das sheela na gigs.

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Sobre uma janela da Igreja de St. Munna em Taghmon, Westmeath, Irlanda | Crédito da foto

Quando essas esculturas chamaram a atenção pela primeira vez da comunidade científica séculos atrás, elas foram consideradas vulgares, repulsivas e sem nenhum interesse em se fazer um estudo mais sério sobre o assunto. Os clérigos ficaram embaraçados e mandaram tirar essas imagens das paredes das igrejas. Os arqueólogos também as ignoraram, enquanto os museus as guardavam em caixas, longe das vistas do público. Foi apenas nas últimas décadas que os acadêmicos começaram a se interessar e a estudar tais esculturas inusitadas. Com o passar do tempo, a maioria das sheela na gigs foram destruídas pelos puritanos, que as consideravam obscenas e indecentes.

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Sheela na Abadia de Romsey, Inglaterra |  Crédito da foto

Apesar das inúmeras teorias, sua origem e significado continuam sendo um mistério. Enquanto os sheela na gigs parecem ser de natureza erótica, eles são provavelmente símbolos pagãos de fertilidade ou avisos contra a luxúria. Na arte românica do período medieval, a luxúria era frequentemente retratada como uma mulher nua com cobras e sapos comendo seus seios e órgãos genitais. Os edifícios de igrejas ao longo de muitas rotas de peregrinação representavam uma variedade de figuras exibicionistas, tanto masculinas como femininas, para alertar os fiéis sobre os perigos do pecado da luxúria. A ênfase estava sempre na genitália, que eram feitas de maneira desproporcional. Essas esculturas exibicionistas femininas românicas poderiam ter dado origem as sheela na gigs.

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Um sheela na gig na caverna de Royston, Inglaterra | Crédito da foto

Um ponto de vista sustentado por Anthony Weir e James Jerman, é que as Sheelas foram talhadas pela primeira vez na França e na Espanha no século 11, e o motivo chegou depois à Grã-Bretanha e Irlanda no século 12. Eamonn Kelly, Conservador de Antiguidades Irlandesas do Museu Nacional da Irlanda em Dublin, fala no seu livro Sheela-na-gigs: origins and functions sobre a distribuição das sheelas na Irlanda para apoiar a teoria de Weir e Jerman: quase todas as sheelas conservadas in situ estão em regiões conquistadas pelos anglonormandos (século 12), enquanto nas zonas que permaneceram “irlandesas nativas” aparecem só umas poucas. Weir e Jerman também argumentam em Images of Lust que a sua localização nas igrejas e a sua imagem grotesca sugerem que foram usadas para representar a luxúria feminina como horrível e pecaminosamente corrompedora.

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À esquerda, sheela na gig no muro da cidade Fethard, County Tipperary, Irlanda, a outra imagem é um sheela exposto num museu | Crédito da foto

A origem do nome, sheela na gigs também é um mistério. De acordo com Jørgen Andersen – cujo livro The Witch on the Wall (A Bruxa na Parede), publicado em 1977, foi o primeiro livro sério a tratar sobre essas esculturas – o nome vem da frase irlandesa Sighle na gCíoch, que significa “a velha bruxa dos seios“, ou Síla-na Giob, que significa “velha agachada“. Mas alguns estudiosos expressaram dúvidas sobre a conexão, já que muito poucos sheela na gigs são mostrados com seios. Barbara Freitag, uma estudiosa sobre o assunto, descobriu que “gig” era na verdade uma gíria do norte da Inglaterra para os órgãos genitais de uma mulher.

De qualquer maneira, as sheela na gigs nos trazem uma pequena noção de como a sexualidade da mulher era tratada por algumas culturas. Ora interpretada como sorte – por uma sociedade que lhe concedia poder e controle sobre os seres; ora interpretada como praga – por uma sociedade que execrava os desejos femininos e amaldiçoava quem ousasse saciá-los. Seja como for, a sexualidade feminina jamais foi interpretada como natural, sendo necessário, sempre, justificar sua existência e suas implicações, boas ou ruins.

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Numa pedra angular no Castelo Esker, perto de Doon, Irlanda | Crédito da foto

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Em Rodel na Escócia | Crédito da foto

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A Moura Pena Furada em Coirós, Espanha, a figura mais antiga da Europa | Crédito da foto

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No British Museum | Crédito da foto

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Ballyvourney, Irlanda | Crédito da foto

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Sheela na gig na Igreja Stretton, Reino Unido | Crédito da foto

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Na Kirkwall Cathedral, Orkney, Reino Unido | Crédito da foto

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Na igreja de St Oswald, Ashbourne, Inglaterra | Crédito da foto

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Bishop’s tomb, Kildare, Reino Unido | Crédito da foto

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Sheela na gig na igreja de St Mary and David, em Kilpeck, Inglaterra | Crédito da foto

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Igreja em Kilpeck, Herefordshire, Inglaterra | Crédito da foto

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Numa parede a sete metros de altura, num castelo em Killeagh, Irlanda | Crédito da foto

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Igreja Stretton, Inglaterra | Crédito da foto

Fontes: 1 2 3 4 5

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. – Fernando Teixeira de Andrade

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