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Epecuén, a cidade esquecida

Epecuén, a cidade esquecida

Na década de 1920, uma aldeia estabeleceu-se ao longo da costa do Lago Epecuén, um lago salgado, localizada à 600 quilômetros a sudoeste de Buenos Aires, Argentina. Devido ao potencial turístico, em 1921, um pequeno complexo termal foi inaugurado e a partir do ano seguinte, terrenos ao redor do lago, começaram a serem vendidos e a Villa Lago Epecuén começou a prosperar. O lugar oferecia aos seus visitantes águas termais, piscina de água doce, campos de tênis, centro de recreação, tratamentos médicos, lojas e foi construído uma usina para fornecer energia a população.

O lago Epecuén é o maior dos cinco lagos na região e tem altos níveis de sal, só perdendo para o Mar Morto e dez vezes mais sal do que qualquer oceano. Além disso, de acordo com estudos, a água do lago tem propriedades curativas, ajudando a combater várias doenças, tais como reumatismo, artrite, doenças de pele, cansaço físico e mental, anemia e depressão, entre outros. Este lugar não era apenas um ponto de encontro para os turistas, mas também era um centro de estudo científico e médico desde 1886 pelas propriedades das suas águas. A água do lago era reconhecida e certificada como uma fonte de saúde. Há uma lenda que conta que um chefe indígena de nome Carhué (“coração puro“) foi vítima de uma misteriosa paralisia e se curou ao banhar-se nas águas da lagoa formada pelas lágrimas de dor de sua amada Epecuén (“eterna primavera“).

A vila transformou-se de uma pacata aldeia nas montanhas para um prospero resort turístico conhecido internacionalmente. A jovem cidade ganhou uma linha férrea ligando-a a Buenos Aires e em pouco tempo, turistas de todo o continente sul-americano e do mundo começaram a chegar, e na década de 1960, mais de 25.000 pessoas vinham por ano dar um mergulho nas reconfortantes águas salgadas. Em 1980, a cidade já tinha 5.000 quartos de hotel, 250 empresas e hotéis e mais de 100 hectares de camping e uma população fixa de 1.500 pessoas.

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Nível de água instável

O lago Epecuén era grande, mas raso e em 1959 foi confirmado que a profundidade média dos quase 10.000 hectares do lago era de um metro. Esse grande espelho d’água recebia água de outros lagos e a água ia evaporando e os sais minerais residuais se acumulando no fundo. Sendo o último na cadeia de lagos e lagoas e por estar localizado na parte inferior de uma depressão, o nível de água era sempre variável. Quando o nível estava muito baixo, a concentração de sal não era suficientemente diluída, e uma crosta de vários centímetros de espessura impedia o banho. De acordo com registros históricos, entre 1914 e 1919 as chuvas foram duas vezes mais que o normal, gerando um aumento no volume de água, deixando o lago adequado para a sua inauguração em 1921, mas baixava constantemente e essa instabilidade permaneceu por 50 anos, até a conclusão de um projeto hidráulico  em 1975, que trazia água de outros lugares e mantinha o nível da água do Lago Epecuén. Um muro de contenção de 3,5 metros em forma de ferradura também foi construído ao redor do resort.

A exploração comercial da área continuou até 1980, e uma vez que o lago recebia vários pontos de captação de água, o processo de mineralização e salinidade começou a mudar. Infelizmente, neste esforço contínuo que os seres humanos têm de querer controlar a natureza, eles não perceberam o que estava para acontecer. A quantidade de água da estação chuvosa, mais a água adicionada por obra humana e um evento climático conhecido como El Nino, que fez chover mais que o habitual nas colinas próximas do lago e isso por vários anos, fez Lago Epecuén encher e a Vila Epecuén lenta mais firmemente, começar a afundar.

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Em 10 de novembro de 1985, o enorme volume de água rompeu o muro de contenção e inundou grande parte da cidade deixando-a sob quatro metros de água. A inundação aumentava um centímetro por hora e em 15 dias, toda a cidade estava embaixo d’água, fazendo a pessoas terem que abandonar a cidade as pressas, deixando as vezes móveis e carros para trás. Já no ano de 1993, a inundação continuou a engolir a cidade até ela ficar coberta por dez metros de água. Os residentes de Epecuén, fugiram para a cidade vizinha de Carhué, que fica a 8 quilômetros e outros foram embora da região, nem sequer olhando para trás. Em Carhué, alguns refizeram suas vidas, construíram novos hotéis e saunas para tratamentos de pele a base de barro e água salgada. A maioria das pessoas entraram na justiça contra o governo, com a alegação de que a catástrofe poderia ter sido evitada. A maioria recebeu 50% do valor de seus imóveis, enquanto outros mais persistentes receberam 100% do que perderam para a inundação.

Quase 25 anos depois, em 2009, o clima mudou e as águas começaram a baixar e a Vila Epecuén começou a reaparecer, toda tingida de branco, sem vegetação ou árvores. Muitas famílias voltaram para visitar seus entes queridos enterrados no cemitério que ficou décadas embaixo d’água. A aldeia não foi reconstruída, mas se transformou novamente em uma atração turística para aqueles dispostos a enfrentar as seis horas de viagem desde Buenos Aires por estreitos caminhos rurais que perfazem 550 km. Quem chega hoje a Epecuén pode ver os restos oxidados de carros e móveis, casas em ruínas e eletrodoméstico destruídos. Escadas levam a lugar algum, e os cemitérios, revirados, expõem tumbas outrora enterradas. É uma paisagem estranha e apocalíptica, que representa um momento traumático para a posteridade.

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Foto aérea tirada no dia 03 de maio de 2011 e se percebe que as águas começam a recuar

A vila tem apenas um habitante

Numa casa humilde, com galinhas e vacas, vive o único habitante de Epecuén. Seu nome é Paul Novak, com 85 anos. Quando a água começou a recuar. foi lhe oferecido o trabalho para ir cuidar de uma casa nas ruínas e ele aceitou. Ele tem 10 filhos e 21 netos que vão visitá-lo nas férias e aniversários. Nascido em 1930, filho de pai ucraniano que se mudou para a região em 1924. Sua família fez os tijolos que foram usados ​​na construção do orfanato e algumas casas na aldeia. Novak, além de se dedicar a cuidar de animais, é o melhor relações públicas de Epecuén. Todos os dias percorre as ruínas em sua bicicleta, com seus cães como companheiros e quando encontra algum turista, descreve como era a vida do lugar, nos seus tempos áureos.

A residência do Pablo está localizada onde, antes do acidente, ficavam os subúrbios da cidade turística. Ele conta que a enchente pegou todo mundo desprevenido, e que no começo todos esperavam no teto de suas casas, imaginando que a água baixaria. Obviamente não baixou, e dois dias depois da enchente inicial, a cidade estava praticamente vazia.

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O antigo matadouro de Villa Epecuen, fotografado em 4 de maio de 2011

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Pablo Novak, decidiu voltar a morar em Vila Epécuen, sendo o único morador do lugar, fotografia tirada em 3 de maio de 2011, quando tinha 81 anos

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Comparativo do que era e como é atualmente, uma das avenidas principais da cidade. A foto mais antiga é da década de 1970

No Passado

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A enchente

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Muro de contenção sendo rompido pelas águas do Lago Epecuén em 10 de novembro de 1985

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