Cidades

Uma cidade canadense chamada Amianto

Uma cidade canadense chamada Amianto

No coração do triângulo formado pelas três cidades canadenses de Quebec, Montreal e Sherbrooke, se localiza a cidade de Asbesto ou amianto, um dos piores nomes que uma cidade pode ter. Em certos países que baniram a exploração e comercialização do amianto, a palavra é considerada maldita, a ponto de empresas da cidade canadense com a palavra “Asbesto” estampado em seus veículos serem negada a entrada nos Estados Unidos. O mesmo acontece com produtos oriundos da cidade canadense, vendidos em supermercados estadunidenses, que os clientes recusam só em ver de onde é originário.

O asbesto (que significa em grego, “indestrutível, “imortal”, “inextinguível”) ou amianto, é uma designação comercial genérica para as mais de trinta variedade fibrosa de minerais metamórficos de ocorrência natural. Somente seis são utilizados comercialmente e o amianto já foi utilizados na fabricação de mais de 3.000 produtos. Trata-se de um material com grande flexibilidade e resistência química, térmica, elétrica e à tração muito elevadas e que além disso pode ser tecido.

Uma cidade canadense chamada Amianto

Mina de Jeffrey em Asbestos, Quebec, Canadá | Crédito da foto

O amianto tem sido minerado em todo o mundo desde os tempos antigos. O mineral tem várias propriedades desejáveis, como a capacidade de absorver o som e resistir ao calor, fogo e eletricidade. É duro e barato. A produção de amianto em larga escala começou em meados do século 19 e o uso do material continuou a crescer durante a maior parte do século 20 até que evidências crescentes da letalidade do amianto e sua associação com uma forma particularmente dolorosa de câncer de pulmão forçaram a maioria dos países a proibir o produto. Hoje, a palavra “asbesto” é sinônimo de veneno e morte, mas para as 7.000 pessoas no sul de Quebec, é o nome de seu lar.

O amianto foi descoberto pela primeira vez em Quebec na década de 1870. A primeira mineração em escala industrial começou nas atuais colinas de Thetford, e a cidade tornou-se um centro para uma das maiores regiões produtoras de amianto do mundo. Alguns anos depois, a mina de Jeffrey abriu a menos de 80 quilômetros ao sul das colinas de Thetford.

A cidade que se desenvolveu ao redor da mina de Jeffrey nomeou-se depois da “fibra milagrosa”, como se referiam ao mineral na época, por suas propriedades raras e valiosas. Logo a Jeffrey tornou-se a maior mina de amianto do mundo, fornecendo metade do suprimento mundial de amianto. Com o início do século 19, um número crescente de minas de amianto foi aberto em Quebec, Terra Nova, Colúmbia Britânica e Yukon, ajudando o Canadá a se tornar o maior exportador mundial de amianto nos anos 70.

Enquanto a indústria do amianto crescia, os trabalhadores começaram a ficar misteriosamente doentes, tossindo sangue, sofrendo de dificuldades respiratórias e morrendo. Residente em Asbesto e antiga chefe da Sociedade Histórica de Asbesto, Pierrette Théroux de 77 anos, lembra de quando era menina, e acordava e via o telhado, cerca e jardim de sua casa coberto com pó de amianto como se fosse neve. Era tanto, que andar na varanda deixava pegadas no pó acumulado no assoalho.

Uma cidade canadense chamada Amianto

O amianto in natura

O asbesto pode ocasionar a doença asbestose (nome técnico), popularmente chamada de “pulmão de pedra”. Segundo pesquisas, tudo começa com uma reação inflamatória provocada pela exposição prolongada às fibras. Por serem muito finas, elas entram no trato respiratório por inalação. A inflamação é contínua e vai piorando com o tempo, ou seja, é uma doença progressiva, e depois de um determinado período (cerca de dez anos) surge a asbestose: perda da capacidade respiratória.

Além de prejudicar os pulmões, as fibras microscópicas presentes no organismo podem ocasionar o câncer através da formação de espécies reativas de oxigênio. Estas espécies causam danos ao DNA, e a partir daí ocorrem as mutações celulares que dão origem às células cancerígenas.

Uma cidade canadense chamada Amianto

Montanhas dos quase 300 milhões de toneladas do resíduos da mineração do amianto crisotila abandonados pelas minas perto da cidade de Thetford Mines |  Crédito da foto

O amianto foi incluído no grupo principal de substâncias cancerígenas pela Organização Mundial da Saúde. Segundo a organização, 125 milhões de pessoas estão expostas à substância em todo o mundo, e pelo menos 107 mil morrem anualmente de doenças associadas a ela. Por esse motivo, o amianto já foi banido em mais de 60 países.

A primeira ligação entre a doença e o mineral mortal foi feita no início de 1900, quando um médico-legista do Charing Cross Hospital de Londres conduziu uma investigação post mortem de um jovem que havia morrido de fibrose pulmonar após ter trabalhado por 14 anos em uma fábrica têxtil de amianto. Vestígios de amianto foram encontrados nos pulmões da vítima.

Vinte anos depois, após outra morte confirmada pelo amianto, um patologista britânico William Edmund Cooke testemunhou perante um tribunal e forçou o governo a agir. Os primeiros Regulamentos da Indústria do Amianto entraram em vigor em 1932, e uma sequência de regulamentações foi seguida. Mas levou outro meio século antes que o uso do amianto fosse eliminado. A mina de amianto do Jeffrey continuou a produção até o final de 2011.

Hoje, há um grande buraco em Asbesto, com mais de dois quilômetros de diâmetro, e quase tão grande quanto a cidade ao redor. Com o maior empregador de Asbesto fechando as portas, a cidade está buscando uma nova identidade e novos meios para sustentar sua população. Alguns debateram se deveriam mudar o nome da cidade, mas os moradores votaram contra. A medida que o amianto desaparece do horizonte do Canadá, eles ficam imaginando se o nome de sua cidade merece morrer com ele.

Uma cidade canadense chamada Amianto

Antiga central de processamento da Mina Jeffrey | Crédito da foto

A herança mineira da cidade agora se pode encontrar em alguns produtos, como nos nomes das cervejas produzidas pela Moulin 7, uma microcervejaria de Asbesto – “L’Or Blanc” (que significa Ouro Branco, uma referências as fibras do amianto), “1949“, ano que ocorreu uma greve histórica de seis meses dos mineiros, “Spello” (um termo de mineração para uma pequena pausa), “100 tonnes“, uma homenagem aos enormes caminhões que transportavam o amianto das minas para a usina de processamento e “Mineur” (Mineiro), cerveja essa que conquistou uma medalha de ouro em 2016, na World Beer Awards, concurso cervejeiro de âmbito internacional com base na Inglaterra.

Outra cerveja (pale ale) chamada La Ciel Ouvert ( O Céu Aberto) é preparada usando água retirada de um lago que se acumulou no fundo da mina de amianto, agora abandonada. A água foi testada e considerada pura.

Desde o fechamento da mina, outras empresas se estabeleceram na antiga cidade mineradora. Uma empresa de produtos alimentícios gourmet abriu um centro de processamento de carne de pato fornecendo empregos para mais de cem trabalhadores. Uma estação de esqui a alguns minutos ao norte da cidade absorvia mais algumas centenas de funcionários. A cidade está lentamente voltando à ativa, apesar de seu nome não trazer boas recordações em outros lugares.

Uma cidade canadense chamada Amianto

Máquina carregando uma locomotiva com minério amianto na Mina de Jaffrey em Asbesto, Quebec em junho de 1944

Até a proibição do uso de amianto no país em 2017, Brasil era o terceiro maior produtor e o segundo maior exportador mundial de amianto, notadamente da a variedade crisotila. A maioria da produção brasileira era comercializada internamente e destinava-se principalmente à fabricação de telhas onduladas, chapas de revestimento, tubos e caixas d’água. Na indústria automobilística, o amianto é usado em produtos de fricção (freios, embreagens). Em menor quantidade, é possível encontrar amianto em produtos têxteis, filtros, papel, papelão e isolantes térmicos.

Site oficial da cidade: www.ville.asbestos.qc.ca

Fontes: 1 2 3

“Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de pousar onde o coração quiser”. – Cecília Meirelles

Postagens por esse mundo afora

Visualização: 284 vezes

Obrigado por avaliar. Divulgue nas redes sociais, o que achou! .
Ajude a melhorar nosso conteúdo, informando o que sentiu ao ler este artigo?
  • Fascinado
  • Contente
  • Entediado
  • Indiferente
  • Decepcionado
Ver Comentários (1)

1 Comentário

  1. Pingback: Uma cidade canadense chamada de Amianto – foi Digitado

Faça um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Cidades

Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

Veja mais em Cidades

Corippo, a aldeia que se transformará em hotel

Magnus Mundi3 de outubro de 2018

Carmel, a cidade de contos de fadas

Magnus Mundi9 de setembro de 2018

Hallsands, a vila que desapareceu no mar

Magnus Mundi9 de julho de 2018

Eredo de Sungbo, o maior monumento da África que nunca se ouviu falar

Magnus Mundi5 de junho de 2018

The Wall, a estrutura contra o vento de Fermont

Magnus Mundi19 de março de 2018

O cemitério no porão da igreja de New Haven Green

Magnus Mundi16 de fevereiro de 2018

Tianducheng: A falsa Paris na China

Magnus Mundi10 de fevereiro de 2018

Heródio, a fortaleza do rei Herodes

Magnus Mundi11 de novembro de 2017

Os curtumes de couro de Fez no Marrocos

Magnus Mundi6 de novembro de 2017
Scroll Up