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Pedra de Ingá, o enigma da Paraíba

Pedra de Ingá, o enigma da Paraíba

O monólito conhecido como Pedra do Ingá, também chamada de Itacoatiaras do Ingá, próximo da cidade de Paraibano, no município de Ingá de 17 mil habitantes, na Paraíba é um dos maiores mistérios da humanidade, pois até então nenhum arqueólogo foi capaz de decifrar as inscrições rupestres entalhadas numa rocha. O sítio arqueológico fica a 109 quilômetros de João Pessoa e a 38 quilômetros de Campina Grande. O termo “itacoatiara” vem da língua tupi: Itá (pedra) e kúatiara (riscada ou pintada). De acordo com a tradição, quando os índios potiguares, que habitavam a região, foram indagados pelos colonizadores europeus sobre o que significava os sinais inscritos na rocha, usaram esse termo para se referir aos mesmos.

A formação rochosa em gnaísse, uma variedade de rocha comum e composta de granito e outros minerais de cores claras e escuras, cobre uma área de cerca de 250 metros quadrados, que se eleva sobre um lajeado do riacho Bacamarte. No seu conjunto principal, um paredão vertical de 46 metros de comprimento por 3,8 metros de altura, e nas áreas adjacentes, há inúmeras inscrições cujos significados ainda são desconhecidos. As inscrições feitas em baixo-relevo ocupam 15 metros de extensão por 2,3 metros de altura do paredão. Neste conjunto estão entalhadas figuras diversas, que sugerem a representação de animais, frutas, humanos e constelações como a de Órion.

Não se sabe como, por quem ou com que motivações foram feitas as inscrições nas pedras que compõem o conjunto rochoso. Têm sido apontadas diversas origens. Muitos defendem que a Pedra do Ingá tenha origem fenícia. O catedrático Padre Inácio Rolim, que viveu no século 19, foi um dos primeiros defensores desta tese, fazendo analogias entre os símbolos escritos na Pedra do Ingá e caracteres da escrita fenícia. A pesquisadora Fernanda Palmeira, no início do século 20, percorreu várias regiões do sertão do Nordeste, estudando supostos vestígios fenícios nessa região. Além de vários artigos, ela chegou a escrever o livro “História Antiga do Brasil“, no qual não só associou as inscrições rupestres de Ingá aos fenícios, como também, à escrita demótica egípcia.

Também há uma corrente que defende que os sinais do Ingá foram obra de engenharia extraterrestre. O ufologista Cláudio Quintans sugeriu que naves alienígenas teriam pousado na região da Pedra do Ingá. O ufólogo chegou a recolher amostras do solo onde, segundo ele, tais naves teriam pousado. Outro pesquisador, Gilvan de Brito, no livro Viagem ao Desconhecido, afirma existirem, no Ingá, fórmulas de produção de energia quântica e até combinações matemáticas que poderiam apontar a distância entre a Terra e a Lua.

Porém, até hoje, não foi possível afirmar de forma conclusiva quem foram os autores dos sinais e quais seriam as motivações de o monumento ter sido produzido. Arqueólogos, como Dennis Mota e Vanderley de Brito, acreditam que as inscrições tenham sido feitas por comunidades indígenas que habitavam a região, e que teriam usado cinzéis de pedra para esculpir os sinais na rocha, há cerca de 6.000 anos.

Já estiveram presentes no local arqueólogos da Universidade de Lyon (França), que, juntamente com professores e bolsistas da Universidade Federal de Pernambuco e do Departamento de Física da Universidade Federal da Paraíba, tiraram um molde negativo das inscrições, em 1996. Porém, uma datação em carbono 14, que poderia detectar a idade das inscrições, é inviável, pois o conjunto de rochas fica na várzea do rio Bacamarte, o qual, em tempos de enchentes, cobre todo o conjunto rupestre revolvendo a terra e friccionando as camadas superficiais das rochas.

Outro trabalho expressivo para decifrar as inscrições na pedra foi do italiano Gabriele D’Annunzio Baraldi (1938-2002), que possivelmente é o único pesquisador que chegou a uma conclusão robusta sobre a origem das inscrições. Com base em seu trabalho na Pedra de Ingá em 1988, ele publicou o livro The American Hitites, onde ele aponta semelhanças entre inscrições “rongo-rongo” da Ilha de Páscoa e também com a escrita de Karkemich, do povo hititas. Ele identificou 497 sinais inscritos na pedras e disse que a leitura das inscrições deveriam ser feitas da direita para a esquerda e de cima para baixo, além de que se tratam de língua hitita e que esses povos desaparecidos teriam vivido no Brasil.

Baraldi afirma que os povos Hititas floresceram em Anatólia na Turquia, por volta do ano de 2500 a.C., alcançando grande progresso na sua civilização. Disse ainda que a pedra do Ingá é uma prova contundente de que esses povos ou protohititas americanos viveram no Brasil e que as inscrições deste gigantesco monumento histórico são de sua autoria e teriam sido produzidos por volta de 1374 e 1322 a.C. As figuras encontram-se invertidas conforme a leitura feita por G. Baraldi e indicam que em qualquer posição que a queiramos ver mostra a presença de signos desconhecidos, não deixando dúvidas de que esta rica simbologia da “escrita” da pedra do Ingá é muito sofisticada e não pode tratar-se apenas de gravações esparsas feitas por mãos humanas inábeis e sem uma condução inteligente e planejada.

Há uma hipótese que fornece as inscrições do Ingá uma importância excepcional do ponto de vista arqueoastronômico. Em 1976, o engenheiro espanhol Francisco Pavía Alemany começou um estudo matemático do monumento arqueológico, cujos primeiros resultados foram publicados em 1986 pelo Instituto de Arqueologia Brasileira. Ele identificou, no Ingá, o registro arqueológico mais extraordinário conhecido da variação do orto solar durante o ano inteiro, materializou por uma série de pinturas rupestres gravadas na superfície vertical, que como um limbo graduado forma um “calendário solar”, no qual um relógio solar (gnomon) lançaria a sombra dos primeiros raios do sol de cada dia.

Pedra de Ingá, o enigma da Paraíba

Representação dos desenhos da pedra de Ingá

Como muitos outros monumentos ao redor do mundo, a Pedra de Ingá sofreu vandalismo. Muitas outras pedras na vizinhança foram destruídas na década de 1950 para pavimentar as ruas da capital do estado da Paraíba. As condições meteorológicas e as constantes inundações também contribuíram para a destruição das inscrições. O sítio arqueológico está numa área, outrora privada, que foi doada ao Governo Federal brasileiro e posteriormente tombada como Monumento Nacional pelo extinto Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (atual IPHAN), em novembro de 1944, foi o primeiro sítio arqueológico brasileiro a ser protegido. No local há um prédio de apoio aos visitantes e as instalações de um museu de História Natural, com vários fósseis e utensílios líticos encontrados na região onde hoje fica a cidade.

Pedra de Ingá, o enigma da Paraíba

A Pedra de Ingá nos quadrinhos de Maurício de Souza | Crédito da foto

Fontes: 1 2 3

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. – Fernando Teixeira de Andrade

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Me chamo Julio Cesar, e moro no litoral de Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, que tem como objetivo descrever lugares curiosos, estranhos ou inóspitos, bem como lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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