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Killifishes, Os peixes que vêm do céu

Killifishes, Os peixes que vêm do céu

“Tem uns peixes esquisitos por aqui”, disse o velho, morador de um casebre entre o sul da Bahia e o norte de Minas. “São os peixes das nuvens, que caem do céu junto com a chuva, enchendo essas poças d’água do roçado duro”, explicou. Caem das nuvens? “Juro que vi um punhado deles descendo entre as gotas”, garantiu o velho. O comentário feito anos atrás, vive sendo repetido pela gente do sertão toda vez que pesquisadores de peixes viajam pelo Nordeste. Ali, o folclore criou a lenda dos peixes caídos do céu para explicar como uns peixinhos coloridos aparecem do nada após as chuvas.

Chamados de “peixes das nuvens“, eles não despencam do céu, como os nordestinos creem, mas surgem do chão seco como brotos, numa rara forma de existência. A chuva que cai – sem peixe algum, é claro – faz eclodir dezenas de ovos de 2 milímetros enterrados no solo. É nesse curioso parto que tem início a vida aquática dos killifishes (do holandês peixe do canal) conhecidos cientificamente como Kryptolebias marmoratus ou Cyprinodontiformes. Depois de passarem de dois meses a cinco anos “incubados” pela terra, os filhotinhos só têm direito a ver a vida fora do ovo depois da chuva.

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Pátria da maioria dos killifishes do planeta, o Brasil possui muitos dos alagados onde eles vivem. Só das Cynolebias, killifish encontrados no Nordeste e apelidado de peixe das nuvens, o país tem oito de cada dez espécies existentes. Os especialistas dizem que sua variedade de cores só é comparável à dos peixes marinhos que vivem nos corais. Além de ser os mais coloridos, os killifishes são os peixes com maior variedade de formas e tamanho, entre as 25 000 espécies de água doce do mundo.

Pena que, tão belos, esses peixes de menos de 7 centímetros não vivem mais que seis meses. Como se soubessem de seus dias contados, crescem rápido e vivem para brotar milhares de ovos que darão continuidade à espécie. O acasalamento começa quando os machos, mais coloridos e bonitos que as fêmeas, grudam as laterais de seus corpos nos das parceiras e mergulham de cabeça no chão. Escondidos sob a terra por cerca de um minuto, eles fazem a fecundação: a fêmea deposita os ovos, o macho derrama o sêmen sobre eles e o casal volta para a água.

Filhos das nuvens

É quando o sol chega que começa o drama fatal enfrentando por papai e mamãe killifish. Impiedosa, a lei da natureza condena suas lagoas à secura total. Para dar à luz os filhos, os pais e todos os outros familiares que moram na mesma lagoa devem morrer da forma mais trágica para um ser aquático: de falta d’água.

Depois de ficarem enterrados sem água nem luz por pelo menos dois meses, os filhotes quebram os ovos quando a chuva enche de novo essas lagoas temporárias. Deixam o fundo da terra de costas, abrindo caminho na lama com a própria cauda, e começam a sobreviver nos alagados de águas paradas e insalubres, geralmente com menos de meio metro de profundidade. Sua necessidade de pouco oxigênio deixa os cientistas intrigados à anos, talvez por isso os killifishes sejam seres “anuais”, predestinados a viver pouco – três vezes menos que a maioria dos peixes ornamentais, que existe por cerca de dois anos.

Importantes na cadeia alimentar por se alimentarem de larvas de mosquitos, os killifishes servem de refeição para alguns pássaros. O homem, no entanto, tornou-se seu predador por puro desconhecimento. Ele não distingue os terrenos alagadiços onde vivem esses peixes e acaba erguendo construções nas áreas que abrigam seus ovos. Três espécies brasileiras já estão extintas, o que mostra bem que os peixes das nuvens não caem mesmo do céu.

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Em todo o mundo

Os killifishes aparecem na Terra há 200 milhões de anos, durante o período jurássico. Nasceram nas águas rasas do Mar de Thetys, oceano que cobria o espaço entre os vários continentes do planeta na época seguinte ao afastamento dessas grandes porções de terra. A existência de um gigantesco berço intercontinental explica porque até hoje 900 espécie de killifishes se espalham por quase todos os continentes, com cores bem distintas. As exceções são a Oceania e a região da Antártica.

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Fonte: Revista Terra, número 78

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