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Ilha Sable, a ilha das sombras do Atlântico

Ilha Sable, a ilha das sombras do Atlântico

Sob as ondas do Atlântico, um verdadeiro labirinto de navios – mais precisamente 500 – descansa em paz. Semi-enterradas, peças de cobre que restaram das embarcações brilham para toda a eternidade, polidas pelas partículas de areia da água, que não deixam que conchas ou musgo se acumulem no metal. Esse grupo de naufrágios rodeia a Ilha Sable, conhecida como “cemitério do Atlântico” ou “ilha das sombras”, uma nesga de areia de 40 quilômetros de comprimento a aproximadamente 300 quilômetros de Halifaz, a capital da Nova Escócia, no Canadá.

Ilha Sable e seus mistérios

Numa época em que aviões e satélites varrem a Terra e conectam as pessoas em segundos, pouquíssimos lugares se mantêm inacessíveis. Sable é um deles. Correntes geladas do norte unem-se às águas mornas do Golfo Stream e provocam correntezas que arrastam os barcos e movem constantemente os bancos de areia em torno da ilha. Por conta desse fenômeno os navios são obrigados a ancorar longe da costa. Para chegar de avião é necessário equipá-lo com rodas especiais que permitam o pouso na praia. Já de helicóptero a viagem é muito cara, além de perigosa. São várias horas de voo contra ventos implacáveis.

Ilha Sable e seus mistérios

Assim, a Ilha Sable parece fadada a ser vista de longe. Mas o fato de ser quase inalcançável e o precioso tesouro que abriga faz com que todos na Nova Escócia sonhem em visitar essa terra de lendas. Em Halifax fala-se de Sable entre sussurros, e os poucos que a conheceram são considerados privilegiados. Eis o principal motivo de tamanho fascínio: cavalos selvagens. Isolados entre as focas e a espuma do mar, os pequenos cavalos da ilha, de origem desconhecida, ganharam uma aura mítica, como o Unicórnio ou o Pegasus, o cavalo alado da mitologia grega.

Historiadores e cientistas não chegaram a uma conclusão sobre sua procedência. Uma das teorias é que sejam da raça de pônei Shetland, originários das ilhas Shetland, a nordeste da Escócia, e descendentes de cavalos que sobreviveram ao naufrágio do navio que os transportavam. Assim como a origem da Ilha Sable, que os geólogos acreditam ter sido produzida por um fenômeno glacial que abaixou repentinamente o nível do oceano há vários milhares de anos, o surgimento dos cavalos continua mergulhado no desconhecido. Uma hipótese prega que eles foram trazidos pelos portugueses.

Ilha Sable e seus mistérios

Ninguém sabe quem descobriu a Ilha Sable, nem se os índios das costas vizinhas visitaram o lugar antes da chegada do homem branco. Considera-se porém que o explorador português João Alvarez Fagundes foi o primeiro a chegar em 1520, quando descobriu a costa da Nova Escócia. Os portugueses habitaram a ilha e provavelmente levaram gado para esse pequeno deserto entre as águas. Naquela época era comum estocar animais em ilhas desabitadas. Embora frequentemente voltassem a tornar-se selvagens, os animais podiam ser utilizados por navegantes em caso de algum contratempo.

A segunda versão sobre o surgimento dos cavalos é mais poética: uma nau de conquistadores espanhóis navegando ao norte do “Novo Mundo” teria encalhado nos bancos de areia, e os únicos a escapar do naufrágio seriam os cavalos, que conseguiram nadar até a ilha. A explicação mais razoável, entretanto, diz que os animais foram levados à ilha pelo marquês de La Roche em 1598. O nobre bretão, que foi enviado pelo rei Henrique IV, decidiu estabelecer suas tropas em Sable. A parada seria o primeiro estágio da sua viagem ao Novo Mundo, mas terminou por ser o início da saga de desastres que marcou o lugar.

Ilha Sable e seus mistérios

De La Roche, descobriu-se depois, não era feito da matéria dos grandes conquistadores. Ele foi até Nova Escócia que naquele tempo chamava-se Acádia, e resolveu voltar em seguida à França, deixando seus protegidos para trás. A Ilha Sable, tornou-se então o próprio inferno na Terra. Os soldados, abandonados à sua sorte, assassinaram seu capitão, brigaram entre eles e retornaram a um estado praticamente “selvagem”. Quando conseguiram finalmente pisar no solo francês, os homens estavam miseravelmente magros e levavam peles de foco como vestimenta.

Ilha Sable e seus mistérios

Após esta primeira tragédia houve uma longa sequencia de naufrágios que levou o reverendo Andrew le Mercier, de Boston, a montar uma estação de resgate na Ilha Sable. Isso aconteceu no início do século 18, no momento em que Acádia passava das mãos dos franceses para os ingleses. Historiadores supõem que os primeiros cavalos levados a Sable pelo marquês de La Roche sobreviveram por mais de cem anos e sua raça fundiu-se em 1739 com a dos animais trazidos por Andrew le Mercier. O reverendo colonizou a ilha convidando famílias para que plantassem e criassem animais, ao mesmo tempo em que davam assistência aos navios naufragados.

Ilha Sable e seus mistérios

Embora os cavalos tenham sangue mesclado, uma coisa é certa: os pequenos quadrúpedes de Sable se parecem muito com o tipo de cavalo baio de Acádia. E a história confirma essa origem. Entre 1755 e 1763, um dos sócios do reverendo Mercier, Thomas Hancock, mercador e dono de um navio em Boston, foi encarregado de deportar cavalos da Acádia para as províncias americanas. A viagem foi muito difícil e ele teve de abandonar a maioria dos animais que transportava. Onde foram deixados? Em Sable. Desde então esses cavalos misturaram-se aos que existiam na ilha e deram origem a uma raça muito particular: uma mistura de Acádia e mistério.

A atmosfera de Sable naquele tempo, totalmente isolada e sem nenhum meio de comunicação, era soturna. Os habitantes somente descobriram que havia acontecido um naufrágio quando os corpos dos afogados começavam a aportar à ilha. O clima opressivo foi ainda reforçado por um detalhe peculiar: como a província de Nova Escócia não tinha tinha manicômio, pareceu lógico mandar os lunáticos da região para Sable. Desde aquele momento, tornou-se comum cruzar com indivíduos dando aulas para o gado da ilha. Há relatos dessas “lições” em que os malucos doutrinavam pacientemente seus “pupilos”, chamando-os de “longas orelhas”.

Ilha Sable e seus mistérios

Em 1867, o Canadá tornou-se independente e a ilha finalmente ganhou dois faróis, um no leste e outro no oeste, que foram recebidos como a salvação. Infelizmente, o número de naufrágios não diminuiu até a chegada de Robert Jarvis Bouteillier. Ele era um carpinteiro que chegou a Sable aos 25 anos e viu i naufrágio do SS Virginia. Muitos dos passageiros foram salvos, mas uma criança morreu afogada. Bouteillier recuperou o corpo e, marcado para o resto da vida por esse evento, jurou que voltaria à ilha e devotaria sua vida a salvar os náufragos. Assim o fez. No final do século 19, ele retornou a Sable com sua família e ajudou em inúmeras operações de resgate.

Ilha Sable e seus mistérios

Considerando a imensa quantidade de naufrágios, não é de surpreender que a ilha conte com um vasto repertório de histórias de fantasmas. Perdida em meio a névoa, com centenas de navios enterrados nos bancos de areia, o cenário é mesmo ideal para aparições. De tempos em tempos, pode-se ver o casco do Skidby, um enorme navio que afundou lentamente a apenas alguns metros da costa. Na ilha, tumbas de pedra foram cavadas na areia. Uma delas é a do menino vítima do SS Virginia. Sua família tem mandado para Sable, geração após geração, ramalhetes e ramalhetes de flores.

Apenas nos primeiros anos do nosso século um telégrafo foi instalado, tirando Sable do total isolamento. E com as novas tecnologias de navegação, que permitem detectar e evitar bancos de areia, progressivamente a estação de resgate perdeu importância. Hoje, Sable é habitada por um único morador, que opera uma estação meteorológica, e pelos objetos do desejo de todos aqueles que querem visitar esse pequeno deserto no mar: os cavalos.

Ilha Sable e seus mistérios

Em meio às dunas podem-se ver silhuetas marrons de diferentes tons. Pequenos, eles parecem ainda menores quando você se aproxima e suas singularidades começam a ser vistas. Com um focinho alongado, crinas selvagens e brilhantes olhos escuros, ferozes e distantes, os cavalos são excepcionalmente robustos. Eles vivem em pequenos grupos compostos de um garanhão, algumas éguas e suas crias. Quando cavalos “solteiros” se aproximam, o garanhão é obrigado a defender suas “viúvas”, até o dia em que uma delas escolhe partir para formar um novo casal e um novo grupo, e assim sucessivamente. A liderança, porém, não é exercida pelo garanhão e sim pela mais velha das éguas, seguindo um modelo de sociedade matriarcal.

Ilha Sable e seus mistérios

Vivendo em circunstâncias extremas, com neve no chão por cerca de seis meses ao ano, os pequenos cavalos se alimentam exclusivamente das gramíneas da ilha, que encontram nas dunas ou sob a neve. No final do inverno a maioria dos cavalos fica extremamente magra. Mesmo assim, eles nunca aceitaram ser alimentados pelos homens. Vendo que os cavalos se debilitavam a cada inverno, nos anos 60 o governo canadense decidiu dar-lhes comida pensando em desenvolver a raça, mas eles “empinaram os narizes” para essa oferta. As autoridades pensaram então que os animais sofriam abandonados nessa ilha esquecida e decidiram colocar fim ao seu martírio eliminando-os. A decisão foi anunciada no noticiário e uma avalanche de cartas escritas pelas crianças da Nova Escócia e de outras províncias chegou ao primeiro-ministro, pedindo piedade.

Ilha Sable e seus mistérios

Graças às crianças eles foram poupados e, em junho de 1960, o primeiro-ministro, Diefenbaker, assinou uma lei protegendo os cavalos de qualquer intervenção humana. Preservados e protegidos, o equilíbrio dos cerca de 400 cavalos de Sable é estritamente natural. A maioria morre de fome quando seus dentes estão gastos pelo quartzo da areia e não conseguem mais comer, o que impede a superpopulação. Se isso acontece, no verão, por exemplo, quando a comida é farta, os mais frágeis acabam morrendo depois. Eles sucumbem à primeira dificuldade em enocntrar alimento, quando o rigoroso inverno começa. Seus corpos então fertilizam o solo, fazendo com que a gramínea que comem cresça rapidamente, continuando assim o ciclo.

Ilha Sable e seus mistérios

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Sable foi sendo paulatinamente desabitada e tornou-se um parque natural para os cavalos. Mas seu futuro, indissociável do futuro da ilha, ainda é incerto. As autoridades estudam abandonar totalmente o local, já que os custos para levar mantimentos até lá são astronômicos. Comida e outros objetos necessários para o operador da estação meteorológica são transportados por navios quebra-gelo e depois por helicópteros. A intenção é equipar a estação com computadores, para que a intervenção humana seja cada vez menos frequente.

Mas outro motivo, além dos custos, força o abandono da ilha. è que essa língua de areia esculpida pelas ondas e pelo vento está em constante movimento e vem mudando de formato e reduzindo-se cada vez mais. As fotografias aéreas mostram isso claramente; desde o século 16 Sable caminha levemente para o leste e diminui de tamanho. Encolhendo cada vez mais devido aos assaltos da correnteza, a ilha está fadada a desaparecer para sempre.

O que será dos cavalos? Eles provavelmente encontrarão um paraíso em outro lugar. Senão, sempre haverá espaço no Canadá para acomodá-los. Tendo isso em mente, um casal de pequenos cavalos da Ilha Sable foi levado ao zoológico de Halifax em 1995. Depois de tudo, até as lendas têm de terminar um dia.

Praias mal-assombradas

As histórias de fantasmas começaram há muito tempo na ilha. Diz a lenda que os soldados do marquês de La Roche ainda podem ser vistos e que o monge franciscano ronda a ilha, rezando eternamente seu rosário, penitenciando-se por não ter podido conter a rebelião. Outro fantasma famoso data de 1800. Numa noite, uma mulher vestida de branco apareceu para um dos sentinelas do farol. Mostrando-lhe a mão esquerda, na qual faltava um dedo, ela murmurou: “Eles me mataram pelo meu anel“.

A cena, no início tida como alucinação, chocou os habitantes que a sra. Coperland, mulher do médico a bordo do navio Francis, foi de fato morta na embarcação, depois de ser mutilada. Num período mais recente, o navio Sylvia Moxher, que afundou em 1926, tornou-se fantasma oficial dos sentinelas do farol. Vários deles viram as sombras do navio e os corpos dos seus tripulantes que caíam nas águas revoltas sem fazer barulho algum. Obviamente, pediam demissão do serviço.

Ilha Sable e seus mistérios

Ilha Sable e seus mistérios

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Ilha Sable e seus mistérios

Robert Jarvis Bouteillier e sua família se preparando para entrar no mar e resgatar náufragos

Ilha Sable e seus mistérios

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“Aprenda com o ontem, viva para o hoje, acredite no amanhã. O importante é não parar de questionar!”. – Albert Einstein

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2 Comentários

  1. benedita da penha

    27 de dezembro de 2016 às 17:24

    linda ilha para morar.quem gosta de solidao, e um prato cheio.

    • Magnus Mundi

      8 de janeiro de 2017 às 13:06

      É verdade Benedita, ótimo lugar para se isolar do mundo.

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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