Caverna Gomantong, e os ninhos dos andorinhões

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Bornéu é a terceira maior ilha do mundo e abriga uma das florestas tropicais mais antiga, com 140 milhões de anos, e uma rica biodiversidade, incluindo diversas espécies endêmicas. Passear por esse paraíso natural, porém, requer cuidados, principalmente se for visitar as cavernas Gomantong, um dos lugares mais nauseantes do mundo.

Localizado na parte malaia da ilha, o sistema de cavernas fica em meio às florestas da reserva florestal de Sabah, na colina de Gomantong. No interior úmido, mais de dois milhões de morcegos pendem no teto, enquanto o piso e as paredes são cobertas com baratas, besouros, ratos e outros bichos, que se alimentam de guano, os excrementos dos morcegos. São cerca de 4 metros de guano acumulado ao longo dos anos, e para poder visitar a caverna, foi construído uma passarela sobre os excrementos, mas o cheiro promete revirar até o mais resistente dos estômagos.

Caverna Gomantong, e os ninhos dos andorinhões

Sobre a camada de guano, milhões e milhões de baratas vivem, se alimentam e multiplicam sem fim. Parece que o chão da caverna ganha vida devido ao intenso movimento das baratas, que não respeitam áreas destinadas aos turistas, dominando as passarelas, paredes da caverna, suas pernas, sobem pelo seu corpo. Elas não estão sozinhas, já que centopeias, escaravelhos, caracóis e até caranguejos, dividem espaço com as baratas, todos se alimentando da fartura de guano despejado diariamente pelos morcegos. Com tantos pequenos insetos, alguns predadores aparecem para tentar minimizar a superpopulação. O problema é que esses predadores são ratos, deixando tudo ainda mais repulsivo.

Mas o que tem essas cavernas de especial é uma espécie de pássaro que faz seus ninhos nas paredes e teto da caverna e com esse ninho se prepara uma sopa considerada uma iguaria, sendo uma das comidas mais caras do mundo e quando mais profundo na caverna, a ave faz seu ninho, mas caro é o ninho. O pássaro é o andorinhão (Swifts, em inglês), ave considerada uma das mais rápidas do mundo, chegando a atingir 170 km/h e cobrindo 900 quilômetros num só dia, coletando insetos, principalmente no início e fim do dia. As suas presas favoritas são insetos coloniais que voam em enxames, em particular abelhas, vespas, cupins e outros. Muitos andorinhões recolhem as presas que capturam em bolas de alimentos chamado “bolus”, e trazem para seus ninhos. Uma vez que têm grandes dificuldades em terra, devido aos pés curtos, os andorinhões não caçam no solo. Pertencem à família Apodiformes, que significa “sem pés“. Elas navegam através das cavernas, usado a ecolocalização, mesmo processo utilizado pelos morcegos.

Caverna Gomantong, e os ninhos dos andorinhões

Os andorinhões são aves monogâmicas que formam casais durante a época de reprodução; em algumas espécies, sobretudo tropicais, os casais permanecem juntos toda a vida. O casal partilha todas as tarefas e cuidados parentais, incluindo a defesa do local eleito para construir o ninho. A época de reprodução varia conforme a distribuição geográfica de cada espécie, mas coincide sempre com o pico de abundância de insetos, desde a época das chuvas nas regiões tropicais ao Verão dos climas temperados.

Os andorinhões que fazem os ninhos nas cavernas Gomantong, são da espécie Aerodramus fuciphagus. A sopa de consistência viscosa, tem aroma levemente ácido e iodado, com sabor delicado. Segundo o povo, além do prazer de tomá-la, ”ajuda a embelezar a pele das mulheres, desperta o estômago e fortalece o baço”. Na medicina tradicional chinesa, está documentado desde o século 17, como um produto que supostamente atrasa o envelhecimento, promove o crescimento e melhora o sistema imunológico. A sopa foi inventada por volta de 1750, por um chinês de Siam, chamado Hao Yieng, que descobriu que os ninhos eram solúveis em água. Em 1770, foi concedido a ele o monopólio sobre o comércio dos ninhos de pássaros, que o tornou rico. Um quilo de ninho de andorinhão de alta qualidade, que é cerca de 120 ninhos, pode ser vendido de 3 a 4 mil dólares.

Caverna Gomantong, e os ninhos dos andorinhões

Quase todas as aves fazem um ninho, empregando os mais diferentes materiais: barro, capim, ervas, folhas, gravetos, lã, musgo, palha, etc. O andorinhão (são três espécie de andorinhão que fazem esse tipo de ninho) o constrói com sua secreção gástrica. Essa substância, viscosa e transparente, aglutina-se graças à presença das algas que traz no bico.

O ninho se torna sólido e resistente. O mais valorizado é o inicial. Tem cor branca e amarelada, pesa 150g. Se for danificado por algum predador – cobra, coruja, corvo ou falcão -, ou retirado pelo homem, a ave fará outro. Nesse caso, a cor será acinzentada, o peso cairá para 100g e, obviamente, o preço despencará. Caso sofra os mesmos problemas do primeiro ninho, o andorinhão construirá um terceiro, ainda menos prestigiado, escuro ou quase preto, com aproximadamente 75g. Quando as fibras endurecem, eles produzem uma cola que mantém o ninho agrupado e presos as pedras. O melhor ninho vem dos andorinhões que vivem nos lugares mais profundo da caverna. Tanto o macho como a fêmea constrói o ninho com sua saliva e levam até dois meses para construir um.

Caverna Gomantong, e os ninhos dos andorinhões

A preparação da sopa requer paciência. O ninho seco deve ser reidratado em água fria por 12 horas, a fim de amolecer e recuperar a característica gelatinosa. Depois, é cuidadosamente limpo, a fim de perder os resíduos, sobretudo de penas. Desfeito em pedaços, cozinha em água durante 15 minutos. Lavado novamente, volta à água fria por mais 12 horas. A receita clássica da sopa manda incorporar cogumelos secos, caldo de galinha e carne de frango ou porco em tirinhas. Rara e cara, foi por muitos séculos iguaria exclusiva da família imperial, da alta nobreza e do alto clero da China.

Na década de 90, funcionou na cidade de Curitiba o restaurante chinês Tung Lock, que importava ninho de andorinha e preparava a legítima sopa. Localizava-se no bairro Mercês. Cada prato saía por 100 dólares. Mas poucos curitibanos o pediam, por achá-lo caro, esquisito e, inclusive, repulsivo. A maioria dos frequentadores vinha de outras capitais. Então, os ninhos estragavam pela falta de saída. Decepcionado com a clientela, que também não sabia apreciar outras receitas da grande culinária chinesa, o dono foi embora do Brasil, entregando o restaurante ao cozinheiro Lu Fang. A casa permanece no mesmo endereço, porém com o nome mudado para Tung Fang e, lamentavelmente, sem ter sopa de andorinha no cardápio.

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Depois dos brancos, os ninhos de andorinhões de cor alaranjada são os mais caros

A extração dos ninhos é controlada e regulada pelo governo para proteger as aves e garantir que o fornecimento não se esgote. Nas cavernas de Gomantong, os ninhos são recolhidos somente duas vezes por ano, de fevereiro a abril e julho a setembro, moradores licenciados sobem até o teto das cavernas e recolhem os ninhos usando apenas escadas de vime, cordas e varas de bambu. Só na Malásia são mais de 50.000 pessoas envolvidos na coleta e comercialização dos ninhos. Devido ao alto valor, as falsificações são constantes, e muitos contaminados com nitrito, uma substância altamente tóxica. O ninho real tem cheiro de peixe, e de pão amanhecido.

Caverna Gomantong, e os ninhos dos andorinhões

Em cidades e aldeias onde a população vive em função dos andorinhões, alto-falantes potentes imitem um silvo peculiar as aves para enganá-las, que passam por ali em viagem migratórias que acabam sendo seduzidas pela barulheira e assim interrompem o voo e constroem ninhos nas imediações em edifícios improvisados que tentam reproduzir internamente o ambiente das cavernas. Esses edifícios as vezes com quatro andares são deixados no escuro e cheios de excrementos das aves, com cadeados nas portas para que os ninhos não sejam roubados e as coletas dos ninhos feitas de três em três meses. As pessoas que moram nas proximidades desses prédios reclamam constantemente do mau cheiro e do som alto dos alto-falantes.

Caverna Gomantong, e os ninhos dos andorinhões

Ninhos de pássaros vendidos em embalagens sofisticadas para presentear alguém

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Os três tipos de andorinhões que fazem os ninhos com sua saliva e os diversos tipos de ninhos que eles produzem

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Construção típica para ninhos de andorinhões encontradas na Malásia

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Sistema de alto-falantes improvisados com um som alto para atrair os andorinhões

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Esse prédio para ninhos de pássaros fica no norte da Indonésia

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“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem)

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