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Castaway Depots, os depósitos de sobrevivência da Nova Zelândia

Castaway Depots, os depósitos de sobrevivência da Nova Zelândia

O governo da Nova Zelândia construiu uma série de depósitos para náufragos (Castaway Depots) em suas ilhas subantárticas no final do século 19 e início do século 20, que foram mantidos supridos e patrulhados até que não fossem mais necessárias, devido as alterações de rotas marítimas comerciais. Esses depósitos colocadas em ilhas isoladas, tinham em seu interior suprimentos de emergência para socorrer náufragos.

Antes da abertura dos canais de Suez no Oriente Médio e o Canal do Panamá na América Central, os navios que vinham da Austrália e da Nova Zelândia em direção a Inglaterra tinham que fazer uma viagem perigosa pela águas traiçoeiras e frias do Oceano Antártico, lutando contra ventos fortes, ondas enormes e contornando icebergs potencialmente perigosos. Essa rotas eram conhecida como rota do clipper – assim chamado porque geralmente eram feitas por clippers, um veleiro mercante de grande porte e muito veloz, utilizado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1812.

Castaway Depots, os depósitos de sobrevivência da Nova Zelândia

Uma velha cabana de naufrágio no norte das Ilhas Antípodas, Nova Zelândia | Crédito da foto

Os navios com destino a Austrália e Nova Zelândia vindo da Inglaterra passavam ao sul, abaixo da linha do equador numa área chamada Roaring Forties, que em português pode ser traduzido por Quarenta Rugidores ou Vendavais da Latitude 40, que é uma zona de fortes ventos existentes entre os paralelos 40 e 50 graus do oceano austral. Esses ventos movimentavam os navios pelo Oceano Antártico em direção ao seu destino ao oeste no menor tempo possível.

A volta para Inglaterra eram feitas na mesma maneira, porém saindo pelo leste e em direção a zona Roaring Forties, e assim, aproveitando os mesmos ventos fortes. Quando os navios se aproximavam do Cabo Horn, no extremo sul da América do Sul, eles se dirigiam mais ao sul para poder fazer uma melhor travessia através da Passagem de Drake, em direção ao Oceano Atlântico.

No entanto, muitas vezes tais viagens não saiam como planejado. Alguns capitães acabavam levando seus navios mais para o sul, para conseguir ventos mais fortes e rotas mais curtas, acabavam colidindo contra uma das muitas ilhas subantárticas localizadas ao sul da Nova Zelândia. Mapas imprecisos também foram responsáveis por muitos naufrágios. Por exemplo, em 1868, Henry Armstrong, capitão do veleiro Amherst, notificou o governo da Nova Zelândia de que a carta comumente usada, preparada por James Imray em 1851, situava as Ilhas Auckland, 56 quilômetros ao sul da sua verdadeira localização.

Independentemente da precisão das cartas, o tempo nublado predominante na área dificultava a navegação por sextante. As desabitadas ilhas Auckland ficam diretamente dentro da rota padrão. No caso de um naufrágio em qualquer uma destas ilhas, devido ao seu clima subantártico, ofereciam pouco sustento natural ou provisões aos náufragos. Thomas Musgrave, capitão da escuna australiana Grafton que foi destruído nas ilhas Auckland, descreveu os “vendavais incessantes, granizo constante e chuva de neve” que assolaram os sobreviventes.

Castaway Depots, os depósitos de sobrevivência da Nova Zelândia

Uma placa fingerposts na Ilha Antípodas, indicando a direção de um depósito de suprimentos | Crédito da foto

Grafton, uma escuna de Sydney que viajava em busca de estanho, encalhou no porto de Carnley durante uma tempestade em janeiro de 1864. Os cinco sobreviventes viveram em cabanas feitas de materiais recuperados por dezenove meses. Posteriormente dois tripulantes, mais o capitão conseguiram em cinco dias, ir num pequeno barco consertado até as Ilhas Stewart. O capitão Thomas Musgrave então organizou uma excursão de resgate dos dois sobreviventes que haviam ficado na ilha.

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O depósito de náufragos na ilha de Curtis, fotografado em 1917, depois que o capitão da marinha alemã, o conde Felix von Luckner, e sua tripulação de prisioneiros de guerra fugidos invadiram e tomaram os depósitos. | Crédito da foto

No mesmo ano, o clipper de três mastros Invercauld, a caminho do Chile naufragou no extremo noroeste da ilha. Dos 25 tripulantes, dezenove desembarcaram, mas apenas três sobreviveram ao inverno. Os outros sucumbiram às intempéries do tempo e nenhum deles ficou sabendo da presença dos náufragos do Grafton mais ao sul. Dois anos depois, em 1866, o navio norte-americano General Grant naufragou na costa oeste das ilhas Auckland. Apenas quinze dos 83 a bordo sobreviveram ao naufrágio. Quando foram resgatados pelo veleiro Amherst, 18 meses depois, havia apenas dez sobreviventes. Essas experiências levaram a um programa conjunto para gerenciar o risco de náufragos na área, e os depósitos foram instalados.

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Alguns dos itens que poderiam ser encontrados nas cabanas

Após a descoberta dos sobreviventes do naufrágio do General Grant na ilha de Auckland em 1867, o governo da Nova Zelândia na província de Southland e alguns estados australianos instalaram vários depósitos de emergência em Auckland, Campbell, Antípodas e Bounty Islands. A expedição inicial para criar os depósitos foi liderada por Henry Armstrong do Amherst em 1868. O primeiro depósito de madeira foi construído e abastecido em Sandy Bay, ilha Enderby.

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Depósito de náufragos no Porto de Carnley, Ilhas Auckland, em 1907. | Crédito da foto: Samuel Page

Em 1877, o governo central da Nova Zelândia assumiu a responsabilidade de administrar a série de cabanas de abastecimento em suas ilhas territoriais para fornecer alimentos e suprimentos de emergência, que continham alimentos enlatados, biscoitos, roupas, fósforos, cobertores, equipamentos de pesca, remédios, ferramentas, armas e munições.

Placas de sinalização chamados fingerposts foram instalados na ilha para direcionar os náufragos para os depósitos. Outras ilhas receberam barcos para permitir que os sobreviventes alcancem as ilhas que continham os depósitos de sobrevivência. Vários animais foram liberados como cabras, porcos e coelhos nas ilhas para se reproduzirem e fornecer alimentos aos náufragos.

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Outra placa indicativa na Ilha Antípodas | Crédito da foto

Quando o veleiro Derry Castle naufragou na Ilha Enderby em 1887, seus oito sobreviventes construíram um barco a partir dos destroços e navegaram até a Ilha Auckland, onde obtiveram os suprimentos necessários num desses depósitos de sobrevivência. Quatro anos depois, a barca Compadre tomada pelo fogo foi atirado as rochas em North Cape, na Ilhas Auckland. Todos os dezessete tripulantes chegaram em terra, embora um deles tenha morrido mais tarde. Eles encontraram alívio e sustento em dois depósitos próximos, suplementados por animais que haviam sido soltos na ilha, e sobreviveram em boa saúde até serem resgatados 122 dias depois pela escuna Janet Ramsay em 30 de junho, e transportados para Bluff. Há muitos outros exemplos de vítimas de naufrágios salvas pelos depósitos com suprimentos.

Durante cinquenta anos, um navio do governo patrulhou a cada seis meses, os depósitos para checar sobreviventes, fazer manutenções nas cabanas e reabastecer as mesmas. Mas em 1927, com a disponibilidade de navios de ferro e vapor, melhoria da tecnologia de rádio e a abertura de novas rotas, a rota dos clippers caiu em desuso e, consequentemente, o governo da Nova Zelândia encerrou a atividade de patrulhar e manter os estoques dos depósitos.

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Mapas das ilhas subantárticas da Nova Zelândia

Muitos desses depósitos estão em ruínas atualmente. Alguns foram saqueados durante os tempos em que eram mantidos abastecidos por homens do mar que viam eles como fonte de comida e provisões grátis. Para desencorajar a invasão, as roupas deixadas nos depósitos eram marcadas de maneira distinta, para que pudessem ser identificadas e placas de advertências foram afixadas nas cabanas.

O depósito em ruínas e barco em Erebus Cove, Port Ross nas Ilhas Ausckland, a cabana de 1908 na Ilha Antípodas, a Stella Hut na Ilha Enderby de 1880 e o barco em Enderby são alguns dos depósitos sobreviventes que agora são gerenciados pelo Departamento de Conservação (DOC). O depósito da década de 1890 em Camp Cove, Carnley Harbour, na Ilha Auckland, foi identificado em uma pesquisa do DOC em 2003 como “digno de inclusão na lista ‘ativamente gerenciada’“. O Departamento também mantém outros locais históricos nas ilhas, incluindo relíquias de naufrágios.

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Os restos de um dos cinco depósitos de provisões instalados nas Ilhas Auckland nas décadas de 1880 e 1890. Está localizado em Camp Cove, no Carnley Harbour, no sul das ilhas. | Crédito da foto

Fontes: 1 2

“Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha”. – Confúcio

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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