Histórias

Scalae Gemoniae, as Escadas do Luto

Scalae Gemoniae, as Escadas do Luto

Não muito longe da Rocha Tarpeia, um desfiladeiro íngreme no cume sul do monte Capitolino, no centro de Roma, onde assassinos e traidores, se condenados pelos “quaestores parricidii”, eram atirados dali para a morte certa abaixo, no Império Romano, havia outro local de execuções infame na cidade.

Scalae Gemoniae, As escadas do Luto

Uma parte das Escadas Gemônias em Roma | Crédito da foto

Era um lance de escadas que ficava na parte central, ligando a cidadela de Roma (Arx), no monte Capitolino, ladeira abaixo até o Fórum Romano. Vista de lá, elas desciam pelo Tabulário e o Templo da Concórdia do lado esquerdo e através da Prisão Mamertina do lado direito. Acredita-se que a localização da escada coincida, grosso modo, com a atual Via di San Pietro in Carcere, que passa pela Prisão Mamertina.

Scalae Gemoniae, As escadas do Luto

Mapa do Fórum Romano com As Escadas do Luto destacado em laranja

As Escadas Gemônias (em latim: Scalae Gemoniae; em italiano: Scale Gemonie) eram apelidada de Escada do Luto o local ficou infame por sua relação com as execuções de penas de morte da cidade. Acredita-se também que as escadas foram construídas em algum momento antes da época de Tibério (14–37), pois elas não são mencionadas pelo nome em textos antigos anteriores. O primeiro uso como local de execução está associado principalmente com os excessos paranoicos do final do reinado de Tibério.

Os condenados eram geralmente estrangulados antes que seus corpos fossem amarrados e atirados escada abaixo. Ocasionalmente, corpos de executados em outros locais de Roma eram transferidos para lá para serem exibidos. Os cadáveres geralmente ficavam apodrecendo na escadaria por longos períodos, à vista de todos no Fórum, atacados por cães e outros animais carniceiros até serem finalmente atirados no Tibre.

Scalae Gemoniae, As escadas do Luto

Vitélio arrastado pelas ruas de Roma pela população” | pintura de Georges-Antoine Rochegrosse (1883)

A morte nos degraus era considerada extremamente desonrada e temível, mas, ainda assim, diversos senadores e até mesmo um imperador foram executados ali. Entre os mais famosos executados estão o prefeito da Guarda Pretoriana Lúcio Élio Sejano e o imperador Vitélio. O primeiro foi um antigo confidente do imperador Tibério implicado numa conspiração em 31 d.C. que, segundo Dião Cássio, foi estrangulado e jogado escada abaixo, depois do quê a multidão abusou de seu corpo por mais três dias. Logo depois, seus três filhos foram executados de modo similar no mesmo local.

Scalae Gemoniae, As escadas do Luto

As escadas gemonianas ficavam onde atualmente é esta rua. | Foto: Google Street View

Vitélio era um general romano que tornou-se o terceiro imperador no chamado Ano dos quatro imperadores (69 d.C.). Sucedeu a Otão depois que ele se suicidou, em 16 de abril, mas reinou por apenas oito meses. Quando seus exércitos foram derrotados por Vespasiano, ele concordou em se render, mas a Guarda Pretoriana não deixou que ele abandonasse a cidade. Quando as tropas de Vespasiano chegaram, ele foi arrastado de seu esconderijo, levado até as Escadas das Gemônias e executado. Suas últimas palavras foram: “Ainda assim, fui vosso imperador“. 

Ironicamente, quando o próprio Tibério foi assassinado – sufocado com um travesseiro durante o sono por Calígula e seus parceiros – as pessoas se reuniram em volta da escada e cantaram “Tibério para o Tibre” e pediram a exposição de seu cadáver na escada. As escadas freqüentemente se tornaram o local de manifestações e protestos públicos contra o estado. Quando o estadista romano Gnaeus Piso foi suspeito de assassinar o filho adotivo de Tibério, Germanicus, um comandante talentoso, a população enfurecida, incapaz de pôr as mãos em Piso, arrastou suas estátuas para as escadas e executou uma execução simbólica.

Scalae Gemoniae, As escadas do Luto

Via di San Pietro in Carcere, perto do Campidoglio | Crédito da foto

Após a execução do imperador Vitélio e a subsequente violação de seu corpo nas escadas, ouvimos pouco sobre as ‘Escadas do Luto‘. O imperador Domiciano, que subiu ao trono em 81 d.C., deu aos criminosos a oportunidade de escolher o modo de suas próprias mortes, e talvez até proibisse maus tratos aos corpos nas escadas. Mas quando Decebalo, que conseguiu impedir uma invasão romana no reinado de Domiciano, acabou sendo capturado em 106 d.C., o então Imperador Trajano decapitou Decebalo e sua cabeça foi jogada pelas escadas. Até então, esses espetáculos haviam se tornado mais uma curiosidade do que ocasiões de violência coletiva que acompanhou a morte de Sejano e Vitélio.

As escadas gemonianas não existem mais, mas sua localização coincide aproximadamente com a atual com a atual Via di San Pietro in Carcere, que passa pela Prisão Mamertina.

Mapa de Roma Antigo | Crédito da imagem

Fontes: 1 2 3

Postagens por esse mundo afora

Visualização: 58 vezes

Obrigado por avaliar. Divulgue nas redes sociais, o que achou! .
Ajude a melhorar nosso conteúdo! O que achou do artigo??
  • Ótimo
  • Bom
  • Indiferente
  • Poderia ser melhor
Ajude a melhorar o conteúdo do site. Deixe um comentário
Clique para adicionar um comentário

Faça um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Histórias

Curioso desde sempre, queria um lugar para guardar às curiosidades de lugares e histórias inusitadas que lia em livros ou pela internet e assim nasceu o site Magnus Mundi em 2015. Me chamo Julio Cesar, sou natural de Blumenau e morador de Porto Belo, litoral de Santa Catarina.

Veja mais em Histórias

Lazaretos de Dubrovnik, as origens sombrias da quarentena

Magnus Mundi28 de março de 2020

A grande corrida do ouro de Klondike

Magnus Mundi17 de fevereiro de 2020

Palais Idéal, o castelo dos sonhos de um carteiro

Magnus Mundi15 de fevereiro de 2020

Os esqueletos decorados das catacumbas romanas

Magnus Mundi11 de fevereiro de 2020

Os navios dos prazeres de Calígula no lago Nemi

Magnus Mundi19 de novembro de 2019

The Parcel Post Bank, o prédio que foi enviado pelo correio

Magnus Mundi3 de novembro de 2019

Acidente radiológico de Goiânia

Magnus Mundi3 de novembro de 2019

Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

Magnus Mundi26 de agosto de 2019

O mundo simples e solitário dos Amish

Magnus Mundi20 de agosto de 2019

Magnus Mundi é uma revista digital que tem seu conteúdo voltado para lugares, eventos, artes e histórias inusitadas pelo mundo afora

Copyright © 2015 · OceanSite · Desenvolvimento de website e aplicativos para mobiles

Scroll Up