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Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Durindana, Durandal ou Durandarte é uma espada mitológica, que tem a virtude de ser inquebrável e provavelmente o seu nome deriva do verbo francês “durer” que significa durar. Como descrito em várias obras da chamada Matéria de França, Durindana é a espada do conde Rolando, recebida de seu tio Carlos Magno quando se tornou um cavaleiro, aos dezessete anos de idade. Diz a lenda que Durindana foi dado a Carlos Magno, enquanto ele estava nos vales de Maurienne, por um anjo de Deus.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Rolando é um personagem da literatura medieval e renascentista europeia inspirado num obscuro conde que viveu no século 8, na época da dinastia carolíngia. As lendas que se desenvolveram ao redor de Rolando estão relacionadas com um personagem real, um tal conde Hruodland, vassalo de Carlos Magno e prefeito da marca da Bretanha. Este conde participou da campanha militar que o rei levou a cabo na Península Ibérica em 778, à época dominada em sua maior parte por muçulmanos. No curso da campanha, Carlos aliou-se a certos líderes muçulmanos contra outros, saqueou Pamplona e sitiou Saragoça.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Um levantamento dos saxões obrigou o rei a retirar-se para assegurar a fronteira oriental do reino. No dia 15 de agosto de 778, a retaguarda do exército franco foi atacada por bascos cristãos (vascões) ao transitar pelos Pireneus – possivelmente na passagem de Roncesvales (na atual Navarra, Espanha). Essa batalha ou escaramuça (referida hoje como batalha de Roncesvales) é citada por Eginhardo, biógrafo de Carlos Magno, que em sua Vita Caroli Magni (c. 830) relata que os soldados francos da retaguarda, incluído “Hruodland, prefeito das marcas da Bretanha” (Hruodlandus Brittannici limitis praefectus), foram todos mortos. Essa menção na obra de Eginhardo é a única referência histórica a Rolando que data da época carolíngia.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

No poema épico francês A Canção de Rolando, afirma-se que a espada contém, em seu punho de ouro, um dente de São Pedro, sangue de São Basílio, um fio de cabelo de São Denis e um fio da capa da Virgem Maria. No poema, ao perder o seu cavalo Vigilante (Veillantil) e perceber que está ferido de morte numa emboscada dos sarracenos em agosto de 788, Rolando tenta destruir a espada para impedir que ela seja capturada. Como a espada prova-se indestrutível, Rolando esconde-a então sob seu corpo, junto com o olifante (espécie de corneta feita de chifre de elefante), o instrumento usado para alertar Carlos Magno. De acordo com a lenda, Rolando teria sido enterrado junto com a espada em uma caverna perto do mosteiro de Santa María la Real de Aguilar de Campo, em Roncesvalles.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Mas existem outras versões sobre o destino desta espada: Nos Pireneus, na fronteira entre a Espanha e a França há um enorme estreito chamado “Brecha de Rolando” (La Brèche de Roland) que, segundo a lenda, foi aberto por Rolando ao golpear a montanha com a Durindana. Outras lendas pretendem que, ao não conseguir quebrar a espada nas rochas, Rolando acabou por jogá-la no fundo de um rio envenenado. O nome do rio de La Espada, perto de Toledo, recorda essa passagem.

Em El Bierzo existe a lenda de que a espada de Rolando encontra-se no fundo do lago de Carucedo, próximo às minas romanas de Las Médulas. Na Dinamarca, conta-se que uma inscrição na espada do herói lendário Holger Danske dizia: “O meu nome é Cortana, do mesmo aço e têmpera de Joiosa e Durindana“.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

A mais curiosa das lendas da espada de Rolando e a que a coloca em Rocamadour (rocha do São Amador), uma pequena vila, onde casas, torres, igrejas e muralhas se agarram nas rochas do desfiladeiro com 120 metros de altura, próximo ao rio Alzou, no sudoeste da França, famosa desde a Idade Média por ser um importante centro de peregrinação, documentado desde 1172 e onde se localiza o mosteiro de Nossa Senhora e a Igreja de São Miguel. Rolando ao não conseguir quebrar a espada, pediu ajuda ao Arcanjo Miguel para jogar a espada em direção ao vale, e ela milagrosamente viajou vários quilômetros até parar encravada no penhasco do desfiladeiro, acima da porta da capela de Notre Dame em Rocamdour.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

A conexão de Rolando com a vila de Rocamadour, é dito que ele saiu desta vila com suas tropas para cruzar os Pireneus e atacar os mouros. Muito provavelmente, os monges aproveitaram às histórias lendárias em torno de Carlos Magno, e inventaram a conexão com a vila como uma forma de atrair fiéis, embora não tivessem conhecimento que outros lugares também afirmam possuir a espada de Rolando. Entretanto por nove séculos a espada ficou fincada nas rochas, sem que ninguém tirasse ela de lá, até 2011, quando a Câmara Municipal a retirou e a entregou ao Museu Cluny, em Paris para ser exibida publicamente.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Rocamadour está localizada no departamento de Lot, na região Midi-Pyrénées e seu nome vem das relíquias de São Amador, um eremita que morava no lugar e cujo corpo muito bem conservado foi encontrado numa caverna por monges beneditinos que fundaram a vila em 1162. A vila é famosa também devido ao santuário de Notre Dame, onde em seu altar, guarda a Virgem Negra, uma pequena imagem em madeira preta, objeto de veneração.

O eremita identificado como Zacheus e marido de Santa Verônica, que teria enxugado o rosto de Cristo no caminho para o Calvário, eles teriam deixado a Palestina por perseguição e, guiados por um anjo, desembarcado na costa da Aquitânia. Depois de viajar para Roma, onde teria testemunhado o martírio de São Pedro e de São Paulo, São Amador regressou à França e, com a morte de sua esposa, teria se tornado um eremita. Conta a lenda que, a partir da descoberta do sepulcro, uma série de milagres teriam sido anunciados pelo sino da capela de Notre-Dame.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Ao longo dos séculos, a vila atraiu peregrinos de todos os países, incluindo reis, bispos e nobres, como Louis IX da França, Henrique II da Inglaterra e Afonso III de Portugal, ou pregadores como Domingo de Guzmán, o explorador e navegador Jacques Cartier e o compositor Francis Poulenc, que subiram de joelhos a escadaria de 233 degraus em suas peregrinações, onde ao final da penosa escalada, um átrio se abre e nele se revelam antigos abrigos sob as rochas, oito igrejas e capelas, entre elas, a de Saint-Sauveur e a cripta de São Amador, ambas tombadas pela Unesco por sua importância na peregrinação de Santiago de Compostela. Esta peregrinação é chamada de peregrinação de Nossa Senhora de Rocamadour.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

No Brasil uma estátua do herói pode ser encontrada na cidade norte-paranaense de Rolândia, batizada pela comunidade alemã que a fundou em homenagem ao par de Carlos Magno. A estátua foi dada como presente pela cidade de Bremen, na Alemanha, para celebrar a amizade entre o povo rolandense e o alemão. A tradição alemã continua forte em Rolândia, que até os dias de hoje tem a segunda maior Oktoberfest do país, além de uma numerosa comunidade luterana e escolas que ensinam alemão para as crianças.

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Estreito chamado “Brecha de Rolando”

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Ilustração antiga de Rolando morto e seu tio Carlos Magno, ajoelhado ao lado

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Ilustração de Rolando usando o olifante para chamar seu tio Carlos Magno, ante a derrota da batalha aos mouros

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

A suposta espada de Rolando foi retirada da pedra em 2011 e atualmente está exposta num museu em Paris

Durindana, a espada encravada no penhasco de Rocamadour

Alguns sites dão de que a suposta espada do Rolando no passado estava incrustada numa parede da capela e que foi colocada mais em cima, nas pedras devido aos peregrinos que queriam tocar nela.

Fontes: 1 2 3 4

“Viemos girando do nada, espalhando estrelas como pó. As estrelas puseram-se em círculo e nós ao centro dançamos com elas” – Jalal ud-Din Rumi

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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