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Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

No território Naga, todos se lembram de como tudo começou. Durante meses, as tribos chang e konyak brigaram pela posse das montanhas Tobu, uma série de colinas no extremo noroeste da Índia. As discussões pareciam intermináveis, mas corriam sem violência – até o dia em que um chang teve a infeliz ideia de matar um konyak.

Dias depois, uma expedição punitiva formada por 600 guerreiros konyaks invadiu as aldeias chang ainda de madrugada. Na cabeça, exibiam os turbantes vermelhos que identificavam suas intenções bélicas. Nas mãos, brandiam os daos, uma mistura de facão com machadinha, arma tradicional de finalidade óbvia. Poucas horas depois, quando terminou o ataque relâmpago, voltaram para suas aldeias carregados de troféus de guerra: as cabeças cortadas de 28 inimigos.

Quando teria acontecido tal ataque? Não é fácil dizer com precisão. No território naga, o tempo ainda é medido em “jhuns“: cada “jhum” corresponde a um ciclo completo de derrubada-queimada-plantio, o período que cada tribo leva para voltar à mesma área cultivada, depois de usar todas as suas terras. Em “jhuns“, alguns anos a mais ou menos não fazem diferença.

Teria a carnificina acontecido em 1830, quando os primeiros europeus chegaram à região? Não. Ou teriam sido alguns “jhuns“, mais tarde, quando os assustados colonizadores ingleses decretaram aquelas montanhas inóspitas uma “área não administrada” de seu império? Também não. Teria sido, então, durante os anos turbulentos que se seguiram à independência da Índia, em 1947? Ou nos 70, quando o costume de cortar cabeças, embora proibido pelas leis indianas, ainda era praticado com certa com certa impunidade em montanhas remotas como aquela? De novo, não. A data correta é surpreendentemente próxima: 1991.

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Rara imagem de 1936 dos konyaks | Crédito da foto

Liberdade sexual

As tribos konyak e chang são duas das quinze tribos da raça naga que habitam que habitam o Estado indiano de Nagaland, ao longo da fronteira com Myanmar (ex-Birmânia). Com nomes exóticos (yimchungr, kalyokengyu, angami, sema) e a fama de cortadores de cabeças, viveram isolados até o século 20, quando começaram as tentativas de integrar e desenvolver a região.

Os konyaks, entretanto, ainda resistem aos apelos da modernidade. Em Longwa, uma grande aldeia onde cerca de 300 choças se espalham pelas encostas do Monte Patkai, o nascer e o pôr-do-sol é que ditam o ritmo da vida. Assim que alvorece, as mulheres descem quilômetros de trilhas rumo às plantações nos vales; ao entardecer retornam, as costas arqueadas sob o peso de cestos de lenha para o fogo. Os homens caçam, usando lanças ou, se forem ricos, rifles.

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Com a evangelização, a prática de enfeitar as paredes das casas com crânios humanos, foram substituídas por cabeças esculpidas na madeira | Crédito da foto

No centro da aldeia, uma longa palhoça de quase 40 metros se destaca das demais. Ali é o palácio de Ngowang – o cacique da tribo. Ao contrário dos outros nagas, que já adotaram formas mais democráticas de governo, os konyaks ainda vivem sob o domínio de chefes despóticos, com poder de vida e morte sobre seus súbitos.

Tocar a perna de um ang – é assim que eles chamam os chefes -, por exemplo, é um ato proibido, punido com a escravidão perpétua. Entre os privilégios dos angs está a escolha para o seu prazer, de qualquer mulher solteira da tribo. Se ele tiver posses, pode manter um harém do tamanho que desejar. Muitos têm dúzias de concubinas.

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Só os mais destemidos guerreiros tinham a honra de tatuar o peito | Crédito da foto

Ainda hoje, a maioria das aldeias konyaks se submete ao poder dos angs. Ngowang, por exemplo, reina sobre dezenas de milhares de súditos em onze vilas espalhadas pelos dois lados da fronteira entre Índia e Myanmar. Seu “trono”, do alto do qual preside as reuniões do conselho de anciãos e toma as decisões, é a carcaça do assento de um bombardeiro americano, abatido sobre as florestas birmanesas durante a Segunda Guerra Mundial.

Angon, esposa principal e portanto rainha da tribo, divide seu “palácio” com as quatro concubinas e os doze filhos de Ngowang. Adeptos, como todos os nagas, de uma liberdade sexual de fazer corar um escandinavo, os konyaks encontram em tudo um motivo para festas – e durante as festas, para o amor.

Nascimentos, casamentos, colheitas, tudo é motivo para transformar as aldeias em enormes salões de baile ao ar livre. De tangas e com seus cocares de palha e penas, embriagam-se de cerveja de arroz até cair. Quando conseguem se manter suficientemente sóbrios, os jovens casais solteiros invariavelmente trocam a festa coletiva por encontros mais íntimos sob os bambuzais. Como os métodos anticoncepcionais não fazem parte de suas tradições, o número de crianças é impressionante.

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Um ancião konyak empunhando um daos | Crédito da foto

Faça o amor mas, acima de tudo, faça a guerra. Combater sempre foi a grande paixão dos konyak. Quando ainda dominavam a Índia, os britânicos os consideravam “verdadeiros demônios”, e execravam sua “sede de sangue”, “agressividade” e “caráter vingativo”. Para os jovens, a guerra era um obrigatório rito de passagem para a idade adulta.

Participar de uma batalha, ou cortar fora a cabeça de um inimigo, transformava imediatamente os adolescentes em homens. Acreditava-se que, tomando a cabeça de um inimigo como troféu, você ganharia parte de seu poder e alma. Seu novo status, então, era estampado no rosto durante uma longa e dolorosa seção de tatuagem praticada pessoalmente pela rainha da tribo com o auxílio de primitivas agulhas de bambu.

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Era uma honra a poucos, usarem o chapéu feito com dentes de porcos selvagens, pelo de urso ou cabra e penas de calau | Crédito da foto

As tatuagens também são usadas para indicar status pela tribo. Por exemplo, as meninas usavam uma tatuagem na parte de trás do joelho se fossem casadas. Uma tatuagem no peito era um grande privilégio social entre eles e só podia ser usado pelos melhores e mais corajosos guerreiros, o que torna os poucos ainda vivos, difíceis de serem encontrados.

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Crédito da foto: National Geographic

Os chapéus de guerra tradicionais e específicos para os caçadores de cabeças eram feitos de chifres de porcos selvagens, penas de calau (uma ave com um bico proeminente, em forma de corno, geralmente muito colorido), pelo de urso ou de cabras. Eles também usavam uma cesta tradicional feita especialmente para transportar as cabeças dos inimigos.

Era decorada com crânios de macacos, chifres de porco selvagem e às vezes bicos de calau.Os bicos de tais aves era um emblema em Nagaland que representava lealdade, por causa dos hábitos das aves, onde a fêmea ficava na ninho e confiava no macho para lhe trazer comida. No passado, o direito de usar penas de calau tinha que ser conquistado e somente aqueles que se destacavam na guerra recebiam a honra de se enfeitar com as penas. O povo naga recentemente se conscientizaram dos danos causados a essa espécie de aves em vias de extinção e pararam de caça-los.

Infelizmente, o calau não foi a única vítima das tradições  e do modo de vida dos konyaks. O sistema de plantio das tribos nagas, é de estar sempre abrindo novas áreas na floresta, com a derrubada das árvores e queimadas. Essa atitude fez desaparecer da região os grandes animais selvagens, como ursos, panteras e tigres. Os animais menores, como porcos selvagens, macacos e pássaros, precisam se esconder ainda mais dentro das selvas, longe de qualquer contato humano.

Os caçadores tem que andar cada mais longe para conseguir caçar algum animal. Os konyaks usam os crânios de suas caças como decoração em suas casas, para espantar os espíritos malignos da floresta. A quantidade de crânios exibidos, dentro e fora da casa, revela o status social do proprietário. Quanto mais e maiores os crânios, maior é o status social.

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Os povos naga tinham o habito de desmatar e queimar a floresta para o cultivo | Crédito da foto

Cabeças cortadas

Hoje, apesar de a maioria dos nagas já ter abandonado as tangas e pendurado seus daos nas paredes das casas (que já são de tijolos), os konyaks ainda se apegam ferrenhamente ao passado. Um membro da tribo angami resume assim a opinião dos demais nagas sobre os konyaks: “Eles podem parecer tacanhos, mas são os mais espertos de todos nós. Sempre acabam conseguindo o que querem“.

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Chefe konyak | Crédito da foto

Para eles, resistir à modernidade é a única forma de manter sua integridade. E o maior símbolo dessa resistência cultural talvez sejam os crânios tirados dos inimigos. Ao longo dos anos, as autoridades inglesas e indianas confiscaram e destruíram as macabras coleções, que até então eram penduradas nas árvores na entrada das aldeias.

Mas muitas delas resistem, devidamente escondidas, para serem orgulhosamente exibidas aos visitantes. Os konyaks cortavam cabeças porque acreditavam que somente estes poderiam garantir a fertilidade de seus campos e pessoas. Essa crença ainda persiste, mas depois que foram evangelizados, os crânios foram substituídos por cabeças esculpidos em madeira, mas os rituais ainda são realizados.

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Crânios eram usados para espantar maus espíritos | Crédito da foto

Nesses momentos, os mais velhos revivem sua excitação ao lembrar daqueles tempos. Não há vergonha nem remorso quando falam da última grande façanha – aquela de 1991. Ao contrário, como bem mostra uma história que gostam de contar: o pastor católico da aldeia de Monyakshu, representante de uma das muitas tentativas de evangelizar os belicosos konyaks, reuniu os guerreiros, pouco antes deles partirem em sua expedição punitiva contra os changs; e terminou assim seu sermão: “Eu gostaria muito de ir junto, mas vocês compreendem que em minha posição isso seria pouco adequado, Que Deus os abençoe…“.

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Cesta cerimonial onde traziam as cabeças de seus inimigos | Crédito da foto

O ópio do povo

Nos anos 30, buscando uma forma de tornar menos agressivos os bárbaros konyaks, o governo britânico recorreu à mesma estratégia usada com sucesso contra os chineses no século 19: introduziu entre eles o consumo do ópio. Foi um erro. Muitos nativos realmente sucumbiram aos poderes da droga, mas nenhum deles perdeu, com isso, seu instinto guerreiro. Hoje, tantas décadas depois, o ópio continua minando as forças e as economias de muitos konyaks.

A pasta de droga, produzida na região e comercializada por traficantes birmaneses, é impregnada em tiras de algodão chamadas “khani“, que os usuários cortam em pequenas porções e fervem para liberar o ópio. O caldo resultante é então misturado com folhas de sapha, uma planta nativa, para ser fumado depois em cachimbos de bambu. Alguns viciados, como o próprio rei de Longwa, fumam até 40 cachimbos por dia.

Um grito de liberdade

Os nagas jamais aceitaram a incorporação de seu território à Índia. Os movimentos separatistas, anteriores ao domínio britânico, resistem até hoje. Ainda no século passado, impotentes para manter sua lei naquela região remota, os ingleses passaram a considerar Nagaland “território de exclusão” – ou seja, inadministrável.

Konyaks, os últimos caçadores de cabeças

Choça comunitária | Crédito da foto

Quando a Inglaterra devolveu a Índia aos indianos, em 1947, os nagas declararam mais uma vez sua própria independência – que até Gandhi admitiu: “Se vocês não querem fazer parte da União, ninguém os forçará a isso”, disse o líder indiano. Mas seus sucessores pensaram diferente e em dezembro de 1963 Nagaland se transformou oficialmente no 16° Estado da Índia. Em 1964, os separatistas nagas e o governo de Nova Delhi assinaram um cessar fogo. Mas os conflitos jamais cessaram. Em 1995, tropas federais mataram a tiros sete nagas, e feriram 16.

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Os konyaks faziam suas aldeias nos cume das montanhas para evitar ataques | Crédito da foto

Fonte: Revista Os Caminhos da Terra nº 8

Outras fontes: 1 2

“Suba a montanha não para fixar a sua bandeira, mas para abraçar o desafio, desfrutar do ar e usufruir da paisagem. Escale-a para que possa ver o mundo, não para que o mundo possa te ver”. – David McCullough Jr.

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Me chamo Julio Cesar, e moro no litoral de Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, que tem como objetivo descrever lugares curiosos, estranhos ou inóspitos, bem como lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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