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Daddy Long Legs, o papai pernas longas

Daddy Long Legs, o papai pernas longas

Brighton é uma cidade animada, localizada na costa sul da Inglaterra, à 100 quilômetros de Londres, conhecida como sendo uma cidade atrevida e inovadora, atraindo visitantes de todos os cantos do mundo, e provavelmente uma das poucas, que tem uma praia de nudismo a pouco metros do centro urbano e também o lar da primeira ferrovia pública elétrica do mundo.

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Quem a construiu foi Magnus Volk (1851-1937), filho de um relojoeiro alemão, e estabelecido em Brighton. Magnus começou sua carreira, trabalhando como aprendiz numa fábrica de instrumentos científicos, gostava de inventar coisas, sempre fazendo experiências com eletricidade, telegrafia e telefonia, e cresceu sendo um inventor e engenheiro. Ele montou a primeira linha de telefone na cidade em 1879 e foi pioneiro no uso precoce da eletricidade, sendo o primeiro a instalar a luz elétrica em sua casa em Dyke Road e em seguida foi contratado para fazer o mesmo na Royal Pavilion, palácio histórico que mistura arquitetura indiana e chinesa e que serviu de residência de verão do rei George IV.

“A viagem sobre rodas pelo mar de Brighton”, cartaz original da “The Brighton and Rottingdean Seashore Electric Railway” Exposto no Brighton Toy and Model Museum

Em 1883, ele obteve permissão para construir uma estrada de ferro elétrica ao longo da orla de Brighton, a linha foi inaugurada oficialmente no dia 4 de agosto daquele ano. A ferrovia elétrica Volk’s Electric Railway (VER), tinha bitola de 2 metros, com dois bondes que atingiam a velocidade máxima de cerca de 9.66 km/h. Esta ferrovia tinha dois quilômetros, e foi rebitolada para 2,09 metros em 1884, e permanece em serviço até hoje, e é a mais antiga operação de bondes elétricos no mundo. Esses bondes tinham quatro rodas, duas das quais eram de madeira para evitar choques elétricos. A ferrovia funciona como uma atração histórica e turística, e não funciona durante os meses de inverno, e seu serviço também é ocasionalmente passível de suspensão devido a mau tempo.

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Após o sucesso de sua estrada de ferro elétrica, Magnus planejava estender sua linha férrea para leste, para a vizinha cidade de Rottingdean. E para avançar a ferrovia mais 4,5 quilômetros, precisaria ser executadas obras com altos custos, como a construção da linha em uma subida íngreme até o topo de um penhasco ou construir um viaduto para transpor o obstáculo, então, Magnus arquitetou um plano alternativo um tanto maluco, criou uma estrada de ferro que acompanhasse a costa, no meio do mar, uma estrada que iria”viajar através do mar“.  Na verdade, a ideia não era original, pois um sistema semelhante já estava em operação no porto de St. Malo, na Bretanha, mas este, o bonde era puxado ao longo dos trilhos em água abrigada e não auto-propulsionado, como Magnus planejava fazer no Canal Inglês.

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De alguma forma, o inventor conseguiu financiamento para sua ideia maluca e a construção da linha (Brighton and  Rottingdean Seashore Electric Railway) começou em junho de 1894, construção essa feita pela empresa British Thomson-Houston Co. Ltd e “os pés longos do paizinho” foi inaugurada em 28 de novembro de 1896. Os bondes oficialmente eram chamados de Pioneer, mas carinhosamente chamado por muitos de Daddy Long Legs, em alusão a uma espécie de aranha com o mesmo nome.

O bonde Pioneer tinha 13,71 metros de comprimento por 6,70 metros de largura e 7 metros de altura, com o peso de 45 toneladas e corria por trilhos que ficavam submersos na água, postes ao longo dos trilhos levavam os cabos de energia elétrica que alimentavam quatro motores elétricos fixos na parte de baixo da plataforma. Eixos saiam dos motores por dentro das pernas cilíndricas ocas, e  movimentavam as engrenagens cônicas que faziam as rodas girarem, equipadas com proteção, que empurravam para o lado algas, cascalhos e outros detritos. Descrito como uma mistura de bonde aberto, iate de recreio e cais à beira-mar, a plataforma tinha um salão/bar ornamentado com assentos em couro e outra plataforma aberta em cima, este veículo bizarro podia transportar cerca de 160 passageiros e a viagem até Rottingdean levava 35 minutos.

Costa entre Brighton e Rottingdear

Costa entre Brighton e Rottingdear

Devido aos regulamentos da época, um capitão de mar qualificado precisava estava a bordo, bem como ter botes, salva-vidas e de outras medidas de segurança, como qualquer barco. Uma semana depois da inauguração, no dia 4 de dezembro, uma tempestade virou o bonde e destruiu parte dos trilhos e da rede elétrica e a estrada foi reconstruída, com o bonde ganhando pernas mais longas e reabrindo em julho de 1897. Naquele ano, 44,282 passageiros usaram o serviço, mas o futuro não era animador para o projeto.

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Embora popular, a ferrovia enfrentou dificuldades, incluindo velocidades lentas na maré alta e em setembro de 1900, o Conselho da cidade decidiu instalar uma barreira de proteção na praia, o que exigia que a estrada teria que ser mudada, entrando mais fundo no mar, para desviar da barreira, e Magnus ainda se recuperando das reconstruções anteriores, não tinha o dinheiro necessário para tais mudanças, sendo obrigado a fechar a estrada de ferro pouco tempo depois. O bonde foi amarrado ao lado do cais e ficou assim até 1910, e os trilhos vendidos como sucata, e sobrando como lembrança da estrada de ferro pelo mar, alguns travessões em concreto armado, em mares mais baixas.

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Réplica do bonde elétrico

Réplica do bonde elétrico

O que restou da Brighton and Rottingdean Seashore Electric Railway

O que restou da Brighton and Rottingdean Seashore Electric Railway

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A Volk’s Electric Railway atualmente

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Fontes: 1 2

“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem)

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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