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A barragem que veio abaixo

A barragem que veio abaixo

Assim que foi inaugurada, a Barragem de St. Francis, na Califórnia virou atração turística, levando centenas de pessoas a caminhar pela passarela no topo da barragem. Mal sabiam elas que dois anos depois, a barragem viria abaixo, e a onda que se formou varreu tudo pelo caminho, matando cerca de 470 pessoas. Pelo menos seis cidades foram atingidas gravemente ao longo do vale San Francisquito com a força de 24 hm³ de água liberada pelo reservatório.

Esta foi a segunda maior tragédia na história da Califórnia, atrás apenas do terremoto que devastou São Francisco em 1906. No dia 12 de março de 1928, a barragem de Saint Francis, a 60 quilômetros de Los Angeles, não aguentou a pressão do lago artificial e rompeu-se. Devido ao deslizamento da ombreira esquerda da barragem a estrutura em arco colapsou, levando ao esvaziamento do reservatório em pouco mais de 1 hora.

O motivo da catástrofe foi uma inacreditável erro de cálculo cometida pelo engenheiro William Mulholland, então chefe do Departamento de Água e Energia da cidade de Los Angeles e responsável tanto pelo projeto quanto pela obra. Ainda em 1924, dois anos antes da inauguração, Mulholland decidiu aumentar a altura da barragem em 3 metros para ampliar a capacidade de armazenamento do lago que ela formaria. O problema é que, por incrível que isso possa parecer, o engenheiro ignorava as características geológicas do cânion onde a barragem estava sendo construída. As rochas eram muito porosas – e potencialmente instáveis.

Perigo iminente

A barragem foi inaugurada em 1926 com 185 metros de largura e 59 metros de altura. Logo em seguida, surgiram as primeiras rachaduras no paredão de concreto. O engenheiro foi lá, deu uma olhada e saiu dizendo que elas não eram motivo de preocupação. Numa obra daquele porte, concluiu Mulholland, aquilo só poderia ser algo corriqueiro. Novos sinais de que alguma coisa ia mal foram aparecendo nos meses seguintes – para Mulholland, tudo dentro da mais completa normalidade. Até que, 5 dias antes da tragédia, um funcionário alertou para rachaduras maiores e algum vazamento de água. Pela enésima vez, o engenheiro foi dar uma espiada no problema, mas tornou a não ver ali um perigo iminente. Poucas horas depois de sua última inspeção, a barragem ruiu.

Uma onda de 47 milhões de litros de água inundou o vale de Santa Clarita e avançou em direção ao oceano Pacífico, com velocidade estimada de 29 km/h. No caminho, foi destruindo tudo. A cidade de Santa Paula ficou debaixo de 6 metros de lama e destroços. Áreas enormes do município de Ventura foram tomadas por montanhas de detritos com mais de 20 metros de altura. A onda de cheia percorreu mais de 86 quilômetros desde o local da barragem até o oceano Pacífico. Neste ponto, a onda tinha uma velocidade aproximada de apenas 2 m/s, mas atingia uma largura de mais de 3 quilômetros. Quando a busca por corpos foi finalmente encerrada, semanas depois, o número de mortos e desaparecidos chegava a 470.

Por água abaixo

Uma investigação iniciada logo após o acidente levantou várias hipóteses, inclusive a de que um terremoto pudesse ter provocado o rompimento da barragem – ideia rapidamente descartada. Concluiu-se que a instabilidade geológica do cânion era mesmo a responsável. E Mulholland – com perdão do trocadilho – viu sua carreira ir por água abaixo. Sete décadas mais tarde, num estudo de caso definitivo publicado em 1997, o engenheiro J. David Rogers, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia do Missouri, apontaria 3 fatores como determinantes para a tragédia: além da porosidade das rochas, a falta de um reforço estrutural para suportar a capacidade extra, decidida em 1924, e a centralização de tudo – projeto, construção e monitoramento da represa- numa única pessoa.

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A Destruição

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A força das águas eram tão fortes que conseguiu arrastar um bloco de concreto de 30 metros de altura por 54 metros de largura por mais de um quilometro.

A força das águas eram tão fortes que conseguiu arrastar um bloco de concreto de 30 metros de altura por 54 metros de largura por mais de um quilometro.

 

Capa do Jornal Los Angeles Times, noticiando a tragédia.

Construção da Barragem de St. Francis

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Fonte: 1 2 3 4

“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem)

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Me chamo Julio Cesar, e moro no litoral de Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, que tem como objetivo descrever lugares curiosos, estranhos ou inóspitos, bem como lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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