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Salar de Uyuni, o grande deserto de sal

Salar de Uyuni, o grande deserto de sal

Os Andes formam a maior cordilheira do planeta. Suas montanhas se esparramam desde a Terra do Fogo, não muito longe do Círculo Polar Antártico, para alcançar o norte da Venezuela. Por esses 9.000 quilômetros estendem-se cenários diversos, como arquipélagos, planícies, lagos, glaciares, desertos e florestas tropicais. Nenhum elemento é mais inusitado, porém, do que os chamados salares da Bolívia – grandes superfícies de puro sal que se parecem com lagos congelados encravados acima do nível do mar. Como Uyuni, o maior e o mais alto salar da Terra, um mundo feito de sal, vento, frio e visões quase sobrenaturais.

Quem vê um salar pela primeira vez tem a impressão de estar diante de uma miragem. Para chegar a qualquer um deles é preciso aventurar-se durante muitas horas, às vezes dias inteiros, por estradas esburacadas e poeirentas, pavimentadas com areia escura proveniente de antigas erupções vulcânicas.

Depois de uma viagem por vales tórridos do interior boliviano, habitados por comunidades perdidas de índios quíchuas, a imagem que se tem ao avistar pela primeira vez um salar é a de estar à beira-mar: há montanhas que desenham enseadas graciosas, pequenas ilhotas formando arquipélagos e longas praias a perder de vista. Só que a água do mar não existe, evaporou-se. O que restou foi apenas seu sal, comprimido sobre o próprio peso até formar uma laje branca, lisa e dura que chega a ter dez metros de espessura.

O Salar de Uyuni (ou Salar de Tunupa), com área de 11.000 quilômetros quadrados (oito vezes a cidade de São Paulo), está situado a 3.656 metros acima do nível do mar, localizado nos departamentos de Potosi e Oruro, no sudeste da Bolívia. Na mesma região há quatro outros salares, que faziam parte do Lago Michin, um gigantesco lago pré-histórico. O de Coipasa, um pouco menor que o de Uyuni, também é famoso pelas lagoas de águas coloridas que ficam nos seus arredores.

Os estranhos lagos coloridos de Uyuni somam-se aos lagos de sal e aos vilarejos indígenas de suas margens – erguidos em blocos de pedra e pontilhados por igrejas barrocas caiadas de branco, como é o povoado de Peine – para formar uma paisagem surreal, capaz de provocar espanto.

O salar de Uyuni é também o único ponto natural brilhante que pode ser visto do espaço. Ele serviu de guia para os astronautas da Apollo 11, que chegaram à lua em 1969. Quando os astronautas viram a planície branca pela primeira vez, chegaram a pensar que fosse uma geleira. A área grande, o céu claro e o nivelamento excepcional da superfície fazem do salar um objeto ideal para calibrar os altímetros de satélites de observação da Terra.

Uyuni, a porta de entrada para o salar, é a imagem da desolação. A cidade está assentada sobre uma planície achatada e é fustigada impiedosamente pelo vento que carrega poeira e sal. As casas são de adobe (barro secado ao sol) ou de madeira, de cores tristes. A impressão de “fim do mundo” é acentuada por um fantasmagórico cemitério de locomotivas. Essa carcaças enferrujadas foram abandonadas quando a linha férrea que unia a cidade ao litoral foi desativada depois que a Bolívia perdeu uma guerra com o Chile, sua única saída para o mar, no final do século 19.

Os salares de Uyuni e Coipasa surgiram no mesmo período em que se levantaram as montanhas andinas, há cerca de 300 milhões de anos. Quando houve o dobramento das placas tectônicas, que elevaram picos a quase 7.000 metros de altitude, toda aquela região era tomada pelo mar. Naquele período, as placas se dobraram e trincaram faixas da costa oeste da América do Sul.

Parte da água salgada escorreu para o oceano, mas outra quantidade ficou represada nos vales entre as montanhas, criando imensos mares interiores. Como chove pouco, a água evaporou e deixou a capa de sal que formou os salares.

Salar de Uyuni, o grande deserto de sal

Vista de satélite, foto tirada em outubro de 2006 | Crédito da foto

A melhor maneira de conhecê-los é rodar de carro por sua superfície, o que pode levar horas a fio. Para não se perder em sua brancura sem fim, os aventureiros devem seguir os princípios da navegação marítima, norteando-se pelo perfil das montanhas ao longe, durante o dia, e pelas estrelas ou por uma bússola, à noite.

Quanto mais próximo do centro do salar, mais a realidade parece dissolver-se: a luz do sol transforma a placa de sal numa superfície espelhada, onde as montanhas se refletem em imagens tremulantes, como miragem do deserto. As únicas marcas sobre o sal são as rodas de automóveis e estranhos hexágonos de cerca de um metro que num primeiro olhar, parecem ladrilhos encaixados.

Essas imagens geométricas são resultado da evaporação da água das chuvas que, vez ou outra, caem diretamente sobre o salar. Nas noites de luar, o lugar provoca arrepios: o piso torna-se azulado enquanto o silêncio absoluto e as temperaturas congelantes compõem um cenário sobrenatural.

O salar serve como a principal via de transporte em todo o Altiplano boliviano e é um importante terreno fértil para várias espécies de flamingos cor de rosa. A região também uma zona de transição climatológica entre as imponentes nuvens tropicais congestus cumulus e cumulus bigorna que se formam na parte oriental na planície de sal durante o verão e não pode permear além de suas bordas ocidentais mais secas, perto da fronteira com o Chile e o deserto de Atacama.

Estima-se que o Salar de Uyuni contenha dez bilhões de toneladas de sal, das quais menos de 25 mil toneladas são extraídas anualmente. O deserto de sal é composto por aproximadamente onze camadas com espessuras que variam entre 2 e 10 metros, sendo a mais externa de dez metros. A profundidade total é estimada em 120 metros e é composta de uma mistura de salmoura e barro lacustre.

O deserto de sal é também uma das maiores reservas de lítio do mundo, além de conter importantes quantidades de potássio, boro e magnésio. Ele contém de 50 a 70% das reservas mundiais de lítio, recurso que está no processo de ser extraído. O deserto é composto por 33 “ilhas”, que são assim chamadas por constituírem-se em pequenas elevações de terra, cercadas de sal por todos os lados. As mais famosas são as Ilhas do Pescador e Incahuasi, com suas formações de recife e cactos.

Salar de Uyuni, o grande deserto de sal

Ilha Incahuasi, no Salar de Uyuni | Crédito da foto

Ilhas dos salares e os Incas

Um dos lugares mais impressionantes é a Ilha Pescador, 85 quilômetros adentro do lago de sal, a partir de Uyuni. Com pouco mais de um quilômetro quadrado, o arquipélago de origem vulcânica ainda preserva a cratera e as rochas circulares formadas pela lava, mas sua principal atração são os gigantescos cactos (Echinopsis atacamensis pasacana, Echinopsis tarijensis) – alguns com mais de dez metros de altura.

Nas ilhas, há vários arbustos também, que incluem o pilaya – que é usado pelos locais para curar catarro – e thola (Baccharis dracunculifolia), que é queimado como combustível. Também estão presentes plantas de quinoa e arbustos de queñua. No início de novembro, quando começa o verão, é lar de três espécies de flamingos cor-de-rosa sul-americanos: o Flamingo-chileno, o Flamingo-andino, e o raro Flamingo-de-james.

Salar de Uyuni, o grande deserto de sal

Vista a partir da Ilha Pescador, com o vulcão Tunupa aos fundos | Crédito da foto

Os flamingos aparecem no verão pois é quando se inicia o período de chuvas e também quando acontece o descongelamento das geleiras nos Andes que deixa o deserto de sal coberto de água, tornando-o um imenso lago com profundidade média de 30 centímetros. Cerca de oitenta outras espécies de aves estão presentes, incluindo a Fulica cornuta, o ganso andino e o Hillstar andino. A raposa andina, por aqui mais conhecida por culpeo, também está presente, e as “ilhas” hospedam colônias de viscachas, um tipo de coelho com rabo de ratazana.

Salar de Uyuni, o grande deserto de sal

Hotel de Sal Playa Blanca feito todo de sal | Crédito da foto

A Ilha Pescador permite uma visão privilegiada do salar e da mais alta montanha daquela região – monte, aliás, que era considerado sagrado pelos incas. Por isso, a peregrinação até a Ilha Pescador, cruzando o salar, era para os incas uma prova de fé. Muitos deles escolhiam morrer ali e eram mumificados em seguida dentro de enormes jarros de barro chamados chulpas.

Esse ponto isolado no universo de sal, apesar do tórrido calor durante o dia, frio congelante à noite, ventos fortíssimos e sem fontes de água, tem, ao mesmo tempo, uma beleza que fascina e atrai justamente por ser tão inóspito e se destacar como um dos tesouros existentes na espetacular Cordilheira dos Andes.

Lenda

Existe uma lenda aymara (que é como são denominados os indígenas dessa região dos Andes) que diz que as montanhas Tunupa, Kusku e Kusina, que são as montanhas situadas à beira do deserto, eram pessoas gigantes. Segundo a lenda, Tunupa se casou com Kusku, mas ele fugiu para ficar com Kusina. De luto, Tunupa começou a chorar enquanto dava de mamar para seu filho.

Suas lágrimas se juntaram ao leite e formaram o Salar. Por conta dessa lenda, a população local considera Tunupa uma importante divindade e argumentam que a região deveria se chamar Salar de Tunupa, em vez de Salar de Uyuni.

Turismo

Além da extração de sal, o Salar de Uyuni é também um importante destino turístico. No período de chuvas, o salar se assemelha a um enorme espelho que se confunde no horizonte com o céu. Assim os passeios ficam restritos a algumas áreas. Entretanto, entre abril e novembro todo o deserto de sal fica acessível, pois torna-se um imenso deserto seco com uma paisagem ainda mais exótica.

Além do deserto de sal, as ilhas e as lagoas coloridas onde se vê os flamingos, é possível num mesmo percurso conhecer lagoas de águas termais, sendo uma delas formada de piscinas e a outra natural. Também existem gêiseres que exalam vapor a uma temperatura de 38°C, a mesma temperatura da água.

Outros atrativos do Salar são o Hotel de Sal Playa Blanca, uma construção no meio do deserto, toda feita com blocos de sal, dos tijolos aos móveis, que encontra-se no meio do salar; a Praça das Bandeiras, que fica em frente ao hotel desativado e contém várias bandeiras, desde bandeiras de países, até bandeiras de clubes de futebol; e o “Monumento ao Rally Dakar”, construído de sal para representar a passagem do Rally Dakar pelo Salar de Uyuni.

Salar de Uyuni, o grande deserto de sal

Monumento ao Rally Dakar | Crédito da foto

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Cidade de Uyuni | Crédito da foto

Fontes: 1 2

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