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Os navios enterrados sob as ruas de São Francisco

Os navios enterrados sob as ruas de São Francisco

Todos os dias, os passageiros do metrô subterrâneo em São Francisco nos Estados Unidos passam ao lado de cascos de navios antigos sem saberem disso. Da mesma forma, milhares de pedestres caminham sem saber que dezenas de veleiros antigos estão enterrados sob as ruas do distrito financeiro da cidade. Tais veleiros trouxeram centenas de milhares de pessoas a região com a descoberta de ouro em Sutter’s Mill, na Califórnia no final do século 19, depois eram encalhadas no cais e a medida que a cidade foi crescendo, sendo encobertos por inúmeros aterros.

Os navios enterrados sob as ruas de São Francisco

Os navios enterrados de Yerba Buena Cove , ilustração de Michael Warner (Parque Histórico Nacional Marítimo de São Francisco, Serviço de Parque Nacional )

Esses navios foram encalhados perto do que era até então uma pequena aldeia mexicana chamada Yerba Buena Cove. A Baía de São Francisco se estendia para o interior até onde atualmente se encontra a rua Montgomery Street e o edifício conhecido como Pirâmide Transamérica, sendo o prédio mais alto da cidade. Uma vez que a cidade começou a crescer, a enseada foi aterrada e o centro da cidade construido sobre ela, e muitos navios enterrados aonde se encontravam.

Quando as notícias da descoberta de ouro na Califórnia começaram a se espalhar em 1848, as pessoas estavam tão desesperadas para chegar a região que conseguiram qualquer navio que encontravam e que pudesse navegar. Muitos navios chegaram em tão mal estado que não havia como eles voltarem a fazer a viagem de volta com segurança. Estes foram deixados para apodrecer onde estavam. Outros melhores, os capitães não encontraram carga ou passageiros que justificasse uma viagem de volta – e, além disso, o próprio capitão e seus tripulantes estavam ansiosos também para tentar a sorte do garimpo de ouro. A histeria da febre do ouro era tão grande, que muitas vezes quando a embarcação chegava ao porto, os marinheiros simplesmente pulavam do navio, sem esperar a âncora ser lançada ou mesmo as velas serem levantadas.

Os navios enterrados sob as ruas de São Francisco

Ilustração do mapa de como era a baía de São Francisco antes de ser aterrada e a localização de alguns veleiros enterrados

No auge da corrida do ouro, havia entre 500 a mil navios ancorados no cais. Uma fotografia de 1852, mostra o que os historiadores descreveram como uma “floresta de mastros“, em Yerba Buena Cove. Esta imensidão de mastros era tanto um incômodo quanto uma oportunidade de negócio. Alguns navios foram remodelados e voltaram para o mar. Outros foram quebrados para ser usado como sucata e madeira – tanto lenha quanto material de construção para algumas das casas vitorianas da cidade.

Quando São Francisco cresceu, a terra começou a escassear e a cidade começou a vender lotes sobre a baía rasa. As pessoas construiam suas casas ou lojas em palafitas sobre a água. Outros encalhavam seus navios num local conveniente e intencionalmente os afundavam para reivindicar a posse da terra. Os lotes sobre a água eram dados de graça sob a condição de os proprietários preenchessem de terra. Desta forma, a cidade queria aproximar o litoral da parte mais profunda da baía, facilitando a entrega de mercadorias. A maneira mais fácil de reivindicar um lote, era afundando um navio.

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Ilustração de São Francisco. Data desconhecida – Foto: De Agostini / G. Dagli Orti, Getty Images

O exemplo mais conhecido é o navio Niantic, construído em 1832 e fazia comércio com a China, antes de ver convertido num baleeiro. Estava no Peru em janeiro de 1849, quando a imigração americana solicitou que transportasse um grande número de americanos do Panamá para São Francisco. Foi um dos primeiros navios a chegar com garimpeiros durante a corrida de ouro.

Ele foi encalhado intencionalmente em 1849 e usado como armazém e hotel no coração da movimentada beira-mar da cidade, e foi um marco proeminente na cidade em expansão por vários anos. Após o incêndio de 1851, foi reconstruído como Hotel Niantic e funcionou até 1872. Dezenas de navios de todo o mundo navegaram até Yerba Buena Cove todos os meses, carregando carga no valor de milhões de dólares, mas não havia lugares suficientes para armazená-lo. Os navios maiores e em melhor estado foram transformados em estruturas permanentes, para o depósito de toda essa carga. Cerca de 200 navios foram usados para os mais diversos fins, a maioria como armazéns, mas outros navios tornaram-se hotéis, escritórios, bares, boates, bancos, prisão, igrejas ou outras atividades.

Em 3 de maio de 1851, um grande incêndio destruiu a cidade. Muitos navios incendiaram-se e afundaram na baía. Quando o fogo foi finalmente apagado dias depois, o cais era uma bagunça de escombros e muito instável para se reconstruído. Muitos navios sobraram somente o casco até a linha d’água e foram preenchidos naturalmente com areia e muitos outros foram deslocados pela maré entre as ruas e casas. A baía então foi preenchida com terra de colinas próximas e os navios soterrados.

Os navios enterrados sob as ruas de São Francisco

Ilustração com os nomes de alguns navios enterrados na cidade de São Francisco

Os navios começaram a surgir sempre que era escavado a fundação de uma casa ou um túnel para a expansão do metrô. Na década de 1990, quando a cidade abriu um novo túnel ferroviário embaixo da área conhecida como Embarcadero, os trabalhadores encontraram os destroços do veleiro chamado Roma. A embarcação era tão grande que os operários tiveram que passar por ele. Estima-se que ainda haja entre 40 a 70 navios enterrados debaixo das ruas. Entre os navios enterrados, estão o Cadmus, que trouxe o general francês Lafayette a América para se reunir com os rebeldes e lutar pela independência contra a Grã-Bretanha e também o Plover, que navegou no Ártico em busca da expedição desaparecida de Sir John Franklin, que tentava mapear a Passagem do Noroeste.

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O Hotel Niantic em 1850

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São Francisco, em 1851, no auge da corrida do ouro na Califórnia

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Foto de 1851 com o porto ao fundo. Foto de Daguerrian Sterling C McIntyre.

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São Francisco, em 1851, no auge da corrida do ouro na Califórnia

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Ilustração que descreve os navios empilhados na enseada de Yerba Buena por Satty, de “Visions of Frisco”, editado por Walter Medeiros, Regent Press 2007

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Foto tirada por William Shew em 1852 da floresta de mastros

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Mapa da localização e os nomes de alguns navios enterrados

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Ilustração de como era São Francisco na década de 1840, antes da corrida do ouro na Califórnia

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Casco de um veleiro descoberto durante uma construção em 2013 no centro da cidade

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Destroço do veleiro Niantic descoberto em 1978, durante a demolição de um prédio

Fontes: 1 2 3

“Não importa quão curto nosso passo pode ser. Caminhar nesse mundo que diariamente nos puxa para trás, só deixa nossas pernas mais fortes”. – Eric Ventura

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