Arquitetura

A igreja Sagrada Família de Gaudí

A igreja Sagrada Família de Gaudí

Uma igreja em Barcelona na Espanha está sendo construída a mais de 130 anos. É uma construção enorme, ocupando quase um quarteirão inteiro, fantástica e interminável, o sonho de um arquiteto arrebatado pela imaginação. Estamos falando do Templo Expiatório da Sagrada Família, também conhecido simplesmente como Sagrada Família. É um edifício que não se parece com nenhum outro, com colunas que se torcem e se ramificam como se fossem árvores, e com enormes torres perfuradas que se erguem silenciosas sobre uma nave vazia. Alguns a descrevem como uma obra genial, outros como o produto de uma imaginação doente, mas poucas construções no planeta provocam emoções tão intensas.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

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Antonio Gaudí

O projeto inicial para a Sagrada Família era de uma igreja neogótica, que deveria ser construída e financiada unicamente por doações privadas e administrada pela Associação Espiritual de Devotos de São José, fundado por Josep Maria Bocabella. Para isso foi adquirido um terreno num lugar conhecido como El Poblet, em Sant Martí de Provençals, uma área desfavorecida da cidade na época – uma terra usada como pastagem de cabras. O arquiteto diocesano Francisco de Paula do Villar y Lozano (1828-1901) elaborou os projetos, e em 1882 colocou-se a primeira pedra da igreja no terreno, no dia de São José.

Pouco tempo depois a associação prescindiu dos serviços do arquiteto, substituindo-o por um jovem de apenas 31 anos, chamado Antonio Gaudí, que estranhamente, nunca foi religioso, sendo um mistério por que a construção lhe foi confiada. O que começou sendo uma encomenda, converteu-se para Gaudí numa obsessão à qual dedicou o resto de sua vida, uma devoção na qual a arte e a religião se fundiam numa paixão arrasadora. Nunca chegou a terminar o edifício, que continua inacabado até os dias de hoje, mas que agora é o monumento mais importante de Barcelona e uma das criações mais extraordinárias de toda a história da arquitetura ocidental. A fachada do Naixement (Natividade) e a cripta foram incluídas pela UNESCO em 2005 como Patrimônio Mundial.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

Nos primeiros anos após herdar o projeto, Gaudí construiu a cripta num estilo mais ou menos gótico e começou a trabalhar na abside e no claustro da igreja. Porém, a chegada de uma grande doação anônima levou o arquiteto a abandonar o projeto neogótico de Villar para criar um novo projeto, grandioso e inovador. Ele planejou construir um “livro” no templo, grandes “páginas” de pedra, que contarão sobre a vida terrena de Cristo, do Natal a morte e Ressurreição. O primeiro passo de Gaudí foi aumentar as dimensões da igreja e abandonar os austeros conceitos de Villar, substituindo-os por uma combinação de elementos em motivos florais e animais.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

Projeto original de Francisco de Paula do Villar y Lozano

Gaudí revolucionou o projeto neogótico anterior para o seu estilo particular naturalista, orgânico, adaptado à natureza; uma das suas fontes de inspiração foi a Caverna do Salnitre em Collbató (Barcelona). Gaudí opinava que o gótico era imperfeito, porque as suas formas retas, o seu sistema de pilares e arcobotantes não refletia as leis da natureza, que segundo ele é propensa às formas geométricas regradas, como são o paraboloide hiperbólico, o hiperboloide, o helicoide e o conoide.

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Gaudí dizia que não existe melhor estrutura do que um tronco de árvore ou um esqueleto humano. Estas formas são ao mesmo tempo funcionais e estéticas, e Gaudí empregou-as adaptando a linguagem da natureza às formas estruturais da arquitetura, aproveitando as suas qualidades estruturais, acústicas e de difusão da luz, Gaudí associava a forma helicoidal ao movimento, e a do hiperboloide à luz.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

A construção da igreja em 1915

O templo foi projetado para ter três grandes fachadas: a Fachada da Natividade, quase terminada com Gaudí ainda em vida, a Fachada da Paixão, iniciada em 1952, e a Fachada da Glória, ainda por completar. Segundo o seu proceder habitual, a partir de esboços gerais do edifício Gaudí improvisou a construção à medida que esta avançava.

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Os planos de Gaudí foram tornando-se cada vez mais ambiciosos e complicados. Em volta da igreja deveriam levantar-se 18 agulhas, com uma grande torre central de 170 metros de altura (tão alta como a catedral de Colônia e muito mais que as de São Paulo de Londres e São Pedro de Roma). Se pretendia que as torres simbolizassem os doze apóstolos, os quatros evangelistas, a Virgem Maria e o próprio Cristo (a torre mais alta). As três fachadas da igreja representariam o nascimento, a morte e a ressurreição de Cristo. Seu interior, estima-se que poderá levar no seu coro 1500 cantores, 700 crianças e cinco órgãos.

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Gaudí dando detalhes da obra ao núncio apostólico do Vaticano, Francesco Ragonesi (1915). Naquela ocasião Ragonesi qualificou Gaudí como “o Dante da arquitetura” e afirmou que “a sua obra é um dos maiores poemas cristãos em pedra”

Em 1805 estava ainda desenhando a fachada leste, uma decisão polêmica, já que o povo de Barcelona começou a ficar impaciente, e a fachada oeste, que dava para a cidade, parecia uma prioridade mais urgente. Gaudí justificou a sua decisão alegando que o tema da fachada oriental era o nascimento de Cristo, e que por isso deveria construir-se antes que a ocidental, que tema era a Paixão. Gaudí já não considerava a igreja como um edifício que devia construir-se com a maior rapidez possível, mas como uma manifestação religiosa por direito próprio.

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A abundância de simbolismos se aprecia também aos detalhes do desenho. Dá a impressão de que Gaudí abomina as superfícies planas. O que mais chama a atenção do visitante é o dinamismo da decoração, com animais, plantas, figuras humanas, árvores e esculturas ocupando até o último centímetro quadrado. Também planejava construir uma espécie de claustro ao redor de todo o edifício, que teria isolado o recinto sagrado dos ruídos da rua.

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O claustro da Sagrada Família também é diferente de todos os outros já vistos. Quando estiver finalizado, rodeará todo o templo, funcionando como elemento de isolamento e proteção do meio externo.

As quatro agulhas da fachada oriental, com 100 metros de altura, foram as últimas partes da igreja construídas sob a direção de Gaudí, que chegou a ver terminada apenas a torre que dá para o sul, dedicada a São Bernabé. Após sua morte e depois de uma larga interrupção – desde 1936, quando iniciou a guerra civil espanhola até 1952 – as obras continuaram, mas ainda falta muito para sua conclusão, apesar das tentativas de terminá-la a tempo para os jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona. Como antes mesmo de iniciar a construção, a igreja é totalmente financiada com as entradas dos visitantes e doações. Estimasse que a igreja fique concluída até o ano de 2026 e será a mais alta do mundo.

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Durante a Guerra Civil Espanhola, a igreja foi atacada e sofreu um grande incêndio que destruiu documentos e os planos de Gaudí e provocou danos na maquete deixada por ele. Por causa disso, atualmente, a igreja é construída mais inspirada na obra de Gaudí do que nos planos feitos por ele. Portanto, quando em 1944 prosseguiu a construção da Sagrada Família, teve de definir-se em primeiro lugar como devia proceder-se, para edificar o templo da forma mais fiel aos princípios de Gaudí.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

É possível ver os pináculos de mosaico, que coroam as torres dos apóstolos, adornados com o anel e o báculo episcopais.

O esplendor das ideias de Gaudí só pode ser apreciado de modo fragmentada; por exemplo, quando o interior se ilumina pela noite e se vê sair a luz através da pedra perfurada. Então a Sagrada Família representa verdadeiramente, como Gaudi desejava, a expressão em pedra das palavras de Cristo: “Eu sou a luz do mundo”.

A Sagrada Família conta com um museu, situado na cave do templo, na parte inferior correspondente ao cruzeiro, onde antigamente se situavam as oficinas. Inaugurado em 1961, mostra planos e desenhos originais de Gaudí, maquetes do templo e diversos objetos relacionados com o projeto, destacando-se os móveis litúrgicos desenhados por Gaudí. Também se destaca a maquete polifunicular invertida de cordel e pesos para calcular a estrutura do edifício e desenhar a forma da igreja da Colônia Güell à escala 1/15, na qual Gaudí se baseou para muitas das soluções estruturais da Sagrada Família.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

A impressionante Fachada da Natividade fica no Carrer de la Marina, em frente a praça que tem um lago. Com formas orgânicas, pouco comuns nas fachadas de outros templos, inclui também elementos inesperados, como folhas, animais e frutas, surpreendentes e inovadores. Nas laterais da porta central, há tartarugas na base das colunas.

Foi também reabilitado o espaço formado pelas Escolas da Sagrada Família, recentemente instaladas num lateral da fachada da Paixão, para exposição dedicada nomeadamente às múltiplas soluções estruturais concebidas por Gaudí, com especial ênfase nos seus estudos geométricos. O Museu conta igualmente com uma sala dedicada aos colaboradores do arquiteto, bem como uma de audiovisuais. Além das amostras referentes à Sagrada Família também se exibem diferentes objetos, planos, desenhos e fotografias sobre as diversas obras de Gaudí, bem como testemunhos biográficos do arquiteto. Também se realizam exposições temporárias dedicadas a diferentes aspectos do projeto de Gaudí.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

Gaudí dedicou a catedral, 43 anos de sua vida, e nos últimos anos ele viveu no canteiro de obras. Sua casa era numa cripta – uma pequena capela na parte subterrânea da catedral. Desde 1910, o arquiteto trabalhou apenas na Sagrada Família, recusando inúmeros outros trabalhos. Ele não aceitou nenhum pagamento pelos seu trabalho na catedral e viveu modestamente, apenas com doações.

Pobre, porém dedicado, Gaudí começou a ser rejeitado, outrora um artista famoso e bem de vida. Ao vê-lo, as pessoas ricas evitavam o contato e os conhecidos mais antigos se assustavam com sua aparência desleixada e olhar pensativo. Velho e doente, caiu sob as rodas de um bonde, que o atropelou. Foi levado para um hospital onde veio a falecer no dia 10 de junho de 1926, sem ninguém reconhece-los durante os três dias que ficou internado. Antes de ser enterrado como indigente, uma mulher finalmente reconheceu o corpo, e ele foi enterrado na capela del Carme, na cripta do templo, junto ao corpo do idealizador da igreja.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

Como as obras de construção sempre dependeram das doações, o avanço era muito lento. Gaudí sabia que não veria o templo finalizado e quis deixar, pelo menos, uma fachada terminada, a da Natividade, que serviria como um guia para o resto do templo. As obras avançavam muito devagar e o arquiteto já tinha afirmado “outros virão depois de mim. O que é necessário é conservar sempre o espírito da obra.” Após sua morte, a obra ficou a cargo de Demènec Sugrañes, seu íntimo colaborador, que tocou a construção até 1938. Depois vieram outros colaboradores de Gaudí, que tiveram contato direto com o arquiteto. A partir de 1984, Jordi Bonet Armengol ficou responsável pela construção, sempre respeitando os conceitos de Gaudí.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

A fachada da Natividade tem três portas: Porta de la Caritat (da Caridade), fica no meio da fachada. Nela estão representadas cenas no nascimento de Jesus. No alto da coluna aparece a estrela do Natal, a Anunciação, e a coroação da virgem em um nível superior. Porta de l’Esperança (esquerda). Está dedicada a São José. Nela aparece também a matança dos santos inocentes e a fuga para Egito. Porta de la Fe (direita). Nela aparece o jovem São José trabalhando, a visita de Maria a Isabel e a apresentação de Jesus ao templo. A mão com o olho no meio representa a Divina Providência, o Deus que tudo vê. A fachada está coroada por quatro torres. As escadas localizadas no interior das torres recebem luz natural de suas inúmeras janelas, que também favorecerão a acústica dos sinos, quando forem nelas instalados.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

Em cada torre pode ser vista uma escultura do apóstolo que representa.

A igreja Sagrada Família de Gaudí

Escultura na Fachada da Paixão. As imagens representam os últimos dias na vida de Jesus, com cenas de sofrimento representadas em três níveis da fachada.

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Como deverá ficar a igreja Sagrada Família depois de pronta

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As colunas sobre as quais o templo está apoiado são como troncos de árvores, por entre os quais os raios de sol se filtram como em uma floresta. Gaudí mais uma vez se inspirou na natureza para combinar, de forma harmônica, o estético e o funcional.

Fontes: 1 2 3

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. – Fernando Teixeira de Andrade

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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