Antigas

Petra, a cidade dos túmulos

Petra, a cidade dos túmulos

Histórias de aventureiros que voltavam a Inglaterra inspiraram John William Burgon, eclesiástico da Igreja Católica a imortalizar a antiga cidade de Petra: “Encontrai-me outra tal maravilha em clima oriental preservada, Cidade vermelho-rosada, quase tão velha como o tempo“. Isso era pouco apropriado, uma vez que Petra não era rosa-avermelhada, mas talvez evocativo das cores do local era o comentário feito pelo cozinheiro italiano Giorgio, de um poema de Edward Lear: “Oh, senhor, chegamos a um mundo em que tudo é feito de chocolate, presunto, pó de caril e salmão“.

Petra está escavada na rocha rodeada por montanhas quase impenetrável no deserto da Jordânia, onde ainda hoje só se consegue chegar a pé ou a cavalo. A partir do Vale de Moisés, perto da aldeia de Elji, o caminho para Petra vai estreitando até se converter num siq, um escuro desfiladeiro com apenas um metro de largura. O siq estende-se por aproximadamente 1,5 quilômetros ao mesmo tempo que os penhascos se elevam tornando insignificantes as figuras de homens e dos cavalos. De ambos os lados, os blocos de pedra castanho-dourados são decorados com pequenos sulcos gravados por onde a água escorre. Sem prevenir ninguém, siq emerge da escuridão para a luz e o visitante encontra-se perante o primeiro e mais dramático sinal de Petra: o Al-Khazneh, o templo nabateu, incandescente, vermelho-escuro, escavado na rocha.

Petra, a cidade dos túmulos

As estátuas, os nichos, as colunas do Al-Khazneh (quer dizer tesouro), tão bem conservados, mostram inúmeras influências gregas, e não se sabe ao certo se a estrutura se trata de um templo, um túmulo ou mesmo um tesouro como o nome se refere. Provavelmente (e embora o seu nome provenha de uma lenda segundo a qual o tesouro do faraó estava guardado numa urna no topo de um monumento) reunia as três funções. Durante muitos anos, até esta prática ter caído  totalmente no esquecimento, os beduínos locais atiravam na urna na esperança de conseguirem o tesouro oculto da urna. O edifício devia ser utilizado como túmulo, uma vez que Petra estava cheio deles, desde o Túmulo Real, escavado num penhasco, até aos túmulos verticais, onde os criminosos eram encerrados vivos.

A medida que o visitante vai caminhando na direção do centro da cidade, as ruínas romanas vão aparecendo, especialmente o imenso teatro situado na vertente de uma colina, com 33 filas de lugares para mais de 300 espectadores. Os romanos também foram os criadores da Estrada das Colunas através do outrora tão agitado centro de Petra, no século 2: mercados ladeavam a estrada e a fonte pública, o Ntmphaeum, dedicado às ninfas da água e que oferecia aos transeuntes, sombra e água fresca durante o verão tórrido.

Petra, a cidade dos túmulos

A Estrada das Colunas conduzia a uma zona sagrada, a Temenos, originalmente protegidas por portas e no centro da qual se encontra o grande Templo Nabateu, o Qars el-Bint, o único que data provavelmente do século 1 a.C e que presentemente se encontra em ruínas. Sendo embora um santuário dedicado à deusa Dusares, o seu nome significa Castelo da Filha do Faraó – o que é um mistério ainda por desvendar. Um pouco mais para oeste fica o moderno museu, alojado num túmulo ou templo. Muito menos acessível é o Al-Deir ou Mosteiro, uma das mais impressionantes construções de Petra, situada nas encostas da montanha e igualmente encimada por uma urna. Ao longo da subida para o Al-Deir existem inúmeras grutas cheias de cruzes gravadas que recordam a curta era cristã de Petra mas cuja função continua por determinar.

Uma tribo de pastores extraordinariamente hábeis, chamados Nabateus, fez de Petra o centro de seu império há mais de 2000 anos. Originários do noroeste da Arábia, ampliaram o seu domínio para o norte, até Damasco, por um período de 600 anos a partir do século 5. Uma colônia de edomitas, ainda mais antiga – Edom, significa vermelho e é o nome bíblico desta zona do Oriente Médio – precedeu a dos Nabateus, mas foram estes os autores destas obras feitas nas rochas. Também desenvolveram seu estilo próprio de arquitetura, um tipo de cerâmica única e delicado, essencial para o sucesso e para a história de Petra, e um sofisticado sistema hidráulico.

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Estrategicamente situada no cruzamento de antigas rotas comerciais. Petra viu-se invadida por mercadores que traziam mercadorias do Mediterrâneo, do Egito, de Damasco e da Arábia. Tendo Petra por base invencível, os Nabateus controlavam as rotas das caravanas, enriqueciam e prosperavam. A rocha era de importância vital, por isso não é de surpreender que o símbolo do deus Dushara fossem blocos de pedra e obeliscos encontrados no siq e um pouco por toda a cidade. Mais tarde a cidade passaria a chamar-se Petra, que significa pedra.

Nos séculos que antecederam e que se seguiram ao nascimento de Cristo, os Nabateus estavam no auge do seu poderio e uma população de cerca de 20.000 habitantes viviam dentro da cidade de Petra. De tempos em tempos eram obrigados a defender-se dos ataques de seus vizinhos, particularmente dos romanos do norte, que em 63 a.C tinham planejado conquistar Petra pela violência. Conseguiram finalmente em 106 d.C, quando aparentemente, sem qualquer esforço, a cidade de Petra passou a fazer parte da província romana da Arábia.

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Haldrein, portão de Petra

Embora a dinastia dos Nabateus tenha chegado ao final, o povo coexistiu com os romanos por mais de um século e durante este tempo Petra continuou a prosperar. Os romanos construíram então o teatro e a Estrada das Colunas. Quando Petra passou a fazer parte do Império Cristão Bizantino, no século 4 d.C, o Túmulo URN, um dos maiores túmulos nabateus, foi convertido em igreja e a cidade em sede do bispado. Mas com a vinda dos muçulmanos no século 7, a história silenciou o destino de Petra, salvo por um breve lapso de tempo, durante a estada dos cruzados, que aqui construíram um pequeno castelo no topo de uma colina.

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Monastério Al-Deir

Em 1812, um jovem explorador suíço, Johann Ludwig Burckhardt, no seu caminho de Damasco para o Cairo, ouviu falar de uma antiga cidade erguida numa fortaleza na montanha e resolveu investigar. Como tinha aprendido a falar árabe, disfarçou-se de comerciante, um certo Urain ibn Abdallag, que havia prometido a Deus sacrificar uma cabra ao profeta Aarão no seu túmulo, no topo do Jebel Harun, colina elevada virada para a mesma cidade. Em Elji, Burckhardt convenceu dois beduínos a guiarem-no através do desfiladeiro até Al-Khazneh onde, coberto pelas vestes, conseguiu fazer um desenho da construção. Logo que escureceu e depois de uma breve excursão pela cidade, sacrificou a cabra na base do santuário de Aarão, antes de regressar a Elji com a sua missão cumprida.

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Templo construído no século 1 a.C, em dois níveis. O maior complexo em Petra

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Al-Khazneh, o templo nabateu

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Amphitheatre

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Caminho para Petra

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Em torno de 20.000 pessoas moravam em Petra em cavernas esculpidas nas rochas

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Amphitheatre, construído pelos romanos, após conquistarem Petra

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Crédito das fotos: 1 2

“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem)

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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