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Jantar Mantar, o observatório astronômico da antiga Índia

Jantar Mantar, o observatório astronômico da antiga Índia

O Jantar Mantar é um conjunto colossal de 19 instrumentos astronômicos arquitetônicos situado no coração de Jaipur, capital do Rajastão, a cerca de 200 quilômetros ao sul de Deli, na Índia, construídos pelo marajá Sawai Jai Singh II. Na época, eram os mais avançados instrumentos de observação existente no Oriente, com a competência de prever eclipses, rastrear a localização de estrelas e determinar a órbita exata da Terra em volta do Sol.

Jantar Mantar é o mais completo e melhor preservado local do grande observatório construído na tradição ptolemaica. Essa tradição se desenvolveu desde a antiguidade clássica até os tempos medievais e desde o período islâmico até a Pérsia e a China. Jantar Mantar foi grandemente influenciado por grandes observatórios anteriores da Ásia central, da Pérsia e da China.

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A menção mais antiga ao nome “Jantar Mantar” data de 1803. Os registros encontrados nos arquivos do reino de Jaipur, datados de 1735 e 1737-1738, referem-se aos monumentos com o nome Jantra, que na linguagem oral foi corrompido para jantar. A palavra jantra deriva de yantra (“instrumento” em sânscrito), enquanto que mantar deriva de mantrana, que significa consultar ou calcular, pelo que “Jantar Mantar” significa “instrumento de cálculo”.  Durante o reinado britânico na Índia, o nome foi mal traduzido e tornou-se Jantar Mantar em todos os documentos oficiais e este nome permaneceu desde então.

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Jai Singh construiu cinco observatórios em todo o norte da Índia entre 1724 e 1738. A decisão de construir múltiplos observatórios a grandes distâncias um do outro foi em parte uma busca pela precisão; a capacidade de comparar as leituras de diferentes coordenadas. Mas os observatórios também podem ter desempenhado um papel no fortalecimento da posição política de Jai Singh em regiões onde ele ganhou autoridade.

É também digno de nota que os locais escolhidos pelo marajá têm significado histórico, político ou religioso. Um dos observatórios foi construído para o guru de Jai Singh, Jagannath Pandit, para estabelecer as tabelas de nascimento e determinar as melhores alturas para acontecimentos importantes (guerras, casamentos, festas).

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Os locais escolhidos foram: Deli, antiga cidade e sede do Império Mogol. Jaipur, que foi fundada por Jai Singh em 1726 para se tornar a nova capital de seu reino. Ujjain antiga capital da província de Malwa e está localizado no meridiano principal estabelecido pelos antigos cânones hindus da astronomia. Varanasi que era um antigo centro de aprendizado e, supostamente, a cidade mais antiga e continuamente habitada do mundo. Mathura era a lendária cidade de Krishna. Muitas das medidas astronômicas foram influenciadas pela escola de astronomia islâmica, que era reconhecida como a mais avançada da época.

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O primeiro a ser construído foi o observatório de Deli em 1724 e o último a ser concluído foi o observatório de Jaipur, em 1738. Dos cinco observatórios, todos, exceto o observatório de Mathura, ainda existem e estão abertos ao público.

No início do século 18, o Império Mongol, responsável por algumas das criações mais sublimes da arquitetura na Índia, como o Taj Mahal, estava em declínio e estava lutando para manter sua hegemonia contra os apetites portugueses vorazes, holandeses, franceses e britânicos. Assim aparece o marajá Jai Singh, guerreiro e astrônomo, que, aliando-se aos mongóis, ganhou o controle do Rajastão.

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Com base em antigas regras hindus na arquitetura religiosa Shilpa Shastra – Jaipur foi construída em sete setores retangulares, representando as castas da sociedade. No centro deles, o lugar mais sagrado, está o Palácio da Cidade e ao lado dele, em vez do templo que estipulava o tratado, está localizado Jantar Mantar, sendo este de Jaipur o maior e melhor preservado de todos eles.

O observatório foi muito ativo durante a vida de Jai Singh, com cerca de 20 astrônomos permanentes. Após a sua morte em 1743, este marco importante no centro da cidade capital do Rajastão permaneceu em uso quase continuamente até por volta de 1800. Isto é evidente pelo fato de que os reparos foram realizados pelo menos duas vezes durante este período.

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No entanto, durante o século 19, o local deixou de funcionar permanentemente como um observatório, sendo reaberto de tempos em tempos entre períodos de baixa atividade ou completo abandono. Algumas restaurações importantes ocorreram no final do século 19, e principalmente em 1902, sob o domínio britânico. Isso começou uma nova vida para o observatório como um monumento do Rajastão. Outras campanhas de restauração ocorreram durante o século 20 e as mais recentes ocorreram em 2006-07.

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Os principais objetivos do programa científico de Jai Singh eram refinar as antigas tabelas islâmicas zīj, medir a hora exata em Jaipur continuamente e definir o calendário com precisão. Outro objetivo era aplicar a visão cosmológica que deriva da visão ptolemaica, baseada em fatos astronômicos, à predição astrológica – tanto social (por exemplo, previsão de monções e colheitas) quanto individual (por exemplo, almanaques de impressão).

Este foi um período importante para a adoção popular na antiga tradição hindu de dados astronômicos provenientes da civilização islâmica e persa. O entrecruzamento da ciência, religião-cosmologia e controle social teve uma grande importância na cultura do Rajastão desde o século XVIII, e continua até os dias atuais.

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Os três principais instrumentos do complexo de Jaipur são:

  • Samrat Yantra — ou “Supremo Instrumento” é basicamente um triângulo gigante e relógio de sol. Tem 33,5 metros de altura, 3 metros de espessura e 34,7 metros de comprimento na base, sendo o maior relógio de sol do mundo. A hipotenusa tem 39 m, é paralela ao eixo da Terra e aponta para o Polo Norte. Em cada um dos lados do triângulo há um quadrante com graduações indicando as horas, minutos e segundos. Quando o edifício foi construído já existiam relógios de sol, mas o Samrat Yantra transformou o relógio de sol num instrumento de precisão para medir a declinação e outras coordenadas relacionados dos objetos celestes.
  • Jayaprakash Yantra — consiste em hemisférios escavados com marcações nas suas superfícies côncavas e fios esticados desde o topo. Desde o seu interior, um observador podia alinhar uma estrela com as marcações.
  • Misra Yantra — foi projetado como instrumento para calcular os dias mais longos e mais curtos do ano. Também era usado para determinar o momento exato do meio-dia em várias cidades, independentemente da sua distância de Deli. É a única estrutura do observatório que não foi inventada por Jai Singh.

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Considerando a importância do observatório na vida do povo indiano, em 1948, Jantar Mantar foi reconhecido como um monumento nacional da Índia. Desde 2010, ele foi incluído na lista de Patrimônios Mundiais da UNESCO, reconhecendo-o como a personificação das habilidades astronômicas e visões cosmológicas da corte do monarca instruído no final do período Mongol.

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Atualmente, o observatório atrai um grande número de turistas de todo o mundo. Além disso, ainda é usado por astrônomos locais para compilar uma previsão do tempo, embora as previsões feitas por eles nem sempre se realizem. Os visitantes frequentes de Jantar Mantar são pessoas que buscam aprender os conceitos básicos da astrologia védica, uma vez que este observatório se refere a um pequeno número de estruturas védicas que sobreviveram ao nosso tempo.

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Sawai Jai Singh II

Jai Singh nasceu em 1688 no território do estado indiano moderno de Rajastão. Seu pai, o governante da cidade de Amber, a capital do principado Rajput de Kachwahas, estava sob o domínio do Império mongol em Deli. O jovem príncipe foi diligente em seus estudos e dominou idiomas como hindi, sânscrito, persa e árabe. Ele também recebeu conhecimentos em matemática, astronomia e artes marciais. Mas uma ciência especialmente se apoderou do coração do príncipe. Nos documentos da época, observou-se: “Desde os primeiros passos na busca do conhecimento e no período de crescimento, Jai Singh foi absorvido no estudo da ciência matemática (astronomia)“.

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Em 1700, após a morte de seu pai o marajá Bishan Singh, Jai Singh, de onze anos, subiu ao trono em Amber. Logo, o jovem príncipe foi convidado para a corte do imperador Mongol Aurangzeb, que lhe deu o título de Sawai, no sul da Índia, onde Jai Singh reuniu-se com Jagannath, um especialista no campo da matemática e da astronomia. Mais tarde, este homem tornou-se conselheiro judicial de Jai Singh.

A situação política do jovem marajá permaneceu insustentável até 1719, quando imperador Muhammad Shah chegou ao poder. Logo Jai Singh foi convocado para a capital, Deli, para um encontro com o novo governante dos Mongóis. Naquela reunião de novembro de 1720, Jai Singh provavelmente apresentou o plano ao imperador para a construção de um observatório, que provavelmente foi implementado em 1724.

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Observatórios astronômicos

O que levou Jai Singh a construir um observatório? O marajá compreendeu que calendários indianos e mapas astronômicos tinham grandes erros, e a astronomia como ciência praticamente não se desenvolveu. Portanto, ele decidiu fazer novos mapas que correspondessem à posição real dos corpos celestes visíveis. Ele também sonhava em criar ferramentas para observações astronômicas que estivessem disponíveis para qualquer um que gostasse de astronomia.

Jai Singh adquiriu muitos livros científicos da França, Inglaterra, Portugal e Alemanha. Na corte, cercou-se de cientistas de escolas de astronomia hindus, muçulmanas e europeias. Enviou também uma expedição a Europa, instruindo que deveriam coletar todas informações que pudessem conseguir sobre astronomia e a trazer livros e instrumentos científicos.

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Por que Jai Singh construiu estruturas de pedra, se na Europa já havia um telescópio, micrômetro e vernier (instrumento usado para medida de comprimento e ângulos)? E como foi que o marajá não estava familiarizado com as descobertas de Copérnico e Galileu e a noção do sistema heliocêntrico do mundo?

Parte da culpa por isso era a quase total ausência de comunicação entre o Oriente e o Ocidente. Mas este não foi o único obstáculo. Um papel significativo foi desempenhado também pela situação religiosa da época. Os estudiosos brâmanes recusaram-se a ir para a Europa, porque pela travessia do oceano eles poderiam perder a casta que pertenciam. Os europeus que ajudaram Jai Singh a coletar informações eram em sua maioria estudiosos jesuítas. Segundo o historiador Vishwa Nath Sharma, que escreveu uma biografia de Jai Singh, ambos os jesuítas e leigos, católicos foram proibidos de adotar as opiniões de Galileu e outros cientistas de que a Terra girava em torno do sol. A Igreja considerou todas essas teorias heresia e ateísmo e ameaçou a Inquisição. Não é de admirar por que os mensageiros de Jai Singh não incluíram as obras de Copérnico e Galileu em seu relatório, bem como uma descrição de novas ferramentas.

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Fontes: 1 2 3

“Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia.” – William Shakespeare

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