Histórias

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

À primeira vista, parece brincadeira. Afinal, como poderia haver no mundo real um lugar que tenha pertencido a um personagem da ficção? Em seguida, presume-se que tudo não passa de um truque de imaginação para atrair turistas de verdade. Por fim, descobre-se com um misto de surpresa e perplexidade, que não se trata nem de uma coisa nem de outra: Ilha de Robinson Crusoé ou Isla Más a Tierra, (ou “Más Atierra”) como era chamada no passado, é um desconhecido pedaço de terra montanhosa a 670 quilômetros da costa de Valparaíso, no Chile, e é mesmo a famosa ilha do legendário personagem infantil, criado pelo escritor inglês Daniel Defoe, em 1719. E a própria História comprova isso. De verdade!

Como? A resposta está nos livros. Foi nesta pequena ilha de 58 quilômetros quadrados (pouco mais do que duas vezes Fernando de Noronha, por exemplo) que durante quatro anos e quatro meses viveu isolado Alexander Selkirk, o marinheiro escocês (de verdade) que inspirou Defoe na criação do náufrago inglês Robinson Crusoé da ficção. Decepção? Não há por que: a saga do marujo Selkirk nesta ilha foi mais emocionante até do que a do próprio Crusoé nas páginas de Defoe, pela simples razão de que ela foi real – e é isso que faz desta ilha um lugar tão curiosamente especial.

A História registra e a ilha conta que tudo começou numa tarde de setembro de 1704, quando Selkirk foi deixado sozinho em Más a Tierra após uma violenta discussão com o capitão Thomas Stradling de 21 anos, do galeão inglês Cinque Ports, no qual viajava como marinheiro. O desentendimento foi devido a Selkirk questionar a navegabilidade do navio. Que a madeira do casco do navio estava muito deteriorada, e Selkirk estava preocupado que afundasse antes que eles pudessem voltar para a Inglaterra, sendo uma provável sentença de morte para todos a bordo. No entanto, o capitão rejeitou furiosamente essa ideia e disse que o navio iria aguentar.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Mapa do arquipélago de Juan Fernandez

Selkirk ficou tão frustado com o capitão que disse preferir ser abandonado na ilha, do que continuar numa navio fadado a afundar. Stradling levou a declaração do seu subordinado ao pé da letra, entregando alguns suprimentos ao marinheiro e concedendo seu desejo de permanecer na ilha.

Outras versão alegam que Selkirk achava o capião Stralding autoritário e ditatorial e tentou criar um motim próximos as ilhas. Acreditando contar com a adesão de uma parte da tripulação ao seu motim, Selkirk decidiu desembarcar voluntariamente. Mas nenhum outro membro o seguiu. Decepcionado, ateve-se à certeza de que o galeão St.George, normalmente alguns dias atrás do Cinque Ports, não tardaria a ancorar na ilha e acolhê-lo a bordo. Afinal, Selkirk tinha direito à imunidade penal por ter saído do navio por vontade própria. Ou seja, não seria declarado desertor, crime punido com a morte naqueles tempos.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Uma ilustração de 1837 com Selkirk lendo em uma das duas cabanas que ele construiu. | Crédito da foto: Wikipedia

O galeão Cinque Ports acabou afundando como Selkirk previra logo depois de deixar a ilha, próximo a ilha de Malpelo, na costa da Colômbia, forçando Stradling e toda a sua tripulação se render aos espanhóis para evitar a fome. Os soldados espanhóis levaram os homens para serem torturados e presos em Lima, no Peru. Apenas 18 dos 63 homens sobreviveram desde que o galeão afundou.

A ilha foi descoberta um século e meio antes pelo navegador espanhol Juan Fernández, que também desbravou para o mundo as ilhotas vizinhas de Más Afuera e Santa Clara, formando assim o arquipélago que até hoje leva o seu nome. Em Más a Tierra (o nome é uma referência óbvia à sua localização”mais próxima da terra” em relação à vizinha “mais afora”. Mas tarde o governo chileno deu o nome a ilha Más Afuera de Alexander Selkirk, em homenagem ao marinheiro, apesar de Selkirk nunca ter ficado lá.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Caverna de Selkirk | Crédito da foto

Mas a ilha já havia sido habitada anteriormente. O primeiro habitante foi um índio miquito chamado Will, abandonado por seu capitão em janeiro de 1681. Ele viveu lá até abril de 1684. O náufrago seguinte, cujo nome não se sabe, o sucedeu durante cinco anos. Quando Selkirk desembarcou em 1704, dois marinheiros abandonados na ilha por um certo capitão Davis moravam lá havia sete meses. Naquela época era normal, marinheiros serem abandonados em ilhas, caso criassem problemas a bordo: eles deveriam ficar esperando pacientemente a passagem de outra embarcação que se dispusesse a recebê-los a bordo.

Em 1741, o almirante Anson permaneceu na ilha por três meses. Em seu relato, ele apresenta o local como um verdadeiro paraíso perdido. No século 18, o arquipélago serviu de prisão de criminosos perigosos, alojados em cavernas. Cem anos depois, durante a guerra da independência do Chile, foi utilizado como cadeia de presos políticos.

Selkirk tinha na época 28 anos, quando foi na deixado na ilha com uma pistola de pederneira, uma faca, uma machadinha, um pouco de aveia e tabaco, alguns instrumentos de navegação, roupas e uma Bíblia. Selkirk viu seu antigo navio partir no que é hoje a Baía de Cumberland, sede do vilarejo de San Juan Bautista, o único da ilha, onde vivem atualmente cerca de 500 pessoas – a população total da ilha, todos, aliás, pescadores de lagostas. Os dois marujos resgatados puseram à disposição de Selkirk os utensílios de cozinha e sua cabana. Ele não tinha a menor ideia que ia passar mais de quatro anos sozinho. Na ilha também haviam ratos, gatos, porcos e cabras selvagens, deixados por espanhóis.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Estátua de Selkirk na escócia | Crédito da foto

Depois de um tempo, cabisbaixo, encontrou uma morada mais conveniente que aquela choupana erguida à beira-mar, perigosa caso os espanhóis ancorassem na baía. Selkirk descobriu um platô elevado, de difícil acesso. Seria um observatório perfeito para vigiar o mar. A cavidade natural, atrás da qual se estendia um vale de vegetação exuberante e um pequeno córrego, foi o seu novo lar. Costumava observar o horizonte vazio a partir de um mirante natural (El Mirador de Selkirk), com 565 metros de altura, que hoje é a maior atração turística da ilha.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Ilustração do livro de Robinson Crusoé

O escocês demarcou dois espaços nessa caverna: um serviria de quarto e o outro, de cozinha. Construiu um galpão com galhos e cobriu o teto de varas de samambaias. Peles de cabra forravam as paredes do refúgio, escondendo a única janela e a porta. O marujo sabia que o inverno na região era chuvoso e frio. Levou para lá tudo que tinha. Fez uma cama de galhos, mato seco e pele. Construiu também um redil para as cabras e assim reuniu um pequeno rebanho.

Na ilha, só não havia nativos. Ela ficava muito longe da costa para que os índios mais próximos, os araucanos, se aventurassem em suas embarcações de tronco de árvore. As duas únicas visitas que Selkirk recebeu foram dos marinheiros inimigos. Na primeira vez, ao voltar da caçada, detectou pegadas na praia e ficou louco de alegria. Mas logo ouviu vozes falando em espanhol. Apavorado, só se salvou graças à falta de disposição dos marinheiros para perseguir aquele selvagem branco mal-cuidado. Passou a noite inteira trepado numa árvore, aguardando a partida dos inimigos. O segundo desembarque não o surpreendeu: ele viu os espanhóis atracarem e se escondeu na floresta.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Crédito da foto

Tal qual o heroico personagem do livro, o marinheiro escocês gastava horas e mais horas lendo longos trechos da Bíblia. Após um período de depressão, ele entregou-se ao misticismo. Observando escrupulosamente os domingos – mais precisamente, os dias que supunha domingo -, celebrava a missa para si próprio. A crença em algo superior revelada pela solidão nunca mais desaparecia.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Primeiras páginas do livre de Daniel Defoe

Possivelmente, foi do mirante que na manhã de 1 de fevereiro de 1709, Selkirk acompanhou a chegada do galeão Duke, cujo capitão, o inglês William Dampier, era o ex-comandante do St. George, que quatro anos e quatro meses antes havia acompanhado o Cinque Ports na viagem que resultara no abandono de Selkirk em Más a Tierra. Dampier, inclusive, só teria passado pelo arquipélago para ter a certeza de que Selkirk ainda estava lá – e ele estava.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Crédito da foto

Resgatado, o bravo escocês pôs fim a um exílio de 52 meses na ilha e cunhou o esteriótipo do que, mais tarde, viria a ser tornar um dos maiores clássicos da literatura infantil de todos os tempos (e o segundo livro mais lido, depois da Bíblia). Em finais do século 19, nenhum outro livro na história da literatura ocidental teve mais êxito do que Robinson Crusoé, com mais de 700 reimpressões, traduções e imitações. Esta obra pode ser considerada o primeiro grande romance que mostra a vontade e os recursos do ser humano para sobreviver em ambientes hostis.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Ilustração de Alexander Selkirk brincando com suas cabras e gatos | Crédito da foto: Mary Evans Picture Library, Alamy

Mesmo assim, a história de Selkirk só veio a público dois anos depois, com a sua volta à Inglaterra e a consequente publicação de The Englishman, do escritor jornalista Richard Steele, que narra a experiência do marinheiro na ilha deserta. Foi a narrativa de Steele que, mais tarde, inspirou Defoe na criação do seu mais célebre personagem, o astuto Crusoé. A vida e Estranhos e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoé de York, Marinheiro, a obra prima de Defoe (nascido apenas Foe), assim como o próprio Selkirk, cujo nome oficial de família era Selcraig), só veio a ser publicado em 1719, dez anos após o resgate de Selkirk em Más a Tierra e apenas dois antes dele falecer, numa outra viagem marítima.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Caverna de Selkirk vista de dentro | Crédito da foto

Selkirk morreu de febre amarela na costa da África, logo depois de se tornar parcialmente famoso pelo livro de Defoe, mas muito antes de ter seu nome reverenciado pelo governo chileno, que só neste século acrescentou o nome Alexander Selkirk à designação oficial de Más a Tierra – a ilha vizinha àquela onde tudo aconteceu. A honra maior, no entanto, coube mesmo ao personagem do livro: Más a Tierra é hoje também conhecida como Ilha Robinson Crusoé, renomeada em 1966 pelo governo chileno – e é para ver os imaginários cenários do lendário personagem e não os pertences do anônimo Selkirk que as pessoas hoje vão para lá.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Placa homenageando Alexander Selkirk na ilha onde foi abandonado. Foto apareceu no artigo de 1922 da National Geographic | Crédito da foto

Uma vez lá, alguns pontos de visita obrigatória são a Gruta de Robinson Crusoé, o Miradouro de Selkirk(onde se supõe que o escocês subia com a intenção de avistar navios no horizonte), o Forte de Santa Bárbara (construído pelo governo espanhol no ano de 1749, com o objetivo de impedir que as ilhas do arquipélago servissem de proteção aos piratas e corsários que assolavam as costas da América). 

No caminho, enfrentam duas horas e meia de voo num minúsculo avião, que só decola quando lota, um pouso numa apavorante pista de terra batida em declive no topo de um extinto vulcão e mais duas horas de barco até a tosca vila, que, como de resto toda a ilha, passa a maior parte do ano encoberta por pesadas nuvens. Em compensação, uma vez na maior das três ilhas do arquipélago, é possível esquecer o presente e viver o passado, pois só uma mínima parte de Más a Tierra está colonizada. O restante permanece exatamente igual ao tempo de Selkirk e muito parecido com o descrito nas páginas de Crusoé. No livro, tudo parece ficção. Na ilha, não.

A Ilha Robinson Crusoé está integrada no Parque Nacional do Chile, desde 1935, e é também Reserva da Biosfera, por declaração da UNESCO, desde 1977. Para quem gosta de mergulhar, o arquipélago tem uma das melhores visibilidades do Chile, com abundante fauna marinha e brincalhões lobos-marinhos, assim como o couraçado alemão “Dresden”, afundado naquele que foi o primeiro combate naval da Primeira Guerra Mundial. 

Em consequência do terramoto de 27 de fevereiro de 2010, a ilha foi assolada por um tremendo tsunami de cinco metros de altura, que destruiu grande parte da vila de San Juan Bautista e provocou a morte a dezasseis pessoas. Não houve mais vítimas, graças a uma menina de doze anos que conseguiu alertar os vizinhos, tocando a campainha e salvando assim muitas pessoas daquela devastadora onda gigante. Estes últimos anos têm sido para os habitantes da ilha um constante esforço para melhorar as infraestruturas, visando reativar as visitas turísticas, não só dos cruzeiros de passagem, mas também dos que se dedicam a permanece vários dias na ilha, desenvolvendo atividades desportivas e recreativas.

A ilha de Robinson Crusoé no Chile

Mapa das ilhas

Adaptação de um texto da Revista Terra nº 6, edição 26

Outras Fontes: 1 2 3 4 5

“Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro”. – Confúcio

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