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A morte negra e os doutores da peste

A morte negra e os doutores da peste

Peste negra, peste bubônica ou também chamada de Morte negra é o nome pela qual ficou conhecida uma das mais devastadoras pandemias na história humana, resultando na morte de 75 a 200 milhões de pessoas na Europa e Ásia. Somente no continente europeu, estima-se que tenha vitimado pelo menos um terço da população em geral, sendo o auge da peste acontecendo entre os anos de 1346 e 1353.

A doença foi causada por uma série complexa de cepas bacterianas chamadas Yersinia pestis, encontrada no trato digestivo dos ratos pretos (Rattus rattus) e transmitida ao ser humano através das pulgas (Xenopsylla cheopis ou Cortophylus fasciatus), mas em circunstâncias excepcionais, pode viver na pulga humana (Pulex irritans), podendo até ‘hibernar’ por seis meses em condições favoráveis em fardos de feno, estercos, entre outros.

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Em geral, as pulgas são benignas, mas ocasionalmente, por motivos que os epidemiologistas ainda não entendem, os bacilos se multiplicam no estômago de uma pulga até causarem um bloqueio. A pulga ‘bloqueada’ regurgitará na corrente sanguínea da vítima enquanto se alimenta, infectando-a com a peste.  Havia três variedades de peste: bubônica, pneumônica e septicêmica. A bubônica é de longe a mais comum. Cerca de seis dias após sofrer a picada da pulga infectada, a vítima desenvolve uma pústula enegrecida no ponto da picada.

Isto é seguido por inflamação dos gânglios linfáticos do pescoço, virilhas e axilas, que era como o corpo tentava lidar com a infecção. Estes são os bubões, dos quais a peste bubônica recebe seu nome. Finalmente, ocorre hemorragia subcutânea, causando manchas arroxeadas. Os bacilos sobrecarregam o sistema nervoso, causando distúrbios neurológicos e psicológicos que podem explicar os rituais da dança macabra associados à peste negra e matar 50-60% de suas vítimas.

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A bactéria Yersinia pestis vista no microscópio

Já a peste pneumônica atacava os pulmões e a septicêmica acatava o sangue, ocasionando hemorragias em diversas partes do corpo. Dança macabra ou dança da morte eram ilustrações que apareciam esqueletos humanos dançando em meio a todo tipo de pessoas, desde nobres, clérigos, camponeses, ricos ou pobres, mostrando assim que a doença matava a todos, de todas as classes, raças, sem piedade.

O aspecto dos doentes era horrível, os tumores secretavam sangue e pus, a urina, o suor, a saliva e o escarro apresentavam aspecto escurecido (daí o nome peste negra). Há relatos de que as pessoas acometidas pela peste fediam muito. Entre os sintomas é importante ressaltar a febre alta e dores fortíssimas. Como não havia cura, as pessoas usavam vinagre pra tentar se defender, tendo em vista que tanto os ratos quanto as pulgas evitam seu cheiro. O número de mortos era tão grande que eram abertas enormes valas comuns.

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A peste em Winterthur em 1328 | Litografia de A. Corrodi, Crédito: Wellcome Library, Londres.

Acredita-se que a peste tenha surgido nas planícies áridas da Ásia Central e foi se espalhando principalmente pela rota da seda, alcançando a Crimeia em 1343.  No total, a praga pode ter reduzido a população mundial de em torno de 450 milhões de pessoas para 350–375 milhões em meados de século 14.  A população humana não retornou aos níveis pré-peste até o século 17. A peste negra continuou a aparecer de forma intermitente e em pequena escala pela Europa até praticamente desaparecer do continente no começo do século 19.

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Ilustração da peste pelas ruas de Londres

As populações de alguns roedores das pradarias viviam em altíssimos números em enormes conjuntos de galerias subterrâneas que comunicavam umas com as outras. O número de indivíduos nestas comunidades permitia à peste estabelecer-se porque, com o constante nascimento de crias, havendo sempre suficiente número de novos hóspedes de forma contínua para a sua manutenção endêmica. O rato preto não trouxe a peste para a Europa, mas os seus hábitos mais domesticados e mais próximos das pessoas criaram condições para a rápida transmissão da doença. No decorrer dos anos, a substituição natural pelo Rattus norvegicus, cinzento e muito arredio ao ser humano, foi certamente importante no declínio das epidemias de peste na Europa a partir do século 18.

Giovanni Boccaccio, poeta e crítico literário italiano descreveu os sintomas da doença: “Apareciam, no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões. Em seguida o aspecto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas de cor negra ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e em outros lugares do corpo. Em algumas pessoas as manchas apareciam grandes e esparsas; em outras eram pequenas e abundantes. E, do mesmo modo como, a princípio, o bubão fora e ainda era indício inevitável de morte, também as manchas passaram a ser mortais”.

“Para dar sepultura à grande quantidade de corpos já não era suficiente a terra sagrada junto às igrejas; por isso passaram-se a edificar igrejas nos cemitérios; punham-se nessas igrejas, às centenas, os cadáveres que iam chegando; e eles eram empilhados como as mercadorias nos navios”.

Guy de Chauliac, médico particular do papa Clemente VI que viveu em Avignon, França, escreveu um tratado complexo e influente sobre a cirurgia em latim, intitulado Chirurgia Magna. Foi traduzido em muitas outras línguas, e utilizado como obra de referência sobre cirurgia para médicos até ao século 17. Guy em seu diário catalogou todos os sintomas da doença e descriminado quais os tratamentos mais eficazes. No verão de 1348, prescreveu fogo como preventivo para o papa Clemente VI: Quatro grandes bacias de óleo e madeira com fogo aceso, foram dispostas em cada lado do trono papal. Uma fortaleza de chamas contra as investidas da peste. Foi graças ao fogo ou por sorte, o papa sobreviveu a peste.

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O triunfo da morte, de Pieter Bruegel, o Velho

Em Avignon, todos os burgueses deixaram a cidade, inclusive o papa. O médico Guy de Chauliac ficou para estudar a doença e tratar os pacientes e isso quase lhe custou a vida, deixando-o a beira da morte. Ninguém melhor que ele sabia quão escassas eram suas chances de sobreviver a peste. Em seu diário ele deixou o relato: “Próximo ao final da peste, desenvolvi febre e um inchaço na virilha. Fiquei enfermo durante três semanas e quando o inchaço amadureceu e tratei com figos e cebolas cozidas misturados com fermento e manteiga. Eu escapei com as graças de Deus

Em outro relato: “A grande mortandade teve início em Avignon em janeiro de 1348. A epidemia se apresentou de duas maneiras. Nos primeiros dois meses manifestava-se com febre e expectoração sanguinolenta e os doentes morriam em três dias; decorrido esse tempo manifestou-se com febre contínua e inchação nas axilas e nas virilhas e os doentes morriam em 5 dias. Era tão contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho a seu pai; a caridade desaparecera por completo”. E continua: “Não se sabia qual a causa desta grande mortandade. Em alguns lugares pensava-se que os judeus haviam envenenado o mundo e por isso os mataram”.

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Praga, por Arnold Böcklin | Se acreditava que a peste se alastrava pelo ar

Na época, a origem da peste foi atribuída aos povos estrangeiros, notadamente aos judeus. Por eles não serem da Europa e por desde a Idade Antiga estarem em migração por diversos países, acabaram se tornando o “bode expiatório” da doença e em muitas comunidades judaicas, muitos foram chacinados e queimados vivos pelos cristãos. No dia de São Valentim, em 1349, os cidadãos de Estrasburgo capturaram dois mil judeus e os queimaram vivos. Essa atrocidade foi repetida em mais de quinze cidades na Alemanha e na Suíça. O povo europeu foi de fato envenenado, mas não pelos judeus, mas sim pelo medo, pelo ódio e pela ignorância, uma combinação letal, mais descontrolada do que a própria peste negra.

No meio de tanto desespero e irracionalidade, houve alguns episódios notáveis. Muitos médicos medievais se dispuseram a atender os pestilentos com risco da própria vida. Adotavam para isso roupas e máscaras especiais. Alguns dentre eles evitavam aproximar-se dos enfermos. Muitos prescreviam à distância e lancetavam os doentes com facas de até 1,80 metros de comprimento.

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Os médicos de peste eram contratados pelas cidades que tiveram muitas vitimas em tempos de epidemias. Desde que a cidade estivesse pagando seu salário, eles tratavam todos: tanto os ricos como os pobres. No entanto, alguns médicos de peste eram conhecidos por carregar os pacientes e suas famílias para tratamentos especiais e/ou falsas curas. Normalmente não eram médicos profissionais treinados ou cirurgiões experientes, e muitas vezes eram médicos de segunda categoria que não haviam conseguido estabelecer-se na profissão ou jovens médicos que estavam tentando se estabelecer. Porem, a presença destes em uma cidade, significava que a morte estava por perto pois eles só eram chamados quando a doença já havia se espalhado por quase toda a cidade.

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Os médicos de peste tratavam aos pacientes segundo seus acordos e eram conhecidos como médicos municipais ou comunitários “da peste negra“, enquanto que “clínicos gerais” eram médicos distintos e ambos poderiam estar na mesma cidade ou comunidade europeia. Apesar de muitos não serem médicos profissionais, eles eram os únicos permitidos a fazerem autópsias em corpos humanos para a busca de uma cura. Nos séculos 17 e 18, alguns médicos usavam uma máscara com bico de pássaros, que era um tipo de máscara de gás primitiva, que continha perfumes em seu interior, como um filtro contra o fedor que emanava das vítimas da peste. Uma crença comum na época era que a doença se espalhava pelos pássaros e assim se acreditava que se vestindo com a máscara bico de pássaro poderia afastar a terrível doença.

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A máscara incluía lentes de vidro vermelho, o que supostamente tornava o médico imune ao mal. A roupa era completada com um longo casaco de couro, luvas e chapéu de aba larga. Muitos carregavam um bastão com uma ampulheta alada na extremidade que era usado para mover ou examinar o paciente e outras pessoas próximas. O bastão ajudava o médico a examinar o doente sem ter que tocá-los, além de ser usada como uma ferramenta para o arrependimento dos seus pecados. Muitos acreditavam que a peste era uma punição de Deus e pediam para serem espancados como uma etapa para se arrepender de seus pecados. A roupa com a máscara bico de pássaro foi inventada por Charles de Lorme em 1619; elas foram usadas ​​pela primeira vez em Paris, tendo mais tarde se espalhando para ser usada em toda a Europa.

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O bico da máscara era muitas vezes preenchido com especiarias, ervas aromáticas e palha para purificar e protegê-los do ar fétido, que era também considerada como a doença se espalhava. Realizava um duplo propósito, disfarçando o cheiro cadavérico, interrompendo a expectoração e a possível ruptura das pústulas bubônicas. Algumas das substâncias aromáticas incluíam âmbar, folhas de hortelã, erva cidreira, mirra, láudano, pétalas de rosa, cânfora e cravo da Índia. A palha fornecia um filtro para o “ar ruim”, que chamavam de Miasma. A Teoria do Miasma sempre esteve presente no popular europeu, tanto que, durante o Século 18, os nobres e a grande burguesia francesa não gostavam de morar ou ficar muito tempo em Paris ou em outro centro urbano francês, devido ao “miasma que a plebe exalava“.

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Pintura de 1348 mostrando como a peste devastou cidades européias como Florença

As roupas dos doutores da praga também tiveram um uso secundário: assustar e avisar aos curiosos. Sua figura tornou-se a imagem da morte, aves apocalípticas que, com sua presença, assustavam qualquer um que cruzasse seu caminho. Um médico de peste famoso que deu conselhos médicos sobre as medidas preventivas que podem ser tomadas contra a praga foi ninguém menos que Nostradamus. O conselho de Nostradamus foi remover cadáveres infectados, tomar ar fresco, água potável limpa, e tomar um suco preparado com rosa mosqueta. Nostradamus também recomendou não sangrar o paciente.

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Em alguns casos, os médicos de peste eram tão valiosos que, quando Barcelona enviou dois para Tortosa em 1650, bandidos os capturaram durante o caminho e exigiram um resgate. A cidade de Barcelona pagou por sua libertação. A cidade de Orvieto contratou Matteo fu Angelo em 1348 por quatro vezes a taxa normal de um médico de 50 florins por ano. O Papa Clemente VI contratou vários médicos da peste extras durante a epidemia da peste. Eles foram contratados para atender as pessoas doentes de Avignon. Dos dezoito médicos em Veneza, apenas um foi deixado em 1348: cinco tinham morrido da peste, e doze estavam desaparecidos e poderiam ter fugido.

Os médicos de peste praticavam sangria e outros remédios, como colocar rãs ou sanguessugas nas ínguas para “reequilibrar os humores” como uma rotina normal. Os médicos da peste não poderiam geralmente interagir com o público em geral, devido à natureza de seus negócios e a possibilidade de propagação da doença; eles também poderiam estar sujeitos a quarentena.

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Quadro em cera de uma cena da peste, Europa, 1657 | Crédito: Science Museum, London

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Inspirado pela Morte Negra, A Dança da Morte ou Dança Macabra, uma alegoria sobre a universalidade da morte, eram motivos de pintura comuns no final do período medieval.

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Ilustração de judeus sendo queimados vivos | Crônica de Nuremberg, 1493

Fontes: 1 2 3

“É o medo do desconhecido que impele todo mundo para os sonhos, para as ilusões, para as guerras, para a paz, para o amor, para o ódio. Tudo isto é ilusão. É isto o desconhecido. Aceite o desconhecido e será uma viagem tranquila”. – John Lennon

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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