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Lazaretos de Dubrovnik, as origens sombrias da quarentena

Lazaretos de Dubrovnik, as origens sombrias da quarentena

Do lado de fora das majestosas muralhas da cidade medieval de Dubrovnik, no sul da Croácia, fica um aglomerado de pequenas casas de pedra, os Lazaretos de Dubrovnik, mais conhecidos por ser uma atração turística popular, por suas galerias de artes e bares.

Lazaretos de Dubrovnik, as origens sombrias da quarentena

Vista aérea da praia de Banje na Croácia. Os edifícios murados à esquerda são os lazaretos, ou quarentenas. | Crédito da foto

Porém, à medida que o coronavírus se espalha pelo mundo, o lugar está sendo lembrado pelo seu propósito original, onde séculos atrás como uma zona de isolamento para as pessoas que chegassem a cidade portuária, e que poderiam estar portando doenças infecciosas.

Normalmente lotadas de turistas o ano todo, as ruas de Dubrovnik agora estão desertas e seu aeroporto, de outra forma movimentado, foi fechado. Em toda a Croácia, foram adotadas medidas restritivas para tentar limitar a influência do novo coronavírus.

Os esforços mundiais para deter as infecções por Covid-19 levaram os países a fechar as fronteiras e introduzir quarentena para pessoas provenientes de áreas afetadas e, posteriormente, isolamento para populações inteiras.

Vários casos do coronavírus foram registrados em Dubrovnik, conhecido como patrimônio da UNESCO e local de filmagem para a série “Game of Thrones“, da HBO.

A República de Ragusa, que agora é a cidade de Dubrovnik, na costa do Adriático, foi a primeira cidade da Europa a estabelecer um sistema de quarentena, em 1377, como proteção contra a hanseníase (Bacilo de Hansen), uma doença bacteriana que afeta os nervos, a pele e os órgãos respiratórios.

Inicialmente, os recém chegados eram obrigados a passar um mês em quarentena. Somente se fosse comprovado que a pessoa estava saudável, após o final do período de quarentena, era permitido a entrada na cidade.

As autoridades designaram três ilhas desabitadas – Mrkan, Bobara e Supetar – localizadas a pouca distância das muralhas de Dubrovnik, onde às pessoas em quarentena tiveram que passar seus dias. Inicialmente elas ficavam ao ar livre, mas como às condições climáticas eram quase tão mortais quanto às doenças, o governo decidiu construir algumas habitações de madeira (construídas nesse material para que pudesse ser queimadas, se necessário).

Isso era totalmente diferente do que era feito em Veneza na época, que proibiu absolutamente todos os navios em seus portos, ou das autoridades de Milão que ordenaram a construção de muros ao redor das casas dos infectados, e eles teriam que viver confinados a própria sorte. A doença era associada à impureza espiritual e os doentes era proscritos, expulsos da comunidade, destituídos de direitos civis e considerados socialmente mortos.

Com a alastramento de surtos mortais de peste negra e varíola, em 1397, o Grande Conselho adotou um novo decreto, pelo qual os procedimentos de quarentena foram organizados. Eles nomearam três agentes de saúde (kacamorti) para supervisionar a implementação e o cumprimento das disposições do isolamento.

Aqueles que violaram ou não cumpriram as leis, eram penalizados com sentenças de prisão. A propagação da epidemia foi descrita na época da peste, como semelhante a um incêndio, a doença é transferida de um doente ao outro assim como o fogo se espalha.

O decreto também introduziu o “bloqueio” – a proibição de entrada de mercadorias na República por toda a duração da epidemia. O bloqueio diminuiu o fluxo de pessoas e bens para a cidade, o que afetou negativamente o comércio, fonte de subsistência de toda a população. No entanto, as autoridades consideravam que era seu dever moral proteger às pessoas da epidemia.

Em meados do século 14, os quartéis de quarentena tornaram-se institutos complexos com guardas, barbeiros, médicos, enfermeiras, padres e coveiros. Para que não houvesse fugas, foram construídos altos muros.

Originalmente, o período de espera era fixado em trinta dias (um trentino). Mas tarde, foi estendido para 40 dias (um quarantena), dando assim origem ao termo quarentena. Alguns estudiosos sugerem que o período foi aumentado porque 30 dias se mostraram insuficientes para conter a propagação da doença.

Outros acreditam que o número 40 teve significado religioso. Quando Deus inundou a Terra, choveu por 40 dias e 40 noites. Depois que Jesus foi batizado, ele foi ao deserto e passou quarenta dias jejuando. Qualquer que seja o raciocínio, a quarentena de quarenta dias provou ser uma fórmula eficaz para lidar com os surtos de praga. Segundo estimativas atuais, a peste bubônica teve um período de 37 dias da infecção à morte.

Apesar das medidas, em 1526, Dubrovnik foi atingido pelo mais difícil surto de peste, que paralisou completamente a cidade por seis meses. O governo mudou-se para Gruz, porque Dubrovnik ficou infectado demais para se estar e viver.

Seis anos depois, começou a construção de um grande lazareto em Lokrum, uma ilha de 600 metros de Dubrovnik. Em 1590, outro lazareto foi construído em Ploče, a cerca de dois quilômetros de Dubrovnik, e concluído em 1642. Lazareto é uma palavra que deriva do antropônimo “Lázaro” – aquele que tinha o corpo coberto por chagas, segundo o Evangelho de São Lucas.

O lazareto de Lokrum consistia em dez edifícios de vários andares, separados por pátios e com seu próprio sistema de esgoto e quartel de guardas. Todos os bens que entravam na cidade eram arejados, fumigados e encharcados. Mas, por ignorância, nenhuma atenção foi dada às pulgas e ratos, o principal portador da doença.

Somente mercadorias novas e não usadas foram permitidas na cidade, enquanto mercadorias usadas, como roupas, foram direto para a quarentena no lazaretto junto com seus donos. Os ragusanos se orgulhavam de que, após a construção do lazaretto, os casos de peste caíram drasticamente. O lazaretto em Ploče, ainda existe e hoje é usado para recreação e entretenimento.

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