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Ilhas Trobriand, as ilhas do amor do Oceano Pacífico

Ilhas Trobriand, as ilhas do amor do Oceano Pacífico

O período de preparo da terra para o plantio do inhame é motivo de certa ansiedade entre os homens das ilhas Trobriand, um longínquo arquipélago que faz parte da Papua Nova Guiné, na Oceania. O inhame é um alimento mais importantes na dieta dos nativos das ilhas. Mas, durante o período de limpeza dos campos para uma nova safra, que dura cerca de um mês, são as mulheres locais que têm uma boa razão para comemorar.

Ilhas Trobriand, as ilhas do amor

Dança do amor realizada após a colheita do inhame

Por causa da importância de seu trabalho nos campos, elas ganham o direito de fazer sexo com qualquer homem, independente até da vontade do parceiro escolhido – que acaba sendo vítima de uma espécie de assédio sexual consentido pela comunidade. Qualquer nativo que se arrisque a perambular sozinho pelas ilhas nessa época sabe bem os riscos que corre: as mulheres podem rasgar suas roupas, morder e partir para a humilhação caso ele não consiga satisfazê-las. E, ao voltar para casa, ele ainda será motivo de chacotas.

As mulheres, porém, só atacam homens de outro clãs, jamais um rapaz de sua aldeia. Parece absurdo, um costume desumano ou bizarro, mas não em Trobriand. Ali, a liberdade sexual total é mais que uma antiga tradição – é a dose exagerada de amor que sintetiza um modo de viver nessas fascinantes ilhas de corais do Pacífico Sul.

Ilhas Trobriand, as ilhas do amor

Dia onde quem vai escolher quem irá passar a noite

Os costumes sexuais do povo de Trobriand já escandalizaram muita gente. O mais famoso estrangeiro a admirar e estudar os hábitos dos nativos foi o antropólogo austro-húngaro Bronisław Malinowski, que viveu nas ilhas entre 1915 e 1918. Sua experiência rendeu o livro A Vida Sexual dos Selvagens do Noroeste da Melanésia, um tratado que, na época, chamou a atenção de toda a Europa para os costumes liberais dos trobriandeses. Desde então, essas ilhas longínquas passaram a ser conhecidas como as “ilhas do amor“.

Ilhas Trobriand, as ilhas do amor

Em um trecho do livro diz: “O homem se torna então um brinquedo das mulheres, que se entregam com ele a todo tipo de violências sexuais e crueldades obscenas, cobrindo-o de imundícies e maltratando-o de mil maneiras” e num outro mais polêmico ele continua: “Depois da primeira ejaculação, a vítima pode ser tratada da mesma maneira por outra mulher. Frequentemente ocorrem coisas ainda mais repugnantes. Algumas mulheres cobrem o corpo do homem com seus excrementos e sua urina, atacando de preferência o rosto, que mancham o quanto podem.” Atualmente muitos cientistas questionam o antropólogo, dizendo que ele exagerou em sua argumentação.

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Mulheres com inhames na mão celebrando a colheita

O título não deixa de ser mais do que justificado. Sexo é um assunto sem preconceitos em Trobriand. As crianças, por exemplo, convivem com seus pais sem que eles precisem disfarçar suas noites de amor. As meninas se enfeitam com flores de hibisco, passam óleo de coco no corpo e espalham sobre o peito o pólen das flores, cobrindo seu sexo apenas com uma tanga – um traje poderosamente afrodisíaco. Quando se tornam adolescentes, os meninos passam a morar em casas separadas dos pais, com outros colegas, também para poder receber garotas com liberdade. Para conseguir uma parceira, basta acenar para a moça que os agradou. Com um sinal dos lábios, ela aceita a proposta. Ou, então, recusa, balançando a cabeça. Tudo muito simples, sem tensões ou ressentimentos.

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Ao contrário de todos os padrões morais ocidentais, as moças são incentivadas pelos pais a se deitar com diferentes rapazes antes de escolher seus maridos. Quando o casamento enfim acontece (mas sem cerimônias ou festas), a moça se muda para a casa do rapaz. A família dela passa, então, a ajudar o casal, oferecendo uma cota de seus alimentos cultivados. Assim, quando uma mulher briga com o marido e volta para a casa da família – sem ser recriminada por ninguém -, é ele quem tem de reconquistá-la, se não quiser perder a colaboração da família da moça.

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E se mesmo depois de ser presenteada e adulada a mulher decidir que não quer voltar, pode, sem nenhum problema, arrumar outro marido. Um ritual bastante comum nas ilhas e descrito pelo antropólogo chamado ‘katuyiausi‘ é um arranjo cerimonial onde um grupo de jovens vão de uma aldeia a outra e se põem em fila para a inspeção e cada uma delas é escolhida por um rapaz, com o qual irá passar a noite.

Tudo porque os trobriandeses acreditam que fazer amor traz fertilidade às lavouras – e, para tornar essas crença literal, os campos transformaram-se em “motéis” por excelência. Com isso, o cultivo do inhame não é apenas uma maneira de obter alimento, mas um ritual carregado de significados. Os nativos também não relacionam sexo com gravidez. Místicos, eles acham que os bebês são concebidos na cabeça das mães, como um pensamento vindo de Tuma, a ilha do arquipélago para onde seguem também os espíritos dos mortos. E é esse pensamento que, depois, se materializa e cresce na barriga delas.

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Os métodos anticoncepcionais tradicionais são solenemente ignorados pelos habitantes de Trobriand – homens ou mulheres. Não adianta que algum estrangeiro lhes mostre cientificamente como os bebês se formam. Anos atrás, um carregamento de preservativos foi enviado a Ilha de Kiriwina, a maior do arquipélago, como parte de um programa de prevenção e contracepção. Resultado da iniciativa: as camisinhas rapidamente ganharam os céus da ilha, na forma de balões.

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Antropólogo Bronisław Malinowski entre os nativos de Trobriand em 1918

Contudo, e isso nem os cientistas conseguem explicar, mesmo com tantos contatos sexuais a taxa de natalidade nas ilhas se mantêm relativamente baixa. Nesse lugar regido por crenças e cerimônias mágicas, a integração entre as famílias de aldeias e ilhas distintas é feita num ritual conhecido como Kula, que consiste na troca de braceletes e colares, levados em longas viagens de canoa de uma ilha para a outra. Tais ornamentos, no entanto, raramente são usados.

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Os braceletes, feitos de conchas, são muito pequenos, e os colares só aparecem em grandes festividades, como demonstração do prestígio de determinado clã. As viagens empreendidas para realizar as trocas são grandes acontecimentos e os adornos, sem nenhum valor material, ganham importância de acordo com o numero de pessoas que os possui. Esse ciclo de trocas reforça as alianças familiares e, ao mesmo tempo, as viagens ajudam a difundir as novidades, criando uma espécie de irmandade entre os participantes do Kula.

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Celeiro que irá guardar o inhame durante o ano todo

Em alguns aspectos, as Ilhas Trobriand se parecem com o Brasil. Elas foram descobertas por um português (o explorador Jorge de Menezes, em 1526) e o clima e a vegetação são parecidos com os daqui (embora nas ilhas existam animais estranhos a nossa biologia, como cangurus, e a maior espécie de borboleta conhecida no mundo). Os trobriandeses também adoram jogar futebol. Cada aldeia tem um time com torcidas organizadas que, assim como aqui, são às vezes violentas. A diferença é que ali a briga faz parte do espetáculo – tem até regras!

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Mulheres aguardando para serem escolhida por um homem com quem vão passar a noite

A primeira delas é que o arranca-rabo não pode acontecer dentro da aldeia, só em um lugar distante das casas. Se alguém sangra, a briga acaba e o responsável pelo ferimento tem de se esconder por 24 horas. Nesse período, a família da pessoa machucada tem direito até de matá-lo se o encontrar. Mas a tensão só dura um dia. Depois, os chefes tratam logo de promover festas para apaziguar os ânimos.

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Calcula-se que os trobriandeses sejam descendentes de moradores do Sudeste Asiático que, segundo indícios arqueológicos, chegaram às ilhas há cerca de 40 mil anos. Depois do pioneiro navegador português, eles foram contatados pelos espanhóis, holandeses e ingleses. As ilhas também já pertenceram à Indonésia e foram parte do território da Austrália, antes da Papua Nova Guiné se tornar um país independente, em 1975. Mas, mesmo assimilando parte de tanta influência estrangeira, como as roupas, os nativos de Trobriand não perderam sua identidade.

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Antropólogo Bronisław Malinowski entre os nativos de Trobriand em 1918

Uma vez por semana, os jovens ainda vão à escola vestido seus trajes típicos – quase nus. E, ironicamente, se querem resgatar algum hábito perdido no tempo, eles recorrem aos tratados do antropólogo Malinowski (que já no início do século se preocupava com a influência europeia no arquipélago) para saber como funcionavam as coisas antigamente.

Mas a consulta ao antigo livro é uma exceção. Os trobriandeses, em geral, não se importam muito com o tempo. Eles nem ligam para horas ou minutos e muitos nem sabem sua própria idade. Os pais não lembram quando seus filhos nasceram e ninguém se preocupa em saber quando tempo ainda tem de vida. Ou mesmo, se esta envelhecendo. “Para que dividir o tempo em pedacinhos e ficar se afligindo ao ver os dias passarem, se isso é algo que você não pode evitar?“, perguntam, com inocência, os trobriandeses.

Ilhas Trobriand, as ilhas do amor

Faz sentido. Que diferença pode haver entre passado, presente e futuro se as ilhas onde vivem continuam belas e indiferentes a qualquer modernidade? Ali ainda não há carros, apenas alguns caminhões e jipes. A luz vem de um pequeno gerador. As casas, pequenas e abafadas, continuam servindo apenas para dormir. A única abertura delas é a porta, trancada durante a noite para proteger os moradores das bruxas e maus espíritos. As conversas, refeições e demais atividades acontecem na praça central das aldeias e nas ruas.

Ilhas Trobriand, as ilhas do amor

Trobriand, enfim, parece ser um mundo à parte, perdido no meio do mar azul da Oceania. Seus habitantes resistiram aos males do tempo e continuam pensando que as ilhas são o melhor lugar do mundo. Tanto que os estrangeiros são chamados de dimdim, palavra que designa “alguém de pouca importância”. Do título não escaparam nem os missionários que aportaram nas ilhas em 1894 para tentar converter os nativos – que, no entanto, jamais abriram mão de seus rituais e tradições, como o sexo livre e intenso. Depois de ouvirem todo o discurso dos religiosos sobre céu e inferno, os trobriandeses chegaram a uma conclusão bem simples: eles já viviam no paraíso.

Ilhas Trobriand, as ilhas do amor

Ilhas Trobriand

O poder que vem da terra

A sobrevivência dos trobriandeses seria mais difícil sem o inhame, um vegetal que se adaptou perfeitamente ao solo das ilhas e, por isso, sempre foi um dos itens mais importantes na dieta dos nativos. A safra anual desse tubérculo (um tipo de caule curto e grosso, como uma batata) dura todo o ano, se bem estocado, e garante a alimentação das aldeias. Assim, quando maiores os inhames que um trobriandês conseguir cultivar, maior será o seu prestígio na comunidade em que vive. A cada ano, os donos das melhores safras recebem o título de “bom jardineiro”, ou “bom cultivador”, uma verdadeira honra e um sinal de status. Durante a colheita, os trobriandeses são capazes de ficar horas discutindo a produção de determinada pessoa ou aldeia.

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Cultivado e colhido com muito cuidado, o inhame fica exposto em pequenas pilhas nos campos. É o momento em que a colheita é admirada por todos. Depois desse período, ela é levada para a cidade, novamente exposta na aldeia e guardada então no celeiro de cada família. Os celeiros são estruturas muito bem decoradas que ficam ao redor da praça central de cada aldeia. É nessa praça que, depois de todos os rituais, acontece uma grande festa, o Milamala, que inclui distribuição de comida, dança e, para variar, muito sexo. O Milamala, que pode durar dias ou até um mês inteiro, quase sempre termina numa grande orgia.

Ilhas Trobriand, as ilhas do amor

Dança do amor realizada após a coleta do inhame

Fonte: Revista Terra nº 5

“A felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada”. – Bob Dylan

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Me chamo Julio Cesar, e moro no litoral de Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, que tem como objetivo descrever lugares curiosos, estranhos ou inóspitos, bem como lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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