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Walk of Shame, a infame caminhada da vergonha

Walk of Shame, a infame caminhada da vergonha

Na Idade Média, ser amante de um rei inglês tinha certos benefícios, bem mais vantajosos que o próprio amor real poderia proporcionar: joias, imóveis, presentes caros, e posições na corte para parentes e amigos, eram algumas das regalias que a amante recebia. Ela também tinha uma certa influência sobre o rei, a ponto de intervir em assuntos do Estado. As amantes reais têm sido comumente referidas na história como o “poder por trás do trono“. Mas quando o rei em questão morria, a situação da amante poderiam se complicar bastante. Muitas vezes o sucessor do rei e a família legítima eram hostis a concubina. Sem a proteção do rei, sorrisos se transformavam em caras fechadas por onde passasse.

Walk of shame, a infame caminhada da vergonha

A Caminhada da Vergonha de Jane Shore do artista William Blake (1757-1827)

Um exemplo é Alice Perrers (1348–1400), a amante de Eduardo III, descrita como uma “mulher devassa” por um escritor contemporâneo. Graças a seu caso com o rei muito mais velho, Alice se tornou a mulher mais rica da Inglaterra. Há uma lenda, talvez caluniosa, de que quando Eduardo III estava morrendo em 1377, Alice foi flagrada tirando os anéis dos dedos do rei. O que a história confirma é que ela foi banida do reino depois da morte de Eduardo e todas as suas terras confiscadas.

Três séculos depois, quando Charles II estava morrendo, o destino de uma de suas amantes reais estava lhe preocupando. Ele mandou chamar seu irmão, Jaime II que iria ser coroado rei posteriormente, e implorou que não deixasse a pobre Nellie, sua amante passar fome. Durante anos, Carlos II, o “Monarca Feliz“, foi amante da bonita e espirituosa Nell Gwynne. Jaime II pode não ter sido o rei favorito da Inglaterra, mas pagou as dívidas e a hipoteca de Nell, dando-lhe uma pensão antes de morrer de sífilis em 1687, três anos depois da morte de Carlos II.

Walk of shame, a infame caminhada da vergonha

Quadro de Jane Shore do artista italiano Francesco Bartolozzi (1728-1815)

Mas a amante real que teve a pior experiência de todos, uma vez que perdeu a proteção do rei, foi Elizabeth Jane Shore, a amante do rei Eduardo IV. Na verdade, Jane Shore suportou uma provação tão infame que inspirou nada menos que o escritor americano George R.R. Martin, na série de livros de fantasia épica As Crônicas de Gelo e Fogo, e que virou uma série de TV com o nome Game of Throne, onde num episódio reproduz a “Calçada da Vergonha” com a atriz Lena Headey interpretando Cersei Lannister.

Mais tarde, George disse à revista Entertainment Weekly que ele se baseou no capítulo da penitência de Cersei em Jane Shore, que foi punida com uma caminhada semelhante depois que o rei que ela amava morreu. “Foi um castigo direcionado às mulheres para quebrar seu orgulho“, disse o escritor à Entertainment Weekly. “E Cersei é definida por seu orgulho.” George às vezes utiliza de fatos importantes da história medieval como fonte de inspiração em seus livros.

Em um dos episódios mais inesquecíveis da série da HBO, Cersei Lannister, que havia sido presa pelo grupo religioso The Sparrows, é libertada, mas antes que ela possa retomar sua vida no palácio, ela é despida e obrigada a caminhar nua por entre o povo, que gritavam obscenidades, cuspiam e lhe atiravam coisas. Atrás dela vinha um membro do grupo que badalava um sino e gritava a palavra “vergonha”, repetidamente, como um mantra.

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A penitência de Jane Shore de Robert Scott Lauder (1803-1869)

Jane Shore teve que passar vergonha em 1483, sendo atingida por humilhações de tudo quanto é tipo, após uma vida prematura que parecia ter sido cheia de regalias. Jane Shore não tinha o histórico de uma cortesã comum, e naquela época, ela nem tinha essa nome. Foi atribuída a ela mais de cinquenta anos após a sua morte por uma dramaturgo. Seu nome verdadeiro era Elizabeth Lambert, e era filha de um comerciante sediado em Londres. Casou-se no final da adolescência com William Shore, um próspero banqueiro e ourives. Seu nome apareceu pela primeira vez em registros históricos em meados da década de 1470, possivelmente quando já era amante do rei, quando solicitou a anulação do casamento. O motivo da petição era a impotência de William Shore.

Entre os reis daquela época, Eduardo IV foi um dos mais extremistas da Inglaterra. Seu casamento em segredo com uma plebeia, a viúva Elizabeth Woodville foi polêmico. Ele tentou transforma-lá em sua amante, mas ela se recusou e ameaçou se matar, se ele não se casasse com ela. Esse casamento parece ter sido feliz e produziu muitos filhos, mas ele continuou a ter amantes e ficou conhecido em descartá-las rapidamente e deixando-as a disposição dos amigos. Com Jane foi diferente, não a descartando e foi dedicado a ela e o relacionamento deles durou até a sua morte em 1483.

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A penitência de Jane Shore da Escola Britânica do século 19 – 1800-1899

Jane era bonita e atraente e conhecido como a “Rosa de Londres“. Diz-se que Eduardo a chamou sua amante de “mais feliz” por ser simpática, gentil e por ter senso de humor. Eduardo morreu com quarenta anos e a situação de Jane mudou radicalmente, embora talvez já prevendo o infortúnio, havia começado um relacionamento com o melhor amigo e conselheiro de Eduardo IV, William Hastings.

A vingança veio de sua rival, a rainha Elizabeth Woodville ou de Ricardo III, irmão do falecido rei. Ela foi condenada e exposta publicamente como uma mulher “vergonhosa e devassa“. Ricardo assumiu o trono depois de transformar os filhos do seu irmão de ilegítimos e inaceitáveis para o trono, aprisionando-os na Torre de Londres. O destino dos príncipes é desconhecido, e não foram mais vistos desde a morte do pai, acreditasse que foram assassinados por ordem do rei, gerando a lenda dos Príncipes da Torre.

Walk of shame, a infame caminhada da vergonha

Imagem da personagem Cersei Lannister na caminhada da vergonha no episódio da série Game of Throne

A rainha Elizabeth fugiu para a Abadia de Westminster, enquanto William Hastings foi executado sob a acusação de traição, sendo decapitado em um tronco. Jane Shore foi acusada de levar mensagens de William Hastings a viúva de Eduardo IV, Elizabeth Woodville, bem como seu relacionamento com William. Foi por causa de seu papel nessa aliança que Jane foi acusada de conspiração. O castigo de Jane foi a penitência pública, inicialmente sendo exposta em Paul’s Cross, um púlpito ao ar livre adjacente a igreja de São Paulo.

Depois, Jane foi forçada a caminhar pelas ruas de Londres vestindo apenas um kirtle, uma anágua comprida e transparente e segurando uma vela. Ela foi ridicularizada de todas as formas e atraindo muita atenção masculina ao longo do caminho. Após a penitência, ela foi enviada a prisão de Ludgate. Durante sua estadia na prisão, ela ganhou a simpatia de Thomas Lynom, procurador-geral do rei, que providenciou sua libertação e posteriormente casando-se com ela e tiveram uma filha.

A história não registrou como Jane Shore se sentiu após sua caminhada da vergonha. Mas a atriz Lena Heady, que interpreta Cersei Lannister, disse em entrevistas que foi muito difícil de fazer a cena, apesar de terem sido usados dublês nas cenas de nudez explícitas. “Eu acho que mulher nenhuma merece esse tipo de tratamento”, ela completou.

Abaixo, vídeo da parte do episódio de Game of Throne, onde Cersei Lannister teve que fazer a caminhada da vergonha.

CERSEI’S WALK OF SHAME de recai ürün no Vimeo.

Fontes: 1 2

“Tudo o que o homem não conhece não existe para ele. Por isso, o mundo tem para cada um o tamanho que abrange o seu conhecimento”. – Carlos Bernardo González Pecotche

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