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Hallsands, a vila que desapareceu no mar

Hallsands, a vila que desapareceu no mar

A ilha da Grã-Bretanha está encolhendo anos após anos, com vários metros de terra sendo arrastados pelas ondas do Oceano Atlântico. A cada década, uma aldeia a beira mar é perdida. Desde a costa de Yorkshire, no norte, até os icônicos penhascos de giz na costa sul da Inglaterra, o mar está ganhando terreno a uma média de um metro e meio no extremo norte, a vinte centímetros no sul. O litoral de Holderness, em especial, na costa leste da Inglaterra, ao norte do estuário de Humber, é um dos litorais mais erodidos da Europa, devido a suas falésias de argila macia e as constantes fortes ondas.  Desde o final dos tempos romanos, cerca de cinco quilômetros de terra já foram levados pelo mar, incluindo pelo menos 23 cidades e aldeias. No geral, mais de um quarto do litoral britânico experimenta erosões a taxas superiores a dez centímetros por ano.

Hallsands, a vila que desapareceu no mar

Atual situação na aldeia de Hallsands em Devon | Crédito da foto

Enquanto a erosão costeira é um processo natural inevitável, às vezes a atividade humana alimentada pela ganância também pode ser a causa. Um famoso exemplo de erosão causada pelo homem é a aldeia costeira de Hallsands, no sul de Devon. Na virada do século 20, a aldeia era o lar de uma pequena comunidade de pescadores com cerca de quarenta edificações e uma população de 160 pessoas. Manuscritos relatam de que ela existia desde 1508, quando uma capela foi construída no lugar. Devido a erosão, no início do 1917, restava apenas uma edificação no lugar. Mas a erosão de Hallsands não foi gradual, abrangendo vários anos, como acontece naturalmente nas aldeias construídas muito perto de uma costa em erosão. Em Hallsands foi abrupto – a aldeia desapareceu durante o curso de uma única noite tempestuosa.

Hallsands, a vila que desapareceu no mar

Como era a vila antes de ser varrida pelas marés | Crédito da foto

A aldeia de Hallsands foi se formando em uma borda rochosa sob um penhasco alto, na costa de South Devon, no canal inglês. Era um local seguro, onde o mar não era agitado, e havia uma larga praia de cascalho entre a aldeia e o mar, que fornecia proteção contra as poderosas ondas que vinham do leste. Até mesmo a Grande Nevasca de 1891, que atingiu em cheio o sul da Inglaterra e afundou dezenas de navios no Canal da Mancha, não poderia causar danos à pequena vila pobre. Mas três anos depois, tudo isso mudaria.

Em 1894, a Marinha Real propôs expandir o estaleiro naval de Keyham, perto de Plymouth – um projeto que exigiria cerca de 400.000 metros cúbicos de areia. Foi decidido que o material seriam extraídos de Start Bay, ao norte de Hallsands. O trabalho começou em abril de 1897, e uma média de 1.600 toneladas de cascalhos estavam sendo removidos todos os dias. O efeito da operação foi sentido na aldeia de Hallsands quase imediatamente. A praia começou a perder sua forma e desestabilizar o nível da maré alta, o que alarmou os aldeões que pediram ao Ministério Público intervir. Um inquérito foi realizado, mas a empresa de engenharia para a qual o contrato de dragagem foi concedido se manifestou dizendo que a praia seria naturalmente reabastecida com areia e cascalho novamente em pouco tempo, e a dragagem continuou no mesmo ritmo.

Hallsands, a vila que desapareceu no mar

Imagem de 1885 | Crédito da foto

O que não foi entendido na época – ou talvez entendido, mas ignorado – foi que o cascalho da praia de Hallsands se originou há milhares de anos atrás pelo aumento dos mares após a era glacial. Não havia um amontoado de cascalho sobressalente em algum lugar do canal que pudesse substituir as toneladas que foram retiradas. Assim, as ondas e correntes simplesmente preencheram os buracos com o cascalho retirado das praias, tornando-as mais estreitas e fazendo com que o nível da maré alta subisse em direção até então, segura aldeia.

A maré alta da primavera que até então permanecia de 18 a 21 metros de distância da vila antes da dragagem começou a chegar a menos de um metro das construções. Em 1900, começaram a aparecer rachaduras nas casas no extremo sul da vila. Eventualmente, outras aldeias de pescadores também estavam sendo afetadas pela diminuição da praia, forçando a Junta Comercial a revogar a licença da empresa que estava fazendo o trabalho de dragagem. Nesses cinco anos de trabalhos, 660.000 toneladas de materiais haviam sido retirados do fundo do mar.

Hallsands, a vila que desapareceu no mar

Foto tirada em 1897 | Vinte anos antes da aldeia desaparecer debaixo d’água | Crédito da foto

A vila de Hallsands perdeu algumas edificações, e outras ficaram danificadas, como a estalagem, chamada London Inn, que perdeu a cozinha, um quarto e a adega, sendo carregados pelas águas. Algumas famílias foram transferidas, e a população caiu para 93 pessoas e depois para 79 habitantes em 1906. Um muro de contenção robusto foi construído para deixar as marés longe das casas, e os aldeões acreditavam que seus piores dias haviam passados. Mas o pior ainda estava por vir.

Em 26 de janeiro de 1917, uma combinação de ventos lestes e marés excepcionalmente altas atingiram a aldeia e região. Sem a praia para proteger, os fortes ventos elevaram as ondas até atingir as casas na altura do telhado. As casas construídas perto do muro desabaram e as estavam nas rochas foram atingidas pelos ventos e ondas. Milagrosamente, todos os 79 aldeões sobreviveram, correndo para longe de suas casas. No dia seguinte, a visão era devastadora. Muitas casas haviam sido destruídas e levadas embora pelas ondas. O quebra-mar havia impedido que muitas outras desaparecessem, e assim, muitas vidas também teriam sido perdidas. Dois dias depois, no dia 28 de janeiro, uma maré alta quebrou o já enfraquecido muro de proteção e a vila inteira, exceto por uma única casa – a mais alta da aldeia – haviam desmoronado no mar.

Hallsands, a vila que desapareceu no mar

Antes da tragédia, se percebe os muros altos que protegiam a pequena vila | Crédito da foto

Naquela semana, o jornal Kingsbridge gazette publicou uma matéria com a manchete “A praia foi para Devonport e as casas foram para o mar”, referindo-se ao novo cais em Devonport, Plymouth, que foi construído com a areia da praia de Hallsands. Um inquérito foi realizado, mas os relatórios nunca se tornaram públicos. A Junta Comercial negou sua responsabilidade, mas acabou concordando em pagar 6.000 liras esterlinas aos aldeões como compensação, sete anos depois do desastre.

Hallsands, a vila que desapareceu no mar

Ruínas da antiga capela | Crédito da foto

Atualmente, uma pequena aldeia se formou acima do penhasco, com vista para o local do desastre. A partir do mirante, é possível ver algumas das ruínas da antiga vila, que se tornou um lembrete da loucura do homem em interferir nas forças da natureza. Uma placa de bronze instalada no mirante, tem um verso profético de um poema escrito por John Masefield, quinze anos antes da tragédia, onde se lê:

Mas que suas ruínas então,

embora totalmente afundado

Vai mostrar como a ganância bruta dos homens

Ajuda a alimentar o mar guloso.

Uma curiosidade sobre Hallsands, é um documentário dirigido por Julien Temple de 2016, sobre Keith Richards, vocalista da banda Rolling Stones, onde ele dizia que quando criança, costumava fazer as férias de verão com sua família em Hallsands.

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Foto de 2009 | Crédito da foto

Fontes: 1 2

“É preciso que o discípulo da sabedoria tenha o coração grande e corajoso. O fardo é pesado e a viagem longa”. – Confúcio

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Me chamo Julio Cesar, e moro no litoral de Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, que tem como objetivo descrever lugares curiosos, estranhos ou inóspitos, bem como lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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