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Pitcairn, a ilha perdida dos amotinados

Pitcairn, a ilha perdida dos amotinados

São apenas 54 moradores de nove famílias que vivem atualmente, neste que é um dos mais remotos lugares da Terra: a ilha vulcânica de Pitcairn ou Ilhas Picárnia, que inclui as ilhas DucieOenoHenderson num pequeno arquipélago. Estão isolados, sem aeroporto ou porto, a 2.170 quilômetros ao sudeste do Taiti, na imensidão do Oceano Pacífico. Pescam, plantam banana, laranja, limão, pitanga e manga. Criam cabras e galinhas. Mantêm hortas bem-cuidadas e esperam. Esperam pelo próximo navio, que vem a cada três meses para trazer suprimentos e levar os produtos da ilha, que serão vendidos na Nova Zelândia.

Esses poucos habitantes da distante Ilha Pitcairn são descendentes dos amotinados do navio inglês Bounty, que em 1789 se rebelaram contra o autoritário capitão William Bligh. O motim do Bounty é um do mais impressionantes fatos que marcaram a história da navegação com várias versões no cinema, sendo a última feita em 1984 com Mel Gibson e Anthony Hopkins como atores principais.

Com 230 toneladas, a embarcação foi escolhida pela Marinha inglesa para coletar mudas de fruta-pão no Taiti e levar às Índias Ocidentais para cultivo como alimento aos escravos. Com uma tripulação de 45 homens, além do capitão William Bligh e do contramestre Fletcher Christian, em 23 de dezembro de 1787, H.M.S Bounty, deixou Spithead em Portsmouth seguindo pelo Canal da Mancha em direção ao Taiti.

Em 26 de outubro de 1788, após uma difícil viagem, Bounty finalmente chegou ao Taiti. Levaria mais cinco meses até que Bounty partisse das ilhas. Durante esse tempo, muitos da tripulação ficaram em terra e encantados com as mulheres taitianas, extremamente bonitas e sensuais. O resultado foi que, na hora de ir embora, todos queriam ficar, inclusive o contramestre Christian, que se apaixonou por uma nativa mais jovem, a Maimiti.

Pitcairn, a ilha perdida dos amotinados

Cais da ilha | Crédito da foto

Apesar da relutância da tripulação, em abril de 1789 o Bounty zarpava rumo à Jamaica, a segunda etapa da viagem. O motim explodiu três semanas depois, próximo à Ilha de Tonga. Liderados por Christian, os amotinados renderam o capitão Bligh e o colocaram num bote, acompanhado de dezoito marinheiros leais. Bligh, um excelente navegador que já havia trabalhado ao lado do capitão James Cook, navegou 5.800 quilômetros com o bote, até alcançar o Timor após 62 dias no mar. Ele retornou à Inglaterra e continuou na Marinha. Morreu em 1817, como vice-almirante.

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Um dos canhões do Bounty | Crédito da foto

Mas enquanto o capitão tentava sobreviver com seus seguidores, o contramestre Christian optou por não permanecer no Taiti. Com a intenção de encontrar um novo lar, o Bounty chegou a ilha de Tubuai no final de maio, onde permanecu por três meses e partindo devido as hostilidades dos nativos, voltando então, novamente ao Taiti. Apesar dos riscos, dezesseis homens resolveram ficar por lá e aconteceu o esperado: foram levados para a Inglaterra, onde acabaram na forca. Christian continuou sua busca por uma ilha desabitada, ao lado de Maimiti, oito marinheiros amotinados e seis polinésios (três dos quais eram clandestinos), doze mulheres polinésias e uma criança.

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Ilustração de capitão Whilliam Bligh e seus seguidores sendo deixados num bote pelos amotinados

Depois de fugir do Taiti, Bounty navegou para o oeste, vasculhando as ilhas Cooks, Tonga e as ilhas orientais de Fiji em busca de um lar. Esta seria uma jornada que levaria quase quatro meses. Sem encontrar uma ilha desabitada, Christian partiu para o leste em busca da Ilha Pitcairn. Chegando ao local onde a ilha supostamente estava, não havia nada além de água. Acreditando que alguém tinha marcado a longitude incorretamente, Christian ziguezagueou ao longo da linha de latitude e Pitcairn foi avistado na noite de 15 de janeiro de 1790.

Por causa de uma tempestade tropical tornou impossível fazer uma ancoragem segura na ilha. Depois de esperar de dois a três dias para que as condições meteorológicas melhorassem, Christian, três tripulantes e mais três taitianos conseguiram desembarcar nas rochas. A ilha era solitária, inacessível, desabitada, fértil e quente; excedendo todas as expectativas de Christian. Enquanto Bounty estava ancorado no que hoje é conhecido como Bounty Bay, gado, galinhas, cabras e porcos, além de madeira, pregos e utensílios culinários foram enviados para terra. Então, temendo que algum navio europeu visse o Bounty, eles atearam fogo na embarcação para sumir com todos os vestígios. Não havia mais escolha: agora, eles tinham que ficar.

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As Ilhas Pitcairn ou Ilhas Picárnia juntos com as ilhas Ducie, Oeno e Henderson, formam um pequeno arquipélago no meio do Oceano Pacífico | Crédito da foto

A ilha já havia sido habitada no passado. Muitas relíquias de uma civilização polinésia foram encontradas espalhadas pela ilha. Deuses de pedra, que guardavam locais sagrados, representações de animais e homens esculpidos em faces de penhascos, locais de sepultamento de esqueletos humanos, fornos de terra, enxós de pedra e outros artefatos de fabricação polinésia foram descobertos.

Os deuses da pedra foram deliberadamente destruídos quando empurrados do penhascos para o mar, e embora muitas enxós de pedra tenham sido removidos, alguns ainda estão sendo encontradas hoje. As imagens esculpidas nas faces do penhasco ainda podem ser vistas em locais como Down the Gods e Down Rope. A origem e destino subsequente dos polinésios permanece incerta, embora se acredite que eles chegaram de Mangareva, distante cerca de 490 quilômetros da Polinésia Francesa.

Tudo indicava que as 28 pessoas que Christian trouxera no Bounty começariam uma nova vida. No entanto, a tensão causada pelo isolamento prejudicou a coesão do grupo. A terra foi dividida apenas entre os amotinados, e os polinésios não receberam nenhuma. Além disso, os seis homens polinésios eram tratados como escravos e, como havia três homens a mais que mulheres, eram eles que tinham que dividir as esposas. Uma bebida alcoólica destilada da planta ti (Cordyline terminalis), feita pelo amotinado William McCoy também colaborou para que as coisas saíssem do controle e começasse a matança. Em 1799, nove anos depois da chegada, quase todos haviam morrido em brigas.

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Habitantes da ilha | Crédito da foto

Apenas dois amotinados, Edward Young e John Adams, resistiram e cabia a eles a missão de levar adiante a colônia, que então contava com dez mulheres e 23 crianças. Em 1800, com a morte de Young num ataque de asma, a tarefa estaria reservada a um só homem: Adams. Esse marinheiro, que seria responsável por manter a grande família de Pitcairn, havia embarcado no Bounty sob o pseudônimo de Alexander Smith. Confiante de que viveria tranquilo na ilha, adotou novamente seu verdadeiro nome. A capital de Pitcairn, Adamstown, é uma homenagem a ele.

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Sepultura de John Adams e outros familiares | Crédito da foto

Só em 1808, dezenove anos depois do motim, ele foi descoberto. Um navegador americano, Mayhew Folger, ao passar por acaso pela ilha com seu veleiro Topaz, resolveu parar para conhecer o local que julgava desabitado. Para tornar as coisas ainda mais incríveis para Folger, ele deu de cara com um habitante que, muito curioso, falava inglês! John Adams recebeu o navegador americano, que, no entanto divulgou rapidamente sua descoberta, assim que saiu da ilha.

Seu relato despertou pouco interesse em uma Inglaterra preocupada com as guerras napoleônicas, e portanto, não foram prendê-lo. Seis anos depois, duas fragatas inglesas  H.M.S. Briton e a Tagus aportaram na ilha, os espantados comandantes britânicos ficaram encantados com o físico, a simplicidade e a piedade dos ilhéus. Favoravelmente impressionados por Adams e pelo exemplo que ele estabeleceu, eles concordaram que seria “um ato de grande crueldade e desumanidade” prendê-lo, e assim começou a longa associação entre Pitcairn e a Marinha britânica que influenciaria seu desenvolvimento no próximo século.

Em 1838, a pequena Pitcairn passou a fazer parte do império britânico. Duas décadas depois, contava com 200 habitantes. A superpopulação levou o governo britânico a deslocar 194 moradores para outra ilha do Oceano Pacífico, a Ilha Norfolk. Dezoito meses depois, 17 habitantes retornaram a Pitcairn para repovoá-lo. Desde então, a população atingiu um pico de 223 pessoas, mas como a maioria das pessoas migraram para a Nova Zelândia, a ilha normalmente habita cerca de 50 habitantes. Atualmente, Pitcairn está sob a responsabilidade de um governador indicado pelo Alto Comissariado Britânico na Nova Zelândia, que exerce suas funções com a ajuda de um conselho eleito pelos próprios ilhéus.

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Cena do filme The Bounty de 1985

Durante a década de 1940, a ilha foi evacuada por temor dos japoneses e o local ficou deserto até o final dos anos 60 quando a ilha atraiu a atenção de religiosos interessados em reconstruir a colônia adventista que o pastor John Tay tentou implantar em 1886, com o objetivo de converter os nativos polinésios.

Em 2004, um grupo de jornalistas britânicos chegaram ao local com o objetivo de filmar um documentário sobre o motim do Bounty. Eles descobriram que o mal havia penetrado novamente na ilha resultando em algo tão chocante que mesmo os acontecimentos do passado empalideciam diante do exposto.

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Após a descoberta, sete homens que viviam na ilha foram presos e acusados de 96 crimes violentos incluindo abuso de menores, estupro e assassinatos ocorridos em um período de mais de 30 anos. As vítimas, quase todas mulheres e crianças, viviam em uma comunidade fechada na qual prevalecia uma cultura própria profundamente entranhada na sociedade, privilegiando abuso, a prática de incesto e depravação.

As mulheres eram trancadas em celas, amarradas ou trancafiadas durante a noite. Não podiam vestir roupas, recebiam surras frequentes com varas e eram degradadas e humilhadas diariamente. Os homens trocavam de esposas e mantinham uma espécie de harém composto de crianças (muitas vezes seus próprios filhos). Tinham uma espécie de religião, que retirava sua base de várias crenças pervertidas até se tornar algo abominável e daninho. Todos trabalhavam na agricultura, mas só os homens podiam pescar.

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O mais chocante é que tudo acontecia às claras sem que ninguém sequer tentasse esconder. Pitcairn era simplesmente longe demais para que alguém soubesse o que estava acontecendo ou se importasse. Pior ainda, aquelas pessoas não entendiam suas ações como criminosas. Para eles, aquela era, a única vida que conheciam. Os documentaristas ficaram aterrorizados e partiram levando as filmagens que comprovavam todo aquele horror.

As autoridades uma vez alertadas chegaram a ilha, libertaram os prisioneiros e prenderam os culpados. No julgamento que durou mais de um mês, todos foram sentenciados, inclusive o prefeito que havia negociado a vinda da equipe de produção. O Governo Britânico decidiu então estabelecer uma prisão em Pitcairn para onde internos foram enviados a partir de 2006.

Atualmente a população é composta de descendentes dos amotinados e seus acompanhantes taitianos. A maioria deles carrega o sobrenome Christian, em homenagem ao chefe dos amotinados que tomaram o Bounty e que teve mais de uma dúzia de filhos até ser assassinado.

Apesar de o inglês ser a língua oficial, os moradores da ilha desenvolveram um dialeto que mistura o idioma britânico com o taitiano, chamado pitcairnês. Uma herança do passado pitoresco desta ilha, que continua sendo contado com orgulho pelos seus poucos moradores, amparados pela âncora do Bounty e pela Bíblia pertencente a Flechter Christian – ambos expostos na praça de Adamstown. Em 1838, as ilhas foram o primeiro território do mundo onde o sufrágio feminino foi aprovado, com as mesmas características do sufrágio masculino.

Os códigos morais antes rígidos, que proibiam a dança, demonstrações públicas de afeto, fumo e consumo de álcool, foram relaxados. Os habitantes da ilha e os visitantes não precisam mais de uma licença de seis meses para comprar, importar e consumir álcool. Existe agora um café e bar licenciado na ilha, e a loja do governo vende álcool e cigarros.

Pitcairn, a ilha perdida dos amotinados

Ilustração do Bounty sendo recepcionado no Taiti

Pesca e natação são duas atividades recreativas populares. Uma festa de aniversário ou a chegada de um navio ou iate envolverá toda a comunidade Pitcairn em um jantar público na Praça, em Adamstown. As mesas são cobertas por uma variedade de alimentos, incluindo peixe, carne, frango, pilhi, arroz cozido, plun cozido (banana), fruta-pão, pratos de legumes, uma variedade de tortas, pão, baguetes, sobremesas, abacaxi e melancia. O trabalho público garante a manutenção contínua das inúmeras estradas e caminhos da ilha. A partir de 2011, a ilha tinha uma força de trabalho de mais de 35 homens e mulheres.

Pitcairn, a ilha perdida dos amotinados

As Ilhas Pitcairn agora têm comunicações modernas, incluindo telefones via satélite e tráfego de e-mail elevado. No entanto, os rádios de ondas curtas ainda são muito populares. Em Adamstown existe uma estação de rádio para se comunicar com as frotas de navios, e há antenas de satélite para permitir a recepção de canais de televisão da Austrália e Nova Zelândia, incluindo suas estações de rádio. Com fundos públicos, foi financiado um satélite de conexão à Internet, ao qual todos os domicílios podem acessar.

Pitcairn que um dia foi um refúgio para homens em fuga, um paraíso na Terra acabou se tornando um inferno com uma longa e sórdida história.

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Moedas próprias da ilha

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Selos postais

Site oficial do Governo de Pitcairn

Texto adaptado do artigo da Revista Terra nº 6

Outras fontes: 1 2 3

“É preciso que o discípulo da sabedoria tenha o coração grande e corajoso. O fardo é pesado e a viagem longa”. – Confúcio

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4 Comentários

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  2. Ludmila

    3 de julho de 2018 às 00:28

    Bom texto! Mas faltou falar dos crimes ocorridos nessa ilha onde mulheres e crianças foram estupradas durante décadas…a pedofilia lá era pratica comum ate o governo britânico intervi

    • Magnus Mundi

      3 de julho de 2018 às 12:01

      Tens razão Ludmila. Cheguei a ler sobre esses episódios, mas acabei não escrevendo sobre eles. Vou atualizar o artigo e colocar um parágrafo sobre isso.

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