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O canhão e o sino gigantes da Rússia

O canhão e o sino gigantes da Rússia

Canhões e sinos sempre tiveram um relacionamento especial. Eles são feitos dos mesmos metais e muitas vezes na mesma fábrica. Ao longo da história, os sinos foram derretidos para fazer canhões em tempos de guerra, e canhões foram derretidos para fazer sinos em tempos de paz. Não é de surpreender, portanto, que os maiores espécimes de ambos compartilhem os mesmos fundamentos de Kremlin, na Rússia, a menos de cem metros um do outro.

O Canhão do Tsar

O Canhão do Tsar (também conhecido como Tsar Pushka) é um gigante de 40 toneladas com um calibre de 890 mm, considerado o maior do mundo. Foi construído em 1586, pelo mestre artesão de bronze Andrei Chekov a pedido do tsar Teodoro 1º, filho de Ivan, o Terrível. Infelizmente, o canhão era muito grande para ter qualquer propósito prático, como disparar balas de canhão de 800 kg. Por muito tempo, se pensou que o canhão nunca havia sido usado, mas em 1980, enquanto o canhão estava sendo restaurado, foi inspecionado por especialistas da Academia de Artilharia e eles encontraram resíduos de pólvora e chegaram a conclusão de que o canhão havia disparado ao menos uma vez.

Talvez, o Canhão do Tsar tenha sido construído principalmente como um demonstração de poder em vez de ser usado militarmente. Naqueles dias, os mestres de armas russos tinham a reputação de serem os melhores do mundo. Eles inventaram modelos de armas que não tinha paralelo no Ocidente. Os armeiros russos foram os primeiros a adicionar sulcos nas paredes internas dos canos das armas para melhorar a trajetória dos projeteis e muitas outras inovações. O exército russo também manteve um dos maiores arsenais de artilharia na Europa.

Há uma imagem do tsar no barril de pólvora, onde ele é retratado com uma coroa na cabeça e um cedro em uma das mãos, montado em um cavalo. Um inscrição acima da figura do tsar diz: “A graça de Deus, Tsar e Grande Duque Fiodor Ivanovitch. Autocrata da Grande Rússia“. Há outros dois rótulos, um que diz sobre quem fez o canhão e outro que especifica que foi feito a pedido do tsar.

Uma teoria diz que o canhão recebeu este nome por causa da imagem do tsar no barril. No entanto, acredita-se que o nome na verdade está ligado ao tamanho descomunal da arma, algo que era extraordinário para a época.

Há armas de artilharia maiores, como o Morteiro Mallet, do Reino Unido, e o Pequeno David, dos Estados Unidos, ambos com 914 milímetros. Mas essas armas são morteiros, não canhões, e isso significa que o Canhão do Tsar do Kremlin é uma peça de artilharia inigualável. É preciso lembrar ainda que os morteiros foram produzidos nos séculos 19 e 20, com o uso de uma tecnologia (relativamente) moderna, enquanto o Canhão do Tsar foi feito em bronze e data de 1586.

O canhão foi montado em uma estrutura especial e colocado na Praça Vermelha. Ele deveria ser usado para proteger o acesso ao Kremlin a partir do leste, mas nunca foi usado em um combate verdadeiro. No século 18, o canhão foi levado para o arsenal do Kremlin. Durante a Invasão Napoleônica em 1812, houve combates e muitos incêndios em Moscou e a carruagem original de madeira do canhão foi destruída. Mas tarde, a estrutura atual, de ferro foi fabricada e montada no canhão. Nessa época também foram produzidas as enormes balas de canhão, que hoje ficam à frente da arma e são meramente decorativas.

Sino do Tsar

Não muito longe do maior canhão, está o Sino do Tsar (também conhecido como Sino Real) o maior sino do mundo, com oito metros de altura e 6,6 metros de diâmetro e pesando quase 203 toneladas. Sua superfície está decorada com imagens em relevo de anjos barrocos, santos e imagens da imperatriz e do Tsar em tamanho natural. Como o Canhão do Tsar, o sino também nunca foi usado.

Quem ordenou a fabricação deste enorme sino foi a imperatriz Anna Ioannovna em 1730. Naquela época, era tradição produzir sinos grandes para serem exibidos em Moscou, e o Sino do Tsar era o terceiro do tipo. O primeiro pesava entre 17 a 35 toneladas, feito no início do século 17, porém foi danificado num incêndio, o segundo com 130 toneladas foi feito no meio do mesmo século, sob o reinado do tsar Aleixo 1º, mas teve o mesmo destino do primeiro, ao cair e quebrar durante um incêndio. Os restos do segundo sino foram usados na fabricação do atual Sino Real.

Para Anna Ioannovna, nem mesmo o segundo era suficientemente grande, e ordenou que o próximo fosse mais de uma vez e meia maior que o antecessor. Foi convidado um especialista francês para fundir o sino, mas o mesmo rejeitou e assim o russo Ivan Motorin e seu filho Mikhail assumiram o trabalho. Um enorme poço, com dez metros de profundidade foi cavado perto do Kremlin, para produzir o sino. Após um ano e meio de preparação, os trabalhos começaram em 1735.

Durante a fabricação, Ivan Motorin morreu, e o projeto continuou a ser feito pelo seu filho. Como nos dois sinos anteriores, o Sino Real também se perdeu durante um incêndio. Durante o incêndio, temendo que as chamas danificassem o sino, os guardas jogaram água fria sobre ele, fazendo com que o metal quente se quebrasse e um enorme pedaço de quase 10 toneladas se desprendeu e o sino caiu do suporte em que estava apoiado e caiu no poço.

Este ficou abandonado no poço por quase 100 anos, porque não se conseguia movê-lo, tirando de onde estava. No início do século 19, o tsar Alexandre 1º ordenou que uma escada fosse construída até o sino, para que as pessoas pudessem observá-lo. Foi somente em 1830 que o arquiteto francês Auguste de Montferrand, responsável pela construção da Catedral de Santo Isaac, em São Petersburgo elaborou um plano para tirar o Sino Real do poço e quando ele foi removido, foi colocado num pedestal no Kremlin.

Sugeriu-se que o pedaço do sino pudesse ser soldado, no entanto, o mesmo não seria capaz de produzir som, devido ao dano. Recentemente, pesquisadores da Universidade da Califórnia usaram um software para criar o som que o Sino Real produziria. Para fazer a simulação, foram usados dados como espessura, forma, movimentos e materiais utilizados na fabricação.

Fontes: 1 2 3

“Costumo responder, normalmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens: que sei muito bem daquilo que fujo, e não aquilo que procuro”. – Michel de Montaigne

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