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Humboldt, o homem que redescobriu a América

Humboldt, o homem que redescobriu a América

A corveta Pizarro navegava silenciosamente pela noite do oceano. Alexander von Humboldt observava temeroso e fascinado as centenas de estrelas e constelações que jamais havia visto na vida. Sentado em sua cabine, escreveu. “Nada faz o viajante perceber tão vividamente a incrível distância de sua terra natal quanto a visão do novo céu“. Poucos dias depois, o barco aportava em Cumaná, Venezuela, ponto de partida para a maior expedição científica já realizada em terras do Novo Mundo. Era 16 de julho de 1799.

Humboldt, o homem que redescobriu a América

Estátua de Humboldt na Cidade do México | Crédito da foto

Pela primeira vez, um europeu viajava às Américas com o objetivo único de pesquisar sua geografia e biodiversidade. A chegada de Colombo contava mais de 300 anos e até então toda expedição às “ínsulas estranhas” tinha sido para explorar, ocupar ou colonizar. As selvas, os rios e as montanhas que tanto seduziram os primeiros conquistadores continuavam desconhecidos e intransponíveis. Humboldt punha os pés no continente disposto a redescobri-lo.

E provar que a ciência ia mais além do que se imaginava na época. “Meu objetivo principal é estudar como as forças da natureza interagem entre si e como a geografia afeta a vida animal e vegetal. Vou buscar a unidade da natureza“.

Humboldt, o homem que redescobriu a América

Biblioteca de Humboldt em sua casa, em Berlim, onde viveu até a sua morte. Ilustração de Eduard Hildebrand de 1856

Produto genuíno do Iluminismo que fervilhava na Europa, Alexander von Humboldt era frequentador assíduo dos círculos intelectuais de Berlim, sua cidade natal. Naturalista, geógrafo, zoólogo, botânico, sociólogo: seu campo de conhecimento era vasto, o que despertou a admiração dos colegas como Goethe e Schiller.

Com apenas vinte anos, fez sua primeira viagem de caráter científico, passando pelos Países Baixos, Alemanha e Inglaterra, e principalmente ao longo das margens do rio Reno, seguindo Georg Forster, um naturalista que acompanhou o Capitão Cook em sua viagem ao redor do mundo. O resultado de toda essa exploração científica foi uma obra intitulada Observações Sobre os Basaltos do Reno.

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Estátua no Mirador Alexander von Humboldt na ilha de Tenerife, Espanha | Crédito da foto

Inspirado pelas viagens de James Cook, decidiu pôr em prática tudo o que sabia e financiar a própria expedição. O destino: a América da qual muito se ouvia mas pouco se sabia. Conseguiu a permissão da Coroa espanhola para explorar as colônias, mas foi impedido de entrar no Brasil, já que Portugal havia proibido qualquer expedição estrangeira em suas possessões.

Depois de passar dois anos planejando a viagem, e enriquecido com a fortuna herdada da mãe, Humboldt estava pronto para começar sua jornada. Acompanhado só pelo botânico francês Aimé Bonpland, partiu de La Coruña, no norte da Espanha, em junho de 1799. Tinha apenas 30 anos. Humboldt conheceu Aimé Bonpland, quando tentaram ir na expedição científica que acompanhou Napoleão Bonaparte ao Egito.

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Retrato de Humboldt feito por Friedrich Georg Weitsh em 1806

Mal tinham chegado ao Porto de Cumaná, os dois homens se viram extasiados diante daquele mundo quase fabular. Aturdido, Humboldt escreveu a seu irmão. “Este país é maravilhoso: plantas fantásticas, enguias elétricas, tigres, macacos e muitos índios autênticos, emi-selvagens.” A expedição pelas selvas da Venezuela durou um ano e meio e atingiu seu ápice no Orinoco.

De todas as mitologias do Novo Mundo, o Rio Orinoco sempre teve um lugar especial. Território incógnito e hostil, alimentava medos e esperanças na busca do El Dorado desde o tempo da Conquista. Na época, corriam rumores sobre a existência de um rio misterioso que seria a ligação entre o Orinoco e o Rio Amazonas.

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Ilustração de Humboldt em sua casa. Aguarela de Eduard Hildebrandt de 1845

Humboldt foi atrás do enigma e acabou descobrindo o Rio Casiquiare, único canal natural do planeta a comunicar duas grandes bacias hidrográficas. Até o próprio El Dorado ele julgou ter encontrado, no ano seguinte. Ou pelo menos a origem do mito. Baseado em relatos e mapas antigos, Humboldt chegou ao Lago Guatavita, na Colômbia, onde um antigo chefe indígena costumava jogar oferendas em ouro na água. Isso, segundo ele, seria a origem da história sobre cidades douradas que correu o mundo e ganhou proporções épicas.

A Colômbia foi o início da segunda parte da viagem, depois de uma curta estada em Havana dedicada ao estudo das plantações de açúcar. O Objetivo agora era explorar a temida Cordilheira dos Andes, até onde fosse possível chegar. Foi um ano inteiro navegando por rios caudalosos e escalando picos nevados, tudo para estudar a fundo a geografia do lugar.

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Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland no sopé do vulcão Chimborazo. Pintura de Friedrich Georg Weitsch de 1810

Em junho de 1802, Humboldt e Bonplant fizeram a célebre escalada do Vulcão Chimborazo, no Equador, tido então como a montanha mais alta do globo. Não conseguiram chegar ao topo dos 6.310 metros de altura, mas faltou pouco, o que já foi suficiente para bater o recorde de maior altitude até então alcançada pelo homem. Depois da passagem de Humboldt, os Andes nunca foram os mesmos: seus estudos se tornaram a base de inúmeras pesquisas durante as décadas seguintes.

Já de partida da América do Sul, o incansável Humboldt fez sua última grande descoberta. Navegando pela costa do Peru, mediu a corrente oceânica. Mais tarde, seu nome estaria nela: Corrente de Humboldt. Antes de voltar para a Europa, ele ainda permaneceu quase um ano no México prestando consultoria ao governo sobre tecnologia de minas, e fez questão de passar pela Filadélfia, então capital do país, para conhecer o presidente Thomas Jefferson, por quem nutria grande admiração. Os dois homens se entendem tão bem que Jefferson convida Humboldt a passar sua estada na Filadélfia na casa dele.

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Mapa da National Geographic

Cinco anos haviam passado desde que Humboldt deixara a Europa. No caminho de volta, trazia consigo quarenta caixas de informações sobre geografia, clima, biologia e etnologia. Material que gastaria o resto da vida para estudar. Saldo da expedição: trinta volumes publicados. E só um terço da viagem foi posto no papel.

O século 19 mal começava, o mundo estava mudando e aprendendo a se conhecer melhor. No meio do turbilhão, um novo continente começou a surgir. Diante dos atônitos olhos europeus, Humboldt habilmente descortinava uma América que os homens nem sonhava existir.

Humboldt, o homem que redescobriu a América

Humboldt com nativos em expedição ao vulcão Chimborazo

A expedição de Humboldt custou um terço de sua riqueza. Foi uma das mais notáveis expedições científicas de todos os tempos, com uma massa de dados de um valor científico inestimável, ainda mais valiosa que os espécimens que eles puderam recolher. Humboldt e Bonpland percorreram, durante sua expedição através das Américas, um total de 9.650 km, tanto a pé, como a cavalo ou em canoas.

A expedição atravessou as terras das atuais Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Cuba e México (foi impedido de permanecer no Brasil, pois os portugueses consideraram-no um possível espião alemão, após encontrarem-no em terras brasileiras perto da fronteira venezuelana).

A característica que torna essa expedição absolutamente excepcional é que ela foi levada a cabo sem nenhum interesse comercial; sua única motivação foi o desejo de conhecimento e a curiosidade. Durante sua expedição pelas Américas de 1799 a 1804, ele precisou latitudes e longitudes, melhorou mapas, identificou 60.000 plantas, das quais 6.300 até então desconhecidas.

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Ilustração de Humboldt e seu amigo e parceiro de viagem, Aimé Bonplant no México.

Sua principal obra é o Kosmos, uma condensação do conhecimento científico de sua época. Sua obra Ansichten der Natur também foi bastante popular. Sua correspondência científica com colegas cientistas compõe-se de 35 mil cartas, das quais aproximadamente 12 500 estão arquivadas.

Como resultado de suas explorações, espécies denominadas em sua homenagem incluem: Pinguim-de-humboldt (Spheniscus humboldti), Conepatus humboldtii – espécie de cangambá, Quercus humboldtii – carvalho sul-americano, Annona humboldtii – espécie de arbusto, Phragmipedium humboldtii – uma orquídea, Utricularia humboldtii – planta carnívora, Geranium humboldtii – um gerânio, Salix humboldtiana– salgueiro, entre outras.

Aspectos e acidentes geográficos denominados em sua homenagem incluem a corrente de Humboldt, o rio Humboldt, a cadeia de montanhas East and West Humboldt Range, os condados estado-unidenses de Humboldt County, na Califórnia, e Humboldt County, no Iowa e o parque Humboldt no lado oeste de Chicago. Além disso, o mar lunar Mare Humboldtianum foi assim denominado em sua homenagem, bem como o asteroide 54 Alexandra.

Após sua morte em 1859, com 89 anos, seus amigos e colegas criaram a Fundação Alexander von Humboldt (Stiftung em alemão) para manter o generoso apoio de Humboldt a jovens cientistas. Apesar de a dotação inicial ter se perdido durante a hiperinflação alemã dos anos vinte, e novamente após a Segunda Guerra Mundial, a fundação tem recebido apoio do governo alemão e tem um papel importante na atração de pesquisadores estrangeiros à Alemanha, possibilitando também a pesquisadores alemães trabalharem no estrangeiro por um determinado período.

Alguns trabalhos de Alexander von Humboldt

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Texto adaptado do publicado na Revista Terra, edição 92 de dezembro de 1999

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