Na estrada, uma série de placas saúda os visitantes, mas estão todas em inglês. Nos quintais das casas, pequenos grupos de crianças correm atrás de uma bola, mas não há nenhum gol à vista – só cestas de basquete. Na vitrine de uma loja de autopeças, uma grande liquidação anuncia os brasileiríssimos amortecedores Cofap, mas todos os preços estão em dólares. Nas ruas, as pessoas conversam bastante, porém nunca em português. As placas falam em Brazil, mas estamos falando mesmo dos Estados Unidos. Brazil, condado de Clay, Indiana, é aqui que você está. E não adianta comparar.

Quem sair daqui, pegar um avião até as terras do Tio Sam, chegar, descer, tomar o rumo de Indianápolis, desembarcar, alugar um carro, entrar na estrada estadual 40 e rodar uns 80 quilômetros em direção a Illinois chegará nesta pequena cidade do Meio-oeste caipira americano, que não teria absolutamente nada a ver com o Brasil se não fosse por um pequeno detalhe: ali também é Brazil – pelo menos no nome e quem nascem em Brazil é brasileiro, pois brazilian, é uma definição idêntica em inglês.

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Não fosse por isso, a Brazil (com z) de lá teria tanto a ver com o Brasil (com s) daqui quanto, por exemplo, a Islândia com Uberlândia. Mas como aquela cidade foi batizada com o nome do nosso país, não há curiosidade que resista a descobrir o porquê. “Brazil chama-se Brazil por causa do seu Brasil”, comentou um dia, William Haverkamp, administrador do museu local, mas na realidade poucos sabem com certeza, quem deu esse nome a cidade. William tenta explicar “Parece que um tal de Owen Thorpe se instalou por aqui por volta de 1843 e abriu um armazém de secos e molhados, que também vendia ferragens e um saloon, mais tarde um posto de correios, para atender às carruagens que seguiam para o Velho Oeste. Como o posto precisava de um nome, ele foi advertido para escolher um que não conflitasse com nenhum outro nos Estados Unidos. Então, junto com um amigo, o carpinteiro Yankee Bill, abriu um jornal de Nova York e leu sobre uma disputa de fronteira que estaria havendo na América do Sul. E lá estava o nome que ele precisava: Brazil, que achou agradável e sonoro e também, com certeza, ninguém mais pensaria num nome tão estranho assim.

Outra versão é de que: Na década de 1840, os proprietários da fazenda que, anos depois, viria a se tornar a cidade, decidiram dar o nome de Brazil, em homenagem ao país que, na época, era assunto de muitas notícias que chegavam aos EUA, mais especificamente uma notícia sobre a cidade de Ouro Preto, que era intitulada “City of Brazil“. Mais tarde, a cidade foi fundada com o nome Brazil, o mesmo da fazenda. As versões são parecidas e talvez por esse motivo, com o passar dos anos, as duas versões se misturaram. Em 1866 oficialmente a cidade foi batizada de Brazil. Em 1906 já havia 4 bancos, 6 jornais, 19 advogados, um teatro, 9 restaurantes, 2 escolas, 4 igrejas, etc…e assim a cidade foi crescendo e sendo cada vez mais habitada, com novas fábricas, mais escolas e empregos, chegando a ter 40 mil habitantes, numa área de 8,7 quilômetros quadrado.

Fonte doada pelo Brasil em Forest Park

Fonte doada pelo Brasil, instalada na entrada do parque Forest Park

Brazil virou Brazil por acaso, mas logo tornou-se um importante centro produtor da região. Primeiro graças ao carvão: no final do século 19, a cidade tinha 24 minas, 2.500 mineiros e nada menos que treze ferrovias. Depois por causa do barro: os tijolos feitos ali eram tão resistentes que serviram até para a primeira pavimentação da célebre pista de corrida de Indianápolis, na vizinha capital do Estado, onde acontece a Fórmula Indy (Aliás, é um piloto brasileiro, Helio Castro Neves quem mais venceu as 500 milhas de Indianápolis até hoje). A cidade chegou a ter 11 fábricas de cerâmica. Naquela época, Brazil era rica, famosa e promissora. Mesmo assim, qualquer semelhança continua sendo mera coincidência.

Inteira, a Brazil de lá caberia num simples bairro daqui de alguma cidade de porte médio. Tem 10 mil almas, 230 ruas, doze policiais, dez bombeiros, dois parques, um jornal (Brazil Times), um hospital, dois cemitérios e três funerárias – em Brazil morre-se muito. Aqui também. Mas a diferença é que na Brazil americana o que mais mata não é a violência e sim a velhice. Boa parte da população é composta por idosos, e isso fica evidente no principal ramo de atividade comercial da cidade nos últimos anos: os antiquários. São mais de uma dúzia deles, alinhados ao longo do principal trecho (não mais que 500 metros) da principal avenida (não mais do que 2 quilômetros) de Brazil, a National Ave.

Chafariz dos Contos, em Ouro Preto, Minas Gerais

Chafariz dos Contos, em Ouro Preto, Minas Gerais

É ali que tudo acontece na cidade – geralmente nada. “Isso aqui já foi mais movimentado no passado”, reconhece um policial, que passa os dias para cá e para lá pelas ruas da cidade à procura de algo mais do que simples motoristas bêbados (em Brazil, a lei é dura: dentro dos carros não pode sequer haver uma latinha aberta de cerveja). “Antigamente, todo mundo vinha para cá”, relembra, saudoso o policial. No meio da cidade de Brazil passa uma importante estrada federal que cruza o país de uma ponta a outra, U.S. Highway 40, que foi aberta em 1835, para ligar o leste ao oeste americano. Como foi a primeira estrada federal a cruzar o país, ela era denominada National Road – e, por isso, em algumas partes da cidade a prefeitura fincou placas com os dizeres: “Bem vindo à histórica Brazil“. Ela hoje é, na verdade, um corredor onde raramente alguém se detém.

Uma fonte em granito e bronze – uma cópia fiel do Chafariz dos Contos, de Ouro Preto, Minas Gerais que existe desde 1745 – é, na verdade, o único ponto em comum entre o Brasil de cá e a Brazil de lá. Encomendada pelo ex-presidente Eurico Gaspar Dutra a artesãs mineiros em 1953, a fonte seguiu no mesmo ano para o porto americano de Baltimore, mas lá teve que ficar num depósito do porto até 1956, para que a municipalidade juntasse 13 mil dólares, suficiente para pagar o transporte e a instalação do presente na entrada do principal parque da cidade (Forest Park), onde está até hoje. Com 9 metros de altura por 13 metros de comprimento e 62 toneladas, a fonte é realmente bonita.

Museu da cidade de Brazil

Museu da cidade de Brazil

Não o único, por sinal. Além do marasmo que vem tomando conta da cidade. Brazil ainda sofre de uma crônica falta de atrativos naturais que possam reverter essa situação e trazer os turistas, que ela só conhece de ouvir falar. “De vez em quando até que aparece algum brasileiro por aqui. O problema é que aqui ninguém fala a sua língua. Então, quem chega fica tão perdido que acaba indo embora“, comentou o administrador do museu. Museu esse que é possível observar muitos objetos e documentos da época em que a cidade de Brazil ganhou esse nome, inclusive bandeiras do nosso Brasil, cédulas de cruzeiros, fotos, jornais brasileiros obtidos em consulados brasileiros, etc…

Em 1930, em plena Depressão, muitas famílias começaram a se mover para outros Estados em busca de emprego. As fábricas de argila e cerâmica que antes produziam tubulações de água e saneamento, além de utilidades domésticas para todos os EUA, foram desbancadas pelo surgimento do plástico. O carvão se extinguiu e a cidade que crescia a cada ano, foi esvaziando-se e hoje conta apenas com aproximadamente 10 mil habitantes. Gradualmente ao longo dos anos, os moradores migraram para outras regiões em busca de emprego. O Brazil americano ainda não se recuperou, falta mão de obra qualificada e as empresas não se animam a instalar suas filiais ali. Mas a cidade ainda espera que a prosperidade possa voltar e quem sabe mentes brilhantes possam colocar o Brazil novamente nos trilhos.

Outdoor do final da década de 1950, convidando as pessoas que passavam pela rodovia que cruzava a cidade, para conhecer a fonte "Chafariz dos Contos".

Outdoor do final da década de 1950, convidando as pessoas que passavam pela rodovia que cruzava a cidade, para conhecer a fonte “Chafariz dos Contos”.

O comércio anda às moscas. Várias lojas foram à falência. O cinema local, que nem nome tem, está quase sempre vazio. Diversão quase não há, tirando um boliche, a pesca em rios e lagos das redondezas, e a caça nas florestas da região. Os jovens se juntam nos fins de semana e vão de carro para Terre Haute, 26 quilômetros a oeste, em busca de bares e danceterias. Os mais idosos vão ao bingo semanal na lanchonete McDonald’s – artifício que seu gerente encontrou para tentar aumentar a clientela.

Isso porque aqui essa rede perde longe para a pequena lanchonete Eddie’s, criada em 1931, e que está sempre lotada graças aos hambúrgueres preparados na hora, com carne fresca da região, a preços bem melhores. O seu lema – “Small Place, Big Taste” (lugar pequeno, grande sabor) – diz tudo. “Nos fins de semana ficamos apinhados, e há filas de gente comprando pra comer lá fora”, diz o dono. A grande atração aos sábados e domingos é a competição para ver quem é capaz de comer mais. “Na falta do que fazer o pessoal vem pra cá”, conta ele. É preciso engolir a carne e o pão numa sentada só. A casa fornece água. Na parede atrás do balcão há dois quadros. Num deles, o Hall da Fama, estão fotos polaroides dos recordistas – que levam de prêmio 50 dólares e uma camiseta da Eddie’s. O mais recente conseguiu consumir 30. No outro está o Hall da Vergonha, com fotografias de quem se aventura e, no final, não consegue comer mais de 12.

Ilustre brasileiro que ficou famoso nos Estados Unidos pela sua pipoca

Ilustre brasileiro que ficou famoso nos Estados Unidos pela sua pipoca

Uma vez por ano, no dia 1º de outubro, data de fundação de Brazil, todo mundo sai às ruas para participar do Festival da Pipoca, realizado nessa data em homenagem à cidade e, ao mesmo tempo, a um de seus cidadãos mais famosos: Orville Redenbacher, um próspero empresário do setor agrícola, nascido ali (e falecido em 1995, aos 88 anos), e que tornou realidade uma obsessão que tinha desde criança: desenvolveu o que é considerado o tipo de milho ideal para pipoca, que passou a levar seu nome. O rosto de Redenbacher aparece nos pacotes desse milho vendido em supermercados em todo o país.

A cidade tem outros dois “brasileiros” nacionalmente famosos. Um deles é Jimmy Hoffa, polêmico ativista sindical que presidiu a Irmandade Internacional dos Motoristas de Caminhão, Bombeiros e Pilotos de Aviação nos anos 1950 e 1960. Condenado por fraude a 13 anos de prisão, ele acabou tendo a pena perdoada pelo presidente Richard Nixon depois de cumprir sete anos. Filho de um mineiro de carvão de Brazil, Hoffa usava suas conexões com o crime organizado para, através de um esquema de venda de proteção, obrigar empresas a contratar apenas trabalhadores sindicalizados.

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Até hoje não se sabe exatamente que fim levou Hoffa. Ele desapareceu em julho de 1975, aos 62 anos, quando estava a caminho de se encontrar num subúrbio de Detroit com dois chefões da Máfia daquela cidade e de Nova York. Hollywood produziu vários filmes sobre a história de Hoffa, o mais exitoso deles (de 1992) tinha o seu sobrenome como título, e ele foi representado por Jack Nicholson. O outro personagem famoso de Brazil é uma mulher, Brittany Brown – atriz de filmes pornôs conhecida pelo nome artístico de Jordan Star.

Raramente aparece uma notícia policial nas páginas do jornal da cidade, The Brazil Times, cuja equipe é formada por dois editores e três repórteres. O diário, de 14 páginas (três repletas de anúncios classificados de todo o condado) se mantém há 115 anos e, além de sua versão impressa, tem um site próprio (www.thebraziltimes.com) e oferece ainda uma edição eletrônica para seus assinantes.

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Prefeita em 2008 ao lado de uma placa na U.S Highway 40, com os dizeres “Bem-vindo à histórica Brazil”

Em 2008,  prefeita, Ann Bradshaw, contava com 86 funcionários – incluindo policiais, bombeiros, pessoal do serviço de água e esgoto e recolhimento de lixo -, que compõem uma folha de pagamento mensal de US$ 168 mil. Como o dinheiro andava curto, volta e meia a população era convocada para um mutirão. Michele Altman, a administradora de planejamento da prefeitura, pediu – por meio de anúncio no jornal – que a população fosse para a rua principal de Brazil munida de pincéis, brochas, vassouras e sacos plásticos de lixo para ajudar a embelezar a cidade, varrendo-a e pintando a beira de calçadas e faixas de pedestres no asfalto. “Esperamos que, deixando a cidade bem limpinha, possamos incentivar o crescimento dos negócios e, assim, estancar o êxodo”, diz Michele. Parece que não deu muito certo, mas o Brazil de lá continua tentando, como o Brasil de cá!

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Site Oficial: City of Brazil

Texto adaptado e atualizado revista Terra, nº28 e com as fontes: 1 2

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