Até 2008, no norte da Rússia, nos arredores da cidade de Arcangel (Arkhanguelsk), distrito de Solombala, perto do rio Dvina, havia uma casa alta de madeira – uma casa que era uma confusão caprichosa de tábuas colocadas desordenadamente em todas as direções, mas principalmente para cima.

A casa bizarra de Nikolay Sutiaguin

Crédito imagem: Nikolai Gernet/Sputnik

De longe, parecia um pagode japonês, mas de perto era uma estrutura fantasmagórica que mais parecia o covil de um perverso personagem de algum conto de fadas. A casa não existe mais, mas em sua época, a Casa Sutyagin foi considerada a estrutura de madeira mais alta do mundo. Tinha treze andares em 44 metros de altura. Moradores locais colocaram diversos apelidos na casa, entre eles: galinheiro, casa de gângsteres, palácio do Conde Drácula, entre outros.

A história da construção do arranha-céu de madeira começou em 1991, quando a União Soviética entrou em queda. Nikolai Petróvitch Sutiaguin, funcionário ambicioso de uma empresa de construção estatal, rapidamente se tornou um empresário de sucesso em Arcangel, em meio às grandes mudanças econômicas da década na Rússia. Sutiaguin fundou nada menos que uma dúzia de empresas, aventurando-se nos campos de construção, beneficiamento de madeira e até alfaiataria.

O ex-construtor soviético começou então a expandir suas conexões com parceiros internacionais e autoridades locais. Estava na hora deste novo milionário ter um local de residência condizente com seu novo status. E assim, Sutiaguin abandonou seu quarto em um apartamento comunal e lançou as bases para o que em breve seria um gigante de madeira nos subúrbios de Arcangel, construindo-a por quinze anos seguidos.

A casa bizarra de Nikolay Sutiaguin

Crédito imagem: Aleksêi Lipnitski/TASS

O empresário escolheu a madeira não apenas por ser o produto mais ecológico e abundante da região, mas também pelo fato de ser material com o qual conseguiu criar seu pequeno império.

Depois de viajar pelo mundo pela primeira vez no início da década de 90. Sutiaguin tentou recriar a estrutura conforme suas impressões dos países capitalistas, além de seu gosto e fantasias pessoais. Especialmente fascinado pelas catedrais góticas na Alemanha e pelos pagodes (torres) no Japão e casas e igrejas de madeira na Noruega, o empresário resolveu adicionar algumas mudanças em sua casa de dois andares, acrescentando outros andares.

A casa bizarra de Nikolay Sutiaguin

Em suas entrevistas, Sutiaguin chegou a lembrar que, sempre que adicionava um novo andar, a obra não parecia completa; então pedia aos carpinteiros que adicionassem mais e mais andares, escadarias e torres extras. Seu objetivo final era ver o Mar Branco diretamente de casa, apesar da distância de quarenta quilômetros entre os dois.

A casa bizarra de Nikolay Sutiaguin

Crédito imagem: Nikolai Gernet/Sputnik

Inspirado pela ideia de criar um local de entretenimento verdadeiramente único para os parceiros internacionais e as elites locais, também conseguiu erguer uma casa de cinco andares que incluía salão de dança, sala de bilhar e alguns quartos privados.

Enquanto a casa de Sutiaguin crescia, o interesse internacional por ela também aumentava. Por vários anos, nos anos 90 e início dos anos 2000, o edifício fantasioso foi, de fato, popular, e milhares de turistas pediam a seus guias que adicionassem a peça arquitetônica incomum ao seu passeio por Arcangel. No auge de sua popularidade, a casa chegou a ser proposta para o Livro Guinness dos Recordes como o edifício de madeira mais alto do mundo.

A casa bizarra de Nikolay Sutiaguin

Crédito imagem: Aleksêi Lipnitski/TASS

Os vizinhos do arranha-céu, no entanto, tinham uma perspectiva diferente. Em diversos registros, eles se queixaram do risco de incêndio que o prédio impunha a todo o bairro de madeira, bem como dos sons sinistros do prédio quando o vento soprava, acompanhados por quedas intermitentes de tábuas nos quintais vizinhos.

Assim que novas autoridades locais substituíram as anteriores, as queixas sobre o edifício enfim tiveram resposta. O novo governo apreendeu o prédio e abriu um processo contra Sutiaguin, alegando que a casa quebrava todos os regulamentos possíveis, incluindo o que proíbe proprietários privados de erguer edifícios mais alto que dois andares sem obter alvará.

Como a construção do arranha-céu aconteceu sob patrocínio indireto do governo da década de 1990, o edifício carecia de plano arquitetônico ou documentos legais de propriedade para provar sua legitimidade.

A casa bizarra de Nikolay Sutiaguin

Crédito imagem: Legion Media

Começou então uma era sombria para o projeto de Sutiaguin. Além de ser processado pelo gigante de madeira, Sutiaguin foi preso por dois anos por extorsão. Após sua libertação, ele persistiu na construção da casa, ignorando o processo relacionado ao arranha-céu, cuja conclusão parecia se aproximar rapidamente.

Ao longo dos anos do julgamento, ele adicionou um telhado improvisado em ambas as laterais do prédio acima do segundo andar para evitar as acusações legais e afirmar que toda a construção erguida sobre o telhado eram meramente decorativa.

No entanto, em 2008, o tribunal decidiu que o famoso símbolo arquitetônico de Arcangel da década de 1990 deveria ser demolido, porque não possuía bases jurídicas ou lógicas. Em dezembro de 2008, as torres foram demolidas e o edifício ficando apenas com quarto andares e permaneceu erguido até a construção pegar fogo e engolir os restos do sonho de Sutiaguin em maio de 2012.

Por incrível que pareça, o ex-empresário Sutiaguin ainda não desistiu: ele não somente está tentando obter uma compensação pela destruição de sua casa, como pretende construir um novo símbolo de suas aspirações.

A casa bizarra de Nikolay Sutiaguin

Crédito imagem: Parametsiya (CC BY-SA 3.0)

A casa bizarra de Nikolay Sutiaguin

Crédito imagem: Ministério de Emergência da região de Arkhanguelsk

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Sobre o Autor

Curioso desde sempre, queria um lugar para guardar às curiosidades de lugares e histórias inusitadas que lia em livros ou pela internet e assim nasceu o site Magnus Mundi em 2015. Me chamo Julio Cesar, sou natural de Blumenau e morador de Porto Belo, litoral de Santa Catarina.

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