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Dr. Knoch, o Frankenstein caribenho

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August Gottfried Knoch (1813-1901)

August Gottfried Knoch, nascido em Halberstadt, na Alemanha, em 1813, foi um médico cirurgião, que se mudou para a Venezuela e ficou conhecido por inventar um fluído embalsamador com o qual, ele criou dezenas de corpos mumificados, incluído ele mesmo, e sua história está envolta em mistério e lendas desde o século 19.

Ele se formou na Universidade de Freiburg, e três anos depois de formado, emigrou em 1840 para a Venezuela, a convite da grande colônia de alemães que residiam no litoral venezuelano, em La Guaira. Em 1845, recebeu a revalidação do certificado de médico da Universidade Central da Venezuela e entre 1854 a 1856, ajudou a restabelecer o “Hospital San Juan de Dios de La Guaira“. O médico rapidamente ganhou uma reputação como uma pessoa caridosa por cuidar de pacientes pobres, sem dinheiro, enquanto lutava incansavelmente contra um surto de cólera que atingiu a região naqueles anos. Já estabelecido no país, Knoch decidiu trazer da Alemanha, sua esposa, filho e suas filhas adotivas Josephine de 10 anos e Amalie Weissmann de 2 anos, que se tornou mais tarde sua enfermeira.

Entre 1859 a 1863, ocorreu na Venezuela, uma guerra civil que ficou conhecida como Guerra Federal, e muitos soldados feridos e mortos começaram a chegar no hospital de La Guaira. Knoch que já era fascinado com o processo da morte e a decomposição dos corpos na Alemanha, viu na grande quantidade de cadáveres não reclamados que se amontoavam no necrotério do hospital uma oportunidade para estudar o processo de mumificação, e posteriormente começou a fazer experiências com a conservação dos corpos, utilizando os cadáveres dos soldados como cobaias.

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Entrada Hacienda Buena Vista

Knoch também era um amante da natureza e já nos primeiros dias na Venezuela, fez longas excursões a cavalo pelas montanhas da região nos finais de semanas, e mais tarde, comprou uma fazenda nas montanhas, chamada “Hacienda Buena Vista“, na região de San José de Galipán, atual Parque Nacional El Ávila, que em época colonial era utilizada no cultivo de café. A fazenda localizada a 1.000 metros acima do nível do mar tinha uma bela vista de toda a região litorânea. A princípio, o lugar serviria apenas para sua família descansar nos finais de semana, mas com o tempo, ele decidiu se mudar definitivamente para a fazenda, sobre o pretexto de que sua esposa não suportava o calor úmido da zona costeira de La Guaira, mas na realidade, o médico queria trabalhar em seu processo de mumificação, e o isolamento do lugar, lhe dava a privacidade necessária. Na fazenda, ele construiu uma casa confortável, um laboratório afastado da casa e mais tarde um mausoléu. Quase todo o material de construção foi transportado de La Guaira sobre as costas de mulas.

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Sarcófagos da família Knoch saqueados e vandalizados. As múmias foram espalhadas pelo local.

Ao longo do tempo, Knoch criou uma nova fórmula mumificadora, sem precedentes na época, que consistia em injetar um fluído nos cadáveres, sem remoção das vísceras e que garantia a conservação do corpo por muitos anos. No começo ele utilizou animais em suas experiências, e depois em cadáveres de soldados, que eram trazidos a noite para não assustar a população da região no lombo de mulas do hospital onde trabalhava até a fazenda, e depois de receber o processo mumificador, o cadáver retornava ao hospital. O Objetivo do médico era conseguir preservar os corpos o mais perfeito possível, com a mesma aparência que tinha quando a pessoa estava viva.

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As múmias de um cachorro e um soldado, guardam a entrada do mausoléu

Meses depois de estarem estabelecidos na fazenda, sua esposa não aguentou viver rodeada por cadáveres e todos os tipos de coisas desagradáveis em sua volta, como dois cachorros mumificados na entrada do laboratório, que foram seus animais de estimação e decidiu voltar para a Alemanha, a contragosto do marido. Por mais que o médico trabalhasse em sigilo, seu trabalho começou a ficar conhecido e a gerar polêmica, a ponto de receber o apelido de “Frankenstein Caribenho“. A curiosidade nos experimentos do médico, trouxe muita gente para sua fazenda, deixando-o incomodado. A fazenda era chamada de “Canoche” pelos habitantes locais.

Em 1869, um soldado de nome Jose Perez, mumificado por Knoch, sendo vestido com seu uniforme e segurando um fuzil e foi colocado em pé, na frente da entrada do mausoléu de sua família para afugentar os curiosos. Na região, contam histórias de que uma de suas múmias que estava sendo transportada de volta ao hospital, acabou caindo da mula, sem ninguém perceber, e dias depois, em vez  de ser retirada da trilha, Knoch fez um pequeno túmulo no lugar, colocando um vidro sobre a cabeça da múmia, para assim assustar os curiosos e convence-los a não seguirem em frente, em direção a sua fazenda. Essa múmia se encontra até hoje na referida trilha e é muito visitada pelos caminhantes que percorrem a região.

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Sarcófagos reformados por um grupo de pessoas com o intuito de preservar a memória do Dr. Knoch

Knoch teve muitos clientes da classe alta da sociedade venezuelana que acabaram sendo mumificado por ele, como o presidente venezuelano Francisco Linares Alcántara, bem como Antonio Leocardio Guzmán, fundador do jornal El Venezolano. A pedido da família, Thomas Lander, um jornalista e político notório foi mumificado por Knoch. Este cadáver foi colocado vestido e sentado em sua mesa no escritório de sua casa em Caracas, e ficou assim por mais de 40 anos, até o governo ordenar seu enterro em 1884.

Já idoso e com a saúde fragilizada, Knoch instruiu sua enfermeira Amalia Weissmann, para injetar-lhe o fluído e coloca-lo no mausoléu da família, após sua morte, que acabou ocorrendo em janeiro de 1901. Ela fez conforme foi orientada e continuou vivendo na fazenda Buena Vista até 1926, morrendo com a idade de 88 anos. Por continuar o trabalho do médico, mesmo após a sua morte, ela ganhou dos habitantes da região, o apelido de “Bruxa de Ávila” e levou para o túmulo a fórmula do fluído embalsamador que muitos pesquisadores acreditam, era baseado num composto de cloreto de alumínio.

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As múmias do Dr. Knoch, sua filha e filho

Pesquisadores relatam de que para conseguir um melhor resultado na mumificação, o médico injetava o fluído no corpo das pessoas ainda em vida, para que o coração irrigasse todo o corpo com o tal composto, antes dela morrer. Devido a falta de documentação, acreditasse que seja apenas especulação e também, parece que antes de morrer, Amalia Weissmann consultou Julius Lesse, cônsul alemão na época e redigiu um documento que sua última vontade após a sua morte, era que seu corpo fosse cremado e as cinzas lançadas ao mar, pois não queria ocupar um sarcófago destinado a ela no mausoléu de Knoch e todas a documentação, artigos e objetos pessoais do médico fossem enviados para a Alemanha.

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Não a registros, que isso realmente tenha acontecido, mas o que se sabe, é que após a morte de Amalia, a fazenda foi saqueada inúmeras vezes, por vândalos e estudantes de medicina atrás de lembrança dos experimentos de Knoch, e quando finalmente já não tinha mais nada para roubar e todas as construções estavam em ruínas, elas com o tempo, foram engolida pela vegetação. Em 2009, um grupo de pessoas querendo preservar a memória do médico, reformaram a parte interna do mausoléu, colocando de volta nas tumbas, as múmias que estavam espalhadas pelo local, mas como o lugar não é vigiado, após um tempo, foi vandalizado novamente e assim se encontra abandonado até os dias de hoje.

Dr. Knoch, o Frankenstein caribenho

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Múmia que caiu de uma mula e foi deixada na trilha com o intuito de assustar curiosos

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Mausoléu da família Knoch, o laboratório ficava embaixo deste

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Só o que restou das construção, são o mausoléu e ruínas da fundação onde ficava a casa da família, e tudo tomado pela natureza

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Busto em homenagem ao Dr. Knoch, perto da subida ao mausoléu

Fontes: 1 2 3 4

“Tudo o que o homem não conhece não existe para ele. Por isso, o mundo tem para cada um o tamanho que abrange o seu conhecimento”. – Carlos Bernardo González Pecotche

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Me chamo Julio Cesar, e moro no litoral de Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, que tem como objetivo descrever lugares curiosos, estranhos ou inóspitos, bem como lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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