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Como uma ponte de Londres foi parar na América

Como uma ponte de Londres foi parar na América

A Ponte de Londres (em inglês: London Bridge) refere-se a várias pontes históricas em Londres na Inglaterra que cruzavam o rio Tâmisa, entre a cidade e Southwark, situadas entre as pontes Southwark Bridge e Tower Bridge. A ponte original de Londres foi uma das mais famosas do mundo: era a única na cidade a cruzar o Tâmisa até que se inaugurou a Ponte de Westminster em 1750.

Como uma ponte de Londres foi parar na América

A Ponte de Londres antes de ser desmontada e trazida para a cidade de Lake Havasu | Crédito da Foto

Durante séculos, crianças cantaram, riam e dançaram ao som de uma antiga cantiga que dizia “a ponte de Londres está caindo“, mas quando se descobriu que a Ponte de Londres estava realmente caindo no início de 1900, já não era mais motivo de riso. A ponte de pedras que tinha pouco mais de um século e que era a mais movimentada de Londres, atravessada por mais de 8.000 pedestres e 900 veículos a cada hora, estava afundando lentamente – cerca três centímetro a cada oito anos. A ponte que sobreviveu aos bombardeios alemão da Segunda Guerra Mundial, não estava em condições de suportar o trânsito moderno e afundava lentamente no rio Tâmisa.

Em 1924, medições foram feitas e descobriu-se que o lado leste da ponte estava nove centímetros mais baixo que o lado oeste. Mais quatro décadas se passaram antes que a Câmara Municipal chegasse a decisão de demolir a ponte. Um dos membros do conselho, Ivan Luckin sugeriu que em vez de demolir a ponte, eles deveriam tentar vendê-la. A sugestão foi recebida com incredulidade, mas depois de algumas deliberações, o Conselho concordou que algum dinheiro seriam bem vindo e colocaram a ponte a venda em 1967.

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Lago artificial Havasu | Crédito da foto

Nos meses que se seguiram, muitas dúvidas de prováveis interessados chegaram ao Conselho, mas não houve uma oferta válida. Finalmente, faltando cinco semanas para a data de encerramento, dia 28 de março de 1968, Ivan Luckin se ofereceu a ir aos Estados Unidos vender a ponte. Em uma coletiva de imprensa na Câmara Britânica de Comércio de Nova Iorque, quando um jornalista perguntou o que havia de tão especial na ponte – afinal ela não era tão velha (construída em 1832), nem a cantiga de ninar era referente a ela, pois se referia as anteriores que haviam no mesmo lugar – Ivan respondeu: “A Ponte de Londres não é apenas uma ponte. É herdeira de 2.000 anos de história desde o século 1 depois de Cristo, até a época do Londinium Romano.

A inusitada venda de uma antiga ponte de pedra que estava instalada na Europa surpreendeu muitos nos Estados Unidos, mas para um homem de negócios parecia como um outro negócio qualquer. Robert McCulloch era um industrial nascido no Missouri que fez fortuna liderando empresas que vendiam petróleo, motores e moto-serras. McCulloch milionário excêntrico e dono da McCulloch Oil, depois de várias negociações, descobriu que o desmonte da ponte custaria US $ 1,2 milhões a cidade de Londres e decidiu pagar o dobro por ela, e fechou um contrato de compra por US $ 2,46 milhões.

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Robert McCulloch e CV Wood | Crédito da foto

Há alguns anos, McCulloch obteve do governo americano milhares de acres de terra perto do lago Havasu, no Arizona, um lago artificial criado por uma represa no rio Colorado. Só conseguiu as terras sob a condição de que desenvolvesse a região. McCulloch fundou a comunidade de Lake Havasu City no local, mas teve dificuldades em trazer potenciais compradores de terras. Quando seu parceiro de negócios, Cornelius Vanderbilt “CV” Wood, conhecido por projetar a Disneylândia na Califórnia lhe contou sobre a Ponte de Londres, os dois concluíram que era exatamente o tipo de coisa que o lago Havasu precisava para torná-lo uma atraente cidade e um destino turístico.

A estrutura tinha o peso total de 133.000 toneladas com 290 metros de comprimento, mas somente 33.000 toneladas foi cuidadosamente desmontada, bloco por bloco, acondicionada em caixas e depois transportada pelo Canal de Panamá até Long Beach, Califórnia. De Long Beach, os blocos de granito foram transportados por um pequeno exército de caminhões por 483 quilômetros até o seu destino. Custou ao empresário mais sete milhões de dólares só em transporte, da Europa até o lago Havasu.

Então começou o complicado processo de remontar a estrutura. Felizmente, tudo foi meticulosamente planejado. Antes do desmantelamento, os operários haviam numerado cuidadosamente cada pedra (10.600 pedras), de modo que o processo de reconstrução – embora lento e trabalhoso, levando três anos para concluir, sem maiores problema. Inevitavelmente, algumas das pedras foram danificadas e tiveram que ser substituídas por granito local. Para dar às pedras mais novas a aparência centenária, elas foram cobertas com fuligem de queimadores de querosene.

Para garantir que a ponte pudesse suportar o tráfego moderno, foi construído um núcleo oco de concreto reforçado com aço, e coberto com 10.000 toneladas do granito original do século 19 e, sobre este, os antigos blocos de granito foram colocados. Como não havia rio na cidade de Lake Havasu, a ponte foi construída sobre a terra seca, mas quando o projeto se aproximava da conclusão, um canal de um quilômetro de comprimento foi cortado sob a ponte e a água do Lago Havasu liberada para preencher o canal. “A maioria das pessoas constrói pontes para atravessar um rio, McCulloch construiu um rio debaixo de uma ponte“, alguém comentou e para isso teve que pedir até autorização para Lyndon Johnson, o presidente dos EUA na época.

A Ponte de Londres foi inaugurada oficialmente em 10 de outubro de 1971 com muita festa e com cerca de 50 mil espectadores. Houve fogos de artifícios, desfile, entretenimento, lançamento de 30.000 balões e 3.000 pombas brancas, aterrissagens de balões de ar quente coloridos, convidados especiais e dignitários como o prefeito de Londres. Também houve um jantar com lagosta e carne assada – a mesma refeição servida ao rei William IV durante a inauguração original da ponte em 1831.

A inauguração da ponte se tornou conhecida por todo o país através dos meios de comunicação. Na época, a compra da ponte ficou conhecido como “McCulloch’s Folly” (A loucura de McCulloch), e muitos previram que ele iria se arrepender da compra, que a ponte e a cidade nunca dariam certo. As expectativas e todos os gastos de McCulloch, cerca de 12 milhões de dólares foram recompensados e as vendas de terras em Lake Havasu City dispararam. Acreditasse que todo o capital investido na região pelo empresário, retornou antes mesmo de a ponte ser inaugurada.

De uma população de apenas algumas centenas na década de 1960, a cidade floresceu para dez mil em 1974. Naquele ano, a ponte atraiu quase dois milhões de visitantes para a nova cidade. Hoje, a cidade de Lake Havasu é o lar de 52.000 residentes. Para eles, a ponte é apenas uma parte da vida cotidiana, fornecendo o único acesso ao outro lado do lago, onde estão as primeiras casas do empreendimento e a marina.

De acordo com o Conselho de Turismo do estado, 3.65 milhões de pessoas visitaram a ponte em 2017 – tornando-a a terceira atração mais popular do Arizona, ficando atrás apenas dos parques nacionais de Glen Canyon e Grand Canyon. Pena que o criador do lugar não viveu para ver o sucesso da ponte e de como a cidade desenvolveu ao seu redor até os dias de hoje, pois morreu seis anos depois da inauguração da ponte, numa overdose acidental de álcool e comprimidos.

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Robert McCulloch | Crédito da foto

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Prefeito de Londres inaugurando a ponte no lago Havasu | Crédito da foto

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Inauguração da ponte | Crédito da foto

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Estátua de bronze de Robert McCulloch e CV Wood afixada em uma das cabeceiras da ponte | Crédito da foto

Fontes: 1 2 3

“Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam” – Jack Kerouac

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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