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Yap, a ilha da moeda de pedra

Yap, a ilha da moeda de pedra

A ilha de Yap no Oceano Pacífico é um dos quatro estados que compõem a nação independente dos Estados Federados da Micronésia, um arquipélago constituído de 607 ilhas, que se estendem por 2.900 quilômetros, e o lar de cerca de 110 mil pessoas. Em 1979, o país adotou uma constituição e em 1986, conquistou a independência sob um Tratado de Livre Associação com os Estados Unidos.

Yap (conhecida como Wa’ab or Waqab) com cerca de 6.400 habitantes é o estado mais ocidental da federação, localizada a meio caminho entre as ilhas de Guam e Palau e Yap não possui materiais preciosos como ouro ou prata. Em vez disso, eles usam discos gigantes de calcário de até cinco toneladas chamado “rai” como moeda, sendo um conceito de dinheiro totalmente diferente de qualquer outro lugar do mundo.

As pedras de rai são grandes blocos circulares com um buraco no centro, como uma grande rosquinha, podendo ter quatro metros de diâmetro, que podem comprar um povoado inteiro. As pequenas de dez centímetros podem comprar um porco. Já as médias, as mais populares podiam comprar uma mulher ou uma canoa de seis metros. A maior pedra de rai está localizada na ilha de Rumung , perto da vila de Riy, com 3,6 metros de diâmetro.

Muitas outras culturas pelo mundo usaram ao longo dos tempos pedras como moeda de troca, mas em Yap isso foi levado ao extremo. Originalmente essas pedras moedas tinham a forma de um peixe (Rai significa peixe no dialeto local), mas com o tempo a moeda foi assumindo a forma circular com um furo no centro nas pedras maiores, onde era passado um tronco para facilitar o transporte.

Como as ilhas são formadas por corais, não há pedras e segundo a lenda, quinhentos anos atrás os moradores de Yap em uma de suas aventuras marítimas, chegaram a ilha de Mitut Rabish, em Palau, a cerca de 400 quilômetros de distância. Em Palau ficaram admirados com as pedras locais que acabaram levando muitas dessas pedras juntos na volta e as transformaram em objetos extremamente valiosos.

O valor de cada pedra envolve muitos detalhes, o tamanho delas não é o que a faz mais valiosa, mas sim a história individual relacionadas à produção, transporte e registro de cada pedra, conhecida por cada morador. Saber quem foi seu antigo dono, em que negócios ela estava envolvida, isso sim é que dava valor as elas, e quando mais histórica a pedra melhor. A sua história desde seu transporte da ilha de Palau, os acontecimento até chegar a Yap é que agregava valor as pedras. Às vezes, os homens que transportaram as pedras rai morriam na jornada. Essa perda de vidas aumentava o valor da pedra, dependendo de quantos homens foram perdidos.

Os líderes locais exigiram a busca constantes dessas pedras e os nativos trabalhavam do amanhecer ao anoitecer, para retirar as pedras e dar o formato do dinheiro e depois transporta-las em frágeis canoas que por estarem pesadas, às vezes não conseguiam lidar com às altas ondas. Não é de surpreender que a pedra rai foram obtidas as custas de vidas humanas e depois reverenciadas, onde era estritamente proibido sentar ou ficar de pé sobre elas, e somente os representantes das duas castas superiores podiam possuir esse tipo de dinheiro. Os exemplares mais valiosos eram conhecidos por nomes, e quando usadas em transações, eram acompanhadas por cerimônias e danças solenes.

Apesar das constantes trocas de donos, as pedras maiores normalmente não são movimentadas, permanecendo sempre no mesmo lugar, e todos sabem quem é o dono e quando vale. Numa dessas idas e vindas de uma pedra desde Palau, sendo transportada por uma canoa, uma delas acidentalmente caiu e afundou no mar perto da ilha. Embora nunca mais tenha sido vista, todos concordaram que a rai permanecerá por lá, então continuou sendo negociada como moeda genuína.

No final do século 19, a ilha de Yap foi assolada por uma inflação desenfreada, provocada por um estrangeiro. Condenado por assassinato na Georgia, EUA, o capitão irlandês David O’Keefe escapou da prisão navegando para o Oceano Pacífico num barco de pesca. Em 1871, naufragou perto de Yap, muito machucado e debilitado, foi ajudado por curandeiros locais.

Recuperado, o marinheiro percebeu que poderia ganhar dinheiro com os nativos ingênuos. Ele trouxe para Palau, trabalhadores japoneses com ferramentas de ferro mais apropriadas para agilizar o fornecimento de pedras rai,e começaram a fazer toneladas de novas moedas. O irlandês esperto forneceria o transporte das moedas em seu barco em troca de copra (polpa seca de coco) e pepinos do mar. O’Keefe rapidamente se tornou um homem rico revendendo os produtos exóticos em Hong Kong.

Yap, a ilha da moeda de pedra

Com o barco ágil do capitão irlandês, em pouco tempo, a ilha se viu cheia de pedras rai e elas sem nenhum valor histórico acabaram se tornando apenas um punhado de pedras e famílias que eram ricas acabaram empobrecidas, com inúmeras pilhas de pedras em seu quintal, não valendo quase nada, pois até mesmo as que tinham valores, acabaram desvalorizada.

Em 1890, a Alemanha comprou as ilhas da Espanha, sendo barrada a produção e transporte das pedras rai de O’Keefe para Yap, e o excedente cambial retirado de circulação e usado na construção de estradas. Quando isso ocorreu, O’Keefe já estava tão rico que acabou comprando uma ilha e se intitulou “rei” dela, tendo também conseguido duas nativas como esposas, apesar de ter esposa e filha em Savannah, na Georgia. Ele tinha seu próprio emblema, que mostrava a bandeira dos EUA acenando sobre as letras “O K”. Morreu em 1901, no navio Santa Cruz que levava-o de volta para Savannah.

O comércio de pedras de rai acabou por cair em desuso no início do século 20, devido a disputas comerciais entre os interesses espanhóis e alemães na área. Quando as forças japonesas assumiram Yap durante a Segunda Guerra Mundial, muitas pedras foram usadas para construção ou como âncoras. Embora o dólar americano tenha substituído as pedras como moeda diária, as pedras de rai ainda são trocadas de maneira tradicional entre os yapenses, especialmente em raras transações sociais importantes, como casamento, herança, negócios políticos ou sinal de uma aliança comercial. De acordo com pesquisas, acreditasse que atualmente existem 13 mil pedras rai espalhadas pela ilha.

Fontes: 1 2 3

“Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam” – Jack Kerouac

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Me chamo Julio Cesar, e moro no litoral de Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, que tem como objetivo descrever lugares curiosos, estranhos ou inóspitos, bem como lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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