O Vale da Morte (Death Valley) é uma árida depressão localizada ao norte do Deserto de Mojave, nos Estados Unidos, na Califórnia. Estende-se por aproximadamente 225 km, ao longo da fronteira da Califórnia com o estado de Nevada, a aproximadamente 160 km oeste de Las Vegas. O Vale da Morte é famoso por seu clima extremamente quente. A região recebeu esse nome a partir dos garimpeiros durante a Grande Corrida do Ouro da Califórnia em 1849. Eles relataram o sofrimento que passaram para atravessar a grande depressão do vale a caminho das minas de ouro. Durante a travessia, uma morte foi registrada entre os garimpeiros e o local ficou estigmatizado por suas características extremas e de completo isolamento. O Vale da Morte é o ponto mais baixo dos Estados Unidos.

Também é o local da ocorrência de um curioso fenômeno natural conhecido como rochas deslizantes ou rochas que se movem, que são um dos fenômenos geológicos mais intrigantes que ocorrem no lago seco chamado Racetrack Playa (algo como Planície ou praia dos Rastros). O fenômeno consiste de pedras de dimensões variáveis, algumas bastante grandes, com centenas de quilos, que são encontradas com um rastro atrás de si marcado no solo, sem qualquer sinal associado de intervenção humana ou animal. A causa deste movimento ainda é controversa, embora várias teorias tentem explicá-lo. Ninguém jamais conseguiu filmá-las ou vê-las em movimento. Casos semelhantes são encontrados em diversos outros lagos secos (playas) da região, mas os da Racetrack Playa são os mais notáveis.

As rochas encontradas na área da playa se originam das colinas dolomíticas do entorno, embora algumas sejam de sienito e feldspato. São encontradas a distâncias de até milhares de metros de sua fonte, com rastros atrás de si marcados na lama seca que sugerem um movimento por tração. Os rastros variam em extensão e direção, alguns mostram linhas quase retilíneas, ou curvas suaves, outros têm angulações abruptas e irregulares. A direção predominante é sul/sudeste – norte/nordeste, consistente com os ventos dominantes da área e sugerindo a força eólica como causa do fenômeno. A natureza dos rastros indica que o movimento se dá quando a superfície da playa está saturada de umidade, mas não profundamente inundada. São marcas efêmeras que não sobrevivem à próxima chuva, embora os rastros mais profundos possam perdurar por alguns anos.

As rochas que se movem no Vale da Morte

Crédito da foto

Registros informais populares e estudos científicos sobre este fenômeno se multiplicaram no século XX, mas não se sabe quem primeiro o observou. O primeiro registro escrito conhecido é de McAllister and Agnew, que em 1948 publicaram um artigo no Geological Society of America’s Bulletin, sugerindo que a causa do movimento das rochas era os ventos. Outras pesquisas se seguiram, com mapeamento da área, medições e contagem dos rastros e das pedras, e de outras características geológicas. Especulou-se sobre várias causas possíveis, como tectonismo, anomalias magnéticas, correntes de água e inundações, formação de boias de gelo em torno das pedras, e interferência humana.

A maior parte dos estudiosos aponta o vento atuando sobre uma superfície de lama fresca como a causa principal do movimento das rochas. George Stanley (1955) considerou que os ventos registrados na região são pouco potentes para mover rochas que pesam até 300 kg, e sugeriu que a formação de placas de gelo em torno das pedras poderia ser um fator auxiliar no aumento de sua superfície sem aumento significativo em seu peso, favorecendo a captação do vento e o incremento local de sua potência, bem como o deslizamento.

Bob Sharp e Dwight Carey iniciaram em 1972 um programa de monitoramento de cerca de 30 rochas movidas recentemente. Cada pedra recebeu um nome e foi observada ao longo de sete anos, objetivando testar a hipótese das placas de gelo. Foram montados cercados e estacas em torno das pedras selecionadas, que deveriam impedir a ação do vento e detectar alterações causadas por congelamento. Contudo, as pedras se moveram da mesma forma, ignorando as proteções, permanecendo as estacas sem serem afetadas. Outras pedras selecionados em pares apresentaram movimento de apenas uma, enquanto a outra, exatamente ao lado, permaneceu imóvel. Quase todas as pedras monitoradas se moveram no período fixado, em distâncias que variaram de poucos centímetros até 262 metros. Também reportaram vários movimentos na ausência de depósito volumoso de água sobre a playa, que possibilitaria a formação e deslocamento livre de uma balsa de gelo a carregar as rochas, e que alguns rastros mostram características incongruentes com a hipótese, além de haver registros de atividade em meses de verão.

Em 1995 o professor John Reid e seis estudantes da Universidade de Massachusetts estudaram o caso e encontraram várias incongruências, embora tenham conseguido provar em algumas ocorrências a efetiva colaboração do gelo no processo. Outros pesquisadores estudando o fenômeno em 1995 detectaram a ocorrência de ventos fortes incomuns sobre a playa, que podem ser comprimidos e intensificados por causa da conformação topográfica do entorno. Notaram ainda que a zona limítrofe acima do solo onde o vento ainda é potente é de apenas 5 cm, evidenciando que pedras relativamente pequenas ainda recebem o pleno impacto dos ventos, que podem atingir a velocidade de 145 km/h durante as tempestades de inverno. Tais tempestades foram consideradas o impulso primário do movimento, enquanto que ventos mais suaves e constantes, com apenas metade da velocidade de impulso inicial, são tidos como suficientes como força propelente de maior duração e que possibilita deslocamentos longos.

Paula Messina (1988) assinala que embora haja tendência de as rochas maiores deixarem rastros mais curtos, uma regra neste sentido não é consistente com as observações, e os dados coletados mostram uma configuração bastante caótica e imprevisível. Sugere ainda que a comprovada formação de uma película de limo lubrificante por cianobactérias aumenta a viscosidade da lama e favorece o deslizamento. Diz também que o gelo, ainda que possa colaborar, não é um fator imprescindível para a movimentação, já que ocorrências foram registradas em temperaturas acima do congelamento. Uma causa sugerida para a movimentação em trajetos altamente irregulares é a captura de rochas por fortes redemoinhos de vento, chamados na região de Dust Devils.

Fim do Mistério

Em 2014, após anos de teorias e especulações, um grupo de pesquisadores conseguiu desvendar o mistério das pedras utilizando câmeras e GPS. Eles notaram que apesar do lago passar grande parte do tempo seco, chuvas e tempestades são suficientes para armazenar uma pequena camada de água em sua superfície. Várias são as condições necessárias para que o movimento ocorra, e por isso ele é infrequente. Deve ser um tempo frio, capaz de criar uma fina camada de gelo sobre a superfície da água durante a noite, em geral de 3–6 mm, não muito maior do que a espessura do vidro de janelas, mas que não congele toda a água, deixando uma camada líquida por debaixo. Ao nascer o sol, o gelo começa a quebrar, formando de início grandes placas flutuantes, até que o calor do dia as fragmente em pequenos pedaços.

No experimento conduzido, todos os movimentos ocorreram perto do meio-dia, em dias ensolarados depois de noites frias. Deve também haver vento, cuja ação empurra as ditas placas para várias direções sobre a camada de água que permanece líquida. Os maiores episódios de movimento foram registrados com velocidades de vento acima de 5 metros por segundo. Enquanto as placas de gelo permanecem grandes, mas o calor do dia já abriu alguns caminhos de água livre para que possa haver um deslocamento, se encontram rochas pelo caminho, elas são empurradas também. Essas grandes placas explicam os movimentos paralelos de grupos de rochas, todas empurradas juntas pela mesma placa.

Observou-se que as rochas não flutuam sobre o gelo, aderidas a ele, como teorias antigas postulavam, mas são apenas empurradas pelas placas em movimento. No entanto, largas placas podem se acavalar sobre as rochas, aumentando ainda mais a área exposta ao vento. O deslocamento pode ser descontínuo, depende da constância dos ventos; é relativamente lento, sendo observados movimentos de no máximo 6 metros por minuto, e pode passar despercebido pelo olhar desatento, especialmente se não existem outras rochas estacionárias por perto para evidenciar claramente uma mudança na sua posição.

As placas de gelo podem chegar a ter grandes dimensões, com dezenas ou centenas de metros quadrados de superfície, captando do vento uma considerável força dinâmica capaz de movimentar até rochas grandes, atuando como se fossem grandes velas de navio. O experimento registrou pela primeira vez em imagens o movimento das rochas.

Fontes: 1 2 3

“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem)

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