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Salem, capital mundial das bruxas

Salem, capital mundial das bruxas

Jamais houve uma bruxa em Salem. Ou, pelo menos, nunca se conseguiu uma prova sequer de sua existência. Ainda assim, essa pequena cidade no Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, tornou-se mundialmente reconhecida como a cidade das bruxas. Sob essa alcunha virou livro, peça de teatro de Arthur Miller e filme de Hollywood (As Bruxas de Salem, de Nicholas Hytner). Dessa reputação depende boa parte de sua minúscula economia. Os carros da policia de Salem têm o vulto de uma bruxa estampado na insígnia que os identifica. As lojas da cidade vendem camisetas e canecas de chope com a logomarca da bruxa. Na época do Halloween, a cidade sedia um certo “Festival Assombrado”. E o slogan oficial de Salem é: um porto enfeitiçador.

Mapa da vila de Salem de 1962 | Clique na imagem para ampliar

Mapa da vila de Salem de 1962 | Clique na imagem para ampliar

Feiticeiras narigudas, que fervem poções e voam em vassouras, são figuras simpáticas e populares em todo o mundo. Mas, guardadas as proporções e o distanciamento histórico, o fato de Salem comercializar bruxinhas de plástico equivale à hipótese de a comunidade de Auschwitz decidir vender miniaturas de câmaras de gás ou fornos crematórios. O episódio que uniu indelevelmente o nome de Salem à imagem que ela cultiva ainda hoje não tem graça nenhuma. É, pelo contrário, uma história terrível, cujos personagens são torturadores e inocentes assassinados e o pano de fundo é a brutal conivência de uma sociedade ensandecida.

Diz-se que o único lado positivo de certas passagens da História é a vergonha resultante. Ela ensina a sociedade a não revivê-las. O episódio de Salem é um exemplo bem-acabado do desatino a que podem chegar comunidades intolerantes. Por isso, oportunamente, alguns setores da intelectualidade norte-americana – inclusive o próprio Arthur Miller, que topou adaptar sua peça para o cinema decidiram remexer a memória nacional, num momento em que uma onda neopuritana parece assolar o país. As “bruxas” são os seres politicamente incorretos. Nessa nova ótica, uma criança afetuosa corre o risco de ser estigmatizada como agressora sexual  e um fumante pode ser marginalizado como um pária. Essa crescente pressão moralista dá, portanto, uma assustadora atualidade aos fatos que ocorreram na Salem de 1692.

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Representação de “Tituba e as crianças” de Alfred Fredericks, do século 19

O pequeno porto na costa da Nova Inglaterra tinha cabalísticos 66 anos de existência quando as coisas começaram a acontecer. Era uma daquelas típicas comunidades puritanas implantadas por colonizadores austeros no nordeste dos Estados Unidos. Os sermões do reverendo de plantão, mais que predicas, eram promessas de castigos aos pecadores. E os pecadores eram todos aqueles que ousassem desviar dos rígidos padrões de conduta impostos pelas lideranças locais. De tão invocado, o demônio não era apenas uma temível abstração: era um possível vizinho. E foi esse “vizinho” que um certo dr. Griggs encontrou ao examinar os estranhos ataques e convulsões que acometeram Abigail Wiliams e Elisabeth Parris no final daquele inverno na Nova Inglaterra. Quem chamou o médico foi o reverendo Samuel Parris, pai de Elisabeth, à época com 9 anos, e tio de Abigail, que tinha 11.

O diabólico diagnóstico varreu a cidade como um pé de vento. O demo havia agido e era preciso encontrar os pecadores que o haviam atraído. “Precisamos caçar as bruxas”, brandiu outro reverendo, um tal de Cotton Mather, antecipando em três séculos a fúria persecutória do senador Joseph MacCarthy, que nos anos 50 descobria conspiradores comunistas em todas as esquinas da América e inspirou uma febre de delações por todo o país. O episódio teria ficado na circunstância do ridículo, não fosse o fato de que, seis meses depois desse brado, quinze mulheres, quatro homens e até dois cachorros (de “olhar diabólicos”, segundo os autos) de Salem haviam sido enforcados. O cidadão Giles Corey também foi enviado para o mesmo cemitério, vítima de tortura. E outras 100 pessoas apodreciam no cárcere, para que a comunidade se sentisse livre da ação do belzebu.

Salem, capital mundial das bruxas

Nos intermináveis julgamento das bruxas, eram comum as cenas de histeria e as acusações sem provas. | Pintura de Matteson de 1853

O fato é hoje descrito como “histeria coletiva” e há vários museus em Salem que reencenam os tenebrosos julgamentos realizados em 1962, para uma plateia que come pipocas e ri dos trajes curiosos – chapéus pontudos, túnicas largas – usados pelos seus antepassados. São esses espectadores que compram bruxinhas e ímãs de geladeira na hora da saída, incapazes de repetir o nome Tituba, mencionado na apresentação. Tituba foi o pivô da história. Escrava, nascida em Barbados, a moça trabalhava para o reverendo Parris e entretinha as meninas com suas histórias de vodu e feitiçaria, típicos daquela região do Caribe. Eram contos proibidos – eis por que Elisabeth e Abigail apenas os compartilhavam com outras adolescentes de Salem, o que gerou uma espécie de secreta confraria do terror.

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Salem Witch Trials Memorial Park construido em 1992. Cada banco de pedra tem o nome de uma das vinte vítimas mortas em 1692, acusadas de praticar bruxaria.

Mas depois dos estranhos ataques de convulsão – até hoje não se sabe se provocados por uma perturbação emocional ou uma arreliarem infantil – o assunto ganhou vulto. Pressionadas por reverendos e juízes, as meninas acabaram acusando de pratica de feitiçaria três mulheres: Sarah Good e Sarah Osborne, cidadãs malquistas pela comunidade. E a própria Tituba. Das três, Tituba foi a única a confessar que lidava com tais assuntos. E o fez alegremente, com ingênuo entusiasmo – o que lhe valeu a complacência dos tribunos. As duas Sarah (fumantes ou sexualmente deturpadas?) juraram inocência, mas acabaram na cadeia. E, porque insistissem em negar a transgressão, acabaram enforcadas, assim como outros que vieram depois.

As meninas, alçadas à posição de heroínas perante a comunidade, acabaram se entusiasmando. E, sempre pressionadas pelos juízes, acusaram mais gente. Não eram mais apenas párias da comunidade. Havia entre os eles ricos e prestigiados homens e mulheres. O testemunhos das duas pré adolescentes era bastante como prova. Os magistrados não exigiam outras evidências e não aceitavam negações. Tituba conseguiu escapar porque admitiu, sorridente, contar histórias de vodu. Mas, num segundo momento, a confissão também passou a significar forca. A negação, por sua vez, produzia tortura seguida de forca. E o silêncio significava, simplesmente, tortura.

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Casas preservadas desde 1692

Elisabeth e Abagail faziam sua partes no tribunal. Cada vez que se apresentava alguém denunciado, as meninas fingiam estar tocadas pelo demônio e anunciavam, para a plateia sugestionável, que estavam se sentido beliscadas ou mordidas. Qualquer pequena marca no corpo do réu era denunciada pelos promotores como evidência do pacto com o demo. A sentença, inapelável, era a morte. O grande vilão da história era o juiz John Hathorne, que parecia saber se aproveitar das fraquezas das testemunhas. Para assisti-lo no trabalho de acusação, ele chamava outras meninas que haviam ouvido as historias de Tituba. Num determinado momento, a garota Mary Warren, de 20 anos, quis retirar as acusações. Elisabeth e Abigail, mortas de medo, acusaram-na de bruxaria também.

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A estátua do puritano Roger Conant, que fundou a cidade, e o Museu das Bruxas

Salem viveu meses de purgação em sua fúria puritan. Até os cachorros de “olhar diabólico” foram estrangulados pela corda punidora. Os instrumentos de tortura, especialmente uma certa máquina de esmagar, foram usados sem piedade. Os que confessaram seu pacto com o diabo acabaram escapando. Mas um resistente, como Giles Corey, teve o crânio esmagado até o sangue lhe jorrasse pelo nariz – morto, mas sem confissão. As audiências atraiam o povo de Salem, que ficava impressionado com as atuações de Elisabeth e Abigail. Quem poderia duvidar de duas meninas tão novas? A imagem do puritano Roger Conant, o severo fundador da pequena e pedregosa comuna às margens do Atlântico, vinha à cabeça de todos. O demônio precisava ser expurgado.

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Curiosamente, o que mais se discute hoje em dia é por que as duas meninas se prestaram a um papel como aquele. Alguns historiadores especulam sobre a hipótese de Elisabeth e Abigail, sob a influência de Tituba, terem se habituado a ingerir um chá alucinógeno à base de cogumelos. A maioria, porém, acredita que as acusadoras estavam inebriadas pelo interminável poder que lhes depositou a sociedade puritana.

O fato é que, no final do verão de 1962, os pescadores de Salem (que fica numa pequena enseada, 30 minutos de trem ao norte de Boston e que, no século seguinte, chegou a ser uma das seis maiores cidades da América) começaram a se cansar de tanta mortandade. Um velho reverendo, Increase Mather (pai de Cotton, um dos maiores acusadores), publicou um sermão em que dizia: ” É melhor um culpado ser absorvido do que alguém ser condenado sem prova”. As chamadas “provas espectrais” (os berros e simulações das meninas endemoniadas) deixaram de ser consideradas. E os presos, confessos ou não, acabaram sendo soltos.

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Salem começou o ano de 1963 como se nada tivesse acontecido. A caça às bruxas havia terminado. A comunidade parecia saciada com suas vinte vítimas (sem contar os cachorros), que até hoje repousam num pequeno cemitério no centro da cidade. O juiz Hathorne apenas abandonou a tribuna, mas jamais foi questionado por seus métodos. E as pessoas enterradas em Salem, sob lages de granito com a inscrição hanged (enforcadas), entraram para a História com a pecha de Bruxas de Salem.

Bruxas sem vassoura ou caldeirão, que foram sacrificadas por uma comunidade dominada pela histeria. Não se sabe se o demônio decidiu dar uma folga à comunidade depois de tantas tragédias. Mas a paz que se percebe hoje nas ruas de Salem e a forma tranquilo como os descendentes da comunidade puritana conduzem seus negócios (uma camiseta com bruxas não sai por menos de 12 dólares) revelam que a cidade não se arrepende nem se esconde de seu passado.

Salem, capital mundial das bruxas

A peça de Arthur Miller (The Crucible, ou O Caldeirão) fez sucesso em grandes cidades americanas e acabou se tornando filme com Daniel Day-Lewis e Winona Ryder nos papéis principais. A cidade de Boston continua abrigando a empáfia de americanos de quatro séculos, que enxergam bruxas ameaçando a paz em qualquer atitude politicamente incorreta. A forca está desativada, mas os descendentes do juiz Hathorne parecem manter-se alertas, para evitar que demônios politicamente incorretos provoquem novas convulsões em suas meninas inocentes.

Atualmente na cidade, um rastro vermelho pintado no chão, guia turistas e curiosos aos locais onde ocorreram as torturas e execuções e marca o trajeto das vítimas de 1692. Apelidado de “caminho da morte“, a linha possui 3,5 quilômetros e pode ser percorrida durante uma tarde pelos turistas. No caminho, os visitantes passam por vários locais simbólicos, incluindo o Museu das Bruxas, o Cemitério das Bruxas e a Igreja de Salem – além de restaurantes, bares e uma tradicional cervejaria da cidade. Além deste episódio sangrento, Salem também é conhecida por ter representado um dos mais importantes portos comerciais do país.

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Placa informando o lugar onde as mulheres acusadas de bruxaria foram queimadas vivas

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Leia também: Triora, a cidade das bruxas

“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem)

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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