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Ecce Homo, a restauração fracassada que salvou uma cidade

Ecce Homo, a restauração fracassada que salvou uma cidade

Cecilia Giménez, artista amadora de oitenta e três anos, não teve nada além de boas intenções quando decidiu restaurar um afresco deteriorado de Jesus Cristo pintado em uma parede da igreja do Santuário da Misericórdia, uma igreja gótica do século 16, na pequena cidade espanhola de Borja, com 5.000 habitantes, na Província de Saragoça. O afresco intitulado Ecce Homo (que significa “Este é o homem “ou” Eis o Homem”) foi feito pelo professor de arte espanhol Elías García Martínez (1854-1934) em 1930.

Embora o trabalho era considerado de “pouca importância artística”, de acordo com a imprensa especializada, porque Martínez não era um artista expressivo e sua pintura não era uma obra prima, o afresco, no entanto, tinha um valor sentimental para a comunidade local. Assim, quando a pintura original começou a descascar, Cecilia Giménez que não tinha nenhum treinamento para isso, tomou para si a responsabilidade de restaurar a obra de arte envelhecida.

Ecce Homo, a restauração fracassada que salvou uma cidade

O afresco Ecce Homo à esquerda e a versão “restaurada” à direita

Os moradores de Borja não percebiam a pintura porque a igreja é dominada por um altar barroco dourado do século 18. Mas ao longo dos anos,  Giménez foi ficando incomodada com o fato de a parte inferior do afresco estar desaparecendo, quase um terço dele, desintegrando-se com a umidade da igreja, e começou a restauração, dando uma pincelada aqui e outra ali na parte inferior do afresco, com o conhecimento do padre e dos zeladores da igreja, uma família que vive na igreja há três gerações. No verão de 2012, decidiu dar outro rumo em sua restauração, desta vez incluindo o rosto, porém percebeu que o trabalho demoraria mais tempo que o esperado e decidiu sair uns dias de férias. Ela pretendia concluir quando voltasse, mas para o bem ou para o mal, ela nunca teve a chance.

Ecce Homo, a restauração fracassada que salvou uma cidade

A pintura original, intacta (à esquerda), a pintura danificada (meio) e a restauração de Giménez (à direita).

Quando havia voltado, sua restauração fracassada, ainda que bem intencionada haviam sido descobertos e publicado por um jornal local, e então, virou chacota no mundo inteiro, sendo disseminada pelo Facebook e Twitter, inspirando uma série de memes e piadas. A imagem foi comparada a um macaco ou ouriço, e sobreposta em memes e paródias da Mona Lisa e numa lata de sopa Campbell’s. Outros apelidaram de Ecce Mono (Eis o macaco).

Giménez sentiu-se tão humilhada, que chorou durante dias e se recusou a comer, disseram seus parentes. Eventualmente, ela se consultou com um psiquiatra e começou a tomar tranquilizantes. Cecilia fez um desabafo: “Passei muito mal, fiquei doente, senti muito. Fiz tudo com muito carinho e muito amor, como sempre fiz. Tudo bem que não pude terminá-lo, mas não precisavam dizer o que disseram de mim. Apesar disso, estou muito contente por tê-lo feito com carinho e amor” Para piorar sua situação, os herdeiros de García Martínez ameaçaram processá-la, por ter destruído a pintura, mas felizmente para ela, não seguiram adiante com a intenção.

Ecce Homo, a restauração fracassada que salvou uma cidade

Restauração de Mr Bean de James McNeill Whistler Arranjo em cinzento e preto No. 1 (Mãe de Whistler), do filme de Bean de 1997.

Atualmente, por um estranho toque do destino, a pequena e obscura cidade de Borja de repente entrou para o circuito turístico internacional, trazendo todos os anos, dezenas de milhares de visitantes curiosos para ver com seus próprios olhos o trágico fiasco, e saem cheios de lembranças, como canecas, camisetas estampadas, com o “novo e melhorado” Ecce Homo.

Cecilia Giménez, que de sua tentativa de restauração foi ridicularizada e zombada, agora é uma celebridade local. Ela entrega prêmios para uma competição de jovens artistas, que pintam seus próprios retratos de “Ecce Homo”. As pessoas a reconhecem nas ruas e gritam “É a Cecilia! É Cecilia!. Ela ainda tem o direito a quarenta e nove por cento dos rendimentos resultantes nas vendas das lembrancinhas. O resto vai para a família Martínez.

Ecce Homo, a restauração fracassada que salvou uma cidade

Uma variedade de lembranças “Ecce Homo” | Crédito da foto

No Natal de 2014, a imagem de Ecce Homo dela foi impresso nos bilhetes de loteria da cidade. As vinícolas locais disputam os direitos de colocar a imagem nos rótulos de seus vinhos. A versão borrada de Giménez é agora divulgada como um ícone da pop art. Ela é homenageada todos os anos pelos moradores no dia 25 de agosto, o dia da transfiguração da pintura. Cecilia Giménez pode ter até falhado em restaurar a pintura, mas ela conseguiu restaurar as economias da cidade, que estava cambaleando sob a devastadora recessão que o resto da Espanha vem sofrendo ao longo dos últimos anos.

Na crise econômica dos últimos seis anos, 300 empregos desapareceram, disse o prefeito de Borjam Miguel Arilla, mas com a explosão do turismo, os restaurantes ficaram estáveis. Os museus locais também se beneficiaram, diz ele. O Museu de Colegiata, ali perto, abrigado em uma mansão renascentista do século 16, teve um aumento no número anual de visitantes de 7.000 para 70 mil, para ver sua coleção de arte religiosa medieval.

Ecce Homo, a restauração fracassada que salvou uma cidade

Os turistas se alinham para ver “Ecce Homo” na igreja do Santuário da Misericórdia em Borja, Espanha | Crédito da foto

Para mim, é uma história de fé“, disse Andrew Flack, um libertista de ópera que está fazendo uma ópera cômica sobre como uma mulher arruinou um afresco e salvou uma cidade. “É um milagre como ela impulsionou o turismo.” “Por que as pessoas estão vindo olhar, se é uma obra de arte tão horrível?“, ele pergunta. “É uma espécie de peregrinação, transformada em fenômeno pela mídia. Deus opera de formas misteriosas. A sua ruína pode ser o meu milagre.

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Coleção de memes “Ecce Homo” na internet

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Cecilia Giménez ao centro pousado com sua fracassada restauração famosa | Crédito da foto

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Igreja do Santuário da Misericórdia | Crédito da foto

Fontes: 1 2

“Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia.” – William Shakespeare

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