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Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

No passado, antes da chegada dos europeus, grandes “congestionamentos” formados pelo acúmulo de troncos e árvores caídas em rios e riachos eram um fenômeno comum na América do Norte, mas nenhum era tão grande quanto o que existia no rio Vermelho. No seu auge, esse congestionamento de troncos – conhecido como “Great Raft” ou Grande Jangada – se estendia por 265 quilômetros, entupindo a parte mais baixa do rio, no que hoje é o noroeste da Louisiana e o nordeste do Texas, nos Estados Unidos.

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Crédito da foto: Noel Memorial Library, LSUS

O vale aluvial do rio Vermelho contém os solos mais erodíveis de qualquer grande vale de rio nos Estados Unidos. Durante séculos, antes da chegada da Era Industrial e da migração para o oeste, as inundações periódicas do rio Vermelho escavavam as florestas que margeavam as margens do rio. Quando eram arrancadas do solo, as árvores enchiam o rio e formavam uma série de congestionamentos intermitentes que se estendiam por quilômetros na atual fronteira Arkansas-Louisiana até a área de Natchitoche, na Louisiana.

Cada inundação trazia um novo suprimento de troncos e o congestionamento crescia até chegar a mais de cem quilômetros de extensão. Partes da jangada às vezes se desintegravam e flutuavam rio abaixo, mas novas toras e destroços que foram adicionados à extremidade superior mantinham a jangada em um comprimento quase constante entre 200 a 240 quilômetros. O congestionamento também forçou a água sobre as margens e para o vale, criando numerosos grandes e profundos lagos. Alguns desses lagos – Caddo, Cross, Wallace, Bistineau e Black Bayou – ainda existem e são conhecidos como Great Raft Lakes.

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Crédito da foto: Noel Memorial Library, LSUS

Os índios Caddo, que viviam ao longo do rio Vermelho, foram muito beneficiados com esse fenômeno. Toda primavera, quando o rio arrancava árvores e acrescentava à jangada, deixava para trás campos férteis e abertos, onde os Caddos cultivavam abundantes colheitas de milho, feijão, abóbora e outras. O congestionamento também garantiu que os Caddos permanecessem intocados pelos europeus por outros 150 anos antes de uma expedição espanhola, liderada por Domingo Terán de los Rios, primeiro governador espanhol do Texas entrar em contato com eles em 1691.

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Crédito da foto: Noel Memorial Library, LSUS

Depois que os Estados Unidos conquistaram a independência da Grã-Bretanha, a expansão ocidental começou. Os primeiros colonos e pioneiros começaram a migrar para o território de propriedade dos franceses entre os rios Mississippi e Vermelho. Após a compra da Louisiana, Thomas Jefferson encomendou a Lewis and Clark Expedition para explorar o rio Missouri e além até a costa do Pacífico e, em 1806, a menos conhecida Expedição Freeman e Custis foi contratada para encontrar as cabeceiras do rio Vermelho.

Antes da expedição ser repelida pelas tropas espanholas nas proximidades de Oklahoma, eles encontraram a “massa quase impenetrável” da Grande Jangada no rio ao norte de Natchitoches. Freeman descreveu-a como uma concentração de cedros, choupos e ciprestes cobertos de arbustos e matos tão grosso que “um homem poderia andar sobre ela em qualquer direção“. Freeman estava convencido de que nenhum esforço humano poderia desalojar a Grande Jangada do rio.

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Crédito da foto: Noel Memorial Library, LSUS

No entanto, comerciantes com seus barcos se aventuraram nas águas do Vermelho e procuraram por rotas que alcançassem o Território do Arkansas, onde o Exército dos EUA havia estabelecido vários fortes e tinha dificuldades e despesas consideráveis ​​fornecendo-lhes por rotas terrestres. Outros interesses reclamavam que a Grande Jangada abafava o comércio e o desenvolvimento, ajudava os índios a dominar o comércio e desencorajava a colonização branca.

Em 1828, o Congresso autorizou a verba de 25.000 dólares para a remoção da Grande Jangada. Depois que várias tentativas mal sucedidas de limpar o grande acúmulo de troncos no rio terminaram em frustração, um homem surgiu convencido de que a Grande Jangada poderia ser removida.

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Crédito da foto: Noel Memorial Library, LSUS

O capitão do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA, Henry Miller Shreve foi um inventor e capitão de navio a vapor que é creditado como a pessoa que acabou com o monopólio de barcos a vapor Fulton-Livingston e da abertura dos rios Ohio e Mississippi para a navegação. Em 1832, ele foi superintendente da Western River Improvement e começou a tarefa de remover a Grande Jangada.

Usando barcos de sua própria fabricação e uma força de trabalho de 200 homens, Shreve atacou o fundo da jangada e começou a soltar as árvores e detritos, cavar canais e restaurar o fluxo nas margens do rio. Em 1838, Shreve havia aberto o rio Vermelho para navegação até o local atual da cidade batizada por ele, Shreveport, e logo os barcos a vapor de Nova Orleans estavam regularmente envolvidos no comércio. De Shreveport, os barcos atravessaram uma série de lagos até chegarem a Jefferson, que logo se tornou uma das cidades portuárias mais importantes do Texas.

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Crédito da foto: Noel Memorial Library, LSUS

Manter o rio Vermelho livre de troncos, no entanto, tornou-se um esforço contínuo que manteve o Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA ocupado pelos próximos 30 anos. Finalmente, em 1872, o Corpo de exército, liderado pelo tenente Eugene Woodruff, começou de fato a abrir o rio Vermelho mais uma vez.

Woodruff tinha em seu arsenal o confiável barco que Shreve inventara com serras a vapor e usara com sucesso para limpar o rio antes, e uma nova ferramenta não disponível para Shreve naquela época – a nitroglicerina. Antecipando futuras inundações, Woodruff e seus engenheiros dragaram o canal, criaram reservatórios e construíram barragens. Infelizmente, Woodruff não viveria para ver a conclusão do projeto. Ele contraiu febre amarela e morreu em Shreveport em agosto de 1873.

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Crédito da foto: Noel Memorial Library, LSUS

O uso de explosivos e máquinas avançadas movidas a vapor, e alterações feitas no canal por Shreve e Woodruff, tiveram consequências além de melhorar o rio para navegação. A integridade geológica do vale do rio Vermelho mudou para sempre. Os níveis de água começaram a recuar nos lagos das jangadas. Com o tempo, apenas os lagos onde as barragens foram construídas sobreviveriam. Apesar dos milhões de dólares gastos na dragagem do rio e em eclusas e represas, a navegação fluvial começou a diminuir em uma década com a chegada de um novos e melhores meios de transporte – as estradas de ferro. Na metade do século seguinte, apenas barcaças rupestres locais atravessaram o Rio Vermelho.

Great Raft, a Grande Jangada do rio Vermelho

Barco adaptado com serras a vapor projetado pelo Capitão Henry Miller Shreve

Fontes: 1 2

“Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos”. – Ralph Waldo Emerson

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Me chamo Julio Cesar, e moro no litoral de Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, que tem como objetivo descrever lugares curiosos, estranhos ou inóspitos, bem como lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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