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Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

O verão de 1987-1988 foi considerado o mais inusitado da história e poucos verões são tão memoráveis a ponto de merecerem um nome próprio: “Verão da Lata”. Nada menos do que 22 toneladas de maconha foram despejadas no litoral brasileiro, dentro de latas hermeticamente fechadas, chegando em praias que iam do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, dando início a uma história que muitos acreditam ser lenda.

O “Verão da Lata” começou oficialmente em 19 de setembro de 1987, quando chegaram a cidade de Guarujá, no litoral paulista, as primeiras seis latas com cannabis, despejadas no mar pelo navio Solana Star, de bandeira panamenha. Após serem apreendidas pela polícia, na praia das Astúrias e do Tombo, a história começou a ganhar destaque nas páginas policiais e principalmente no imaginário popular.

Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

O “fumo do bom” das latas de maconha embaladas a vácuo

A história iniciou-se na primavera daquele ano, quando o navio Solana Star partiu da Austrália, parando em Cingapura, no sudoeste da Ásia onde embarcou sua preciosa mercadoria com destino ao Panamá, as latas com maconha seriam repassadas para dois barcos que as levariam até Miami, Flórida, nos Estados Unidos.

Durante a viagem, a embarcação passou por algumas tormentas em alto mar e precisou aportar na costa brasileira para realizar reparos em 13 de setembro, depois de já ter navegado por longos 65 dias. O navio traficava cerca de 22 toneladas de maconha provenientes da Tailândia, embaladas a vácuo, prensada com mel e glicose, numa lata semelhante as de leite em pó.

Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

Cena do documentário Verão da Lata pelo canal History

O que os traficantes internacionais não esperavam é que a Agência norte-americana de Combate as Drogas (DEA, Drug Enforcement Administration) prendesse o líder do bando e que ele aceitasse a fazer uma espécie de “delação premiada” e entregasse os planos dos comparsas.

Após a DEA avisar ao governo brasileiro, a Polícia Federal e a Marinha tentaram localizar a embarcação com as drogas, mas não acharam nada nos portos indicados pela Agência norte-americana. O problema é que os tripulantes do Solana Star avistaram o contratorpedeiro brasileiro e com medo de serem presos, despejaram cerca de 15 mil latas com maconha no mar, na altura de Cabo Frio.

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Navio de bandeira panamenha Solana Star | Foto Celso Meira – Arquivo O Globo (26091987)

No dia 25 de setembro, o Solana Star atracou na Baía de Guanabara, e os tripulantes passaram tranquilamente pela alfândega sob a alegação de problemas nos dois motores auxiliares do navio, e hospedaram-se em Copacabana com a certeza de que deixaram o porão vazio. Do ponto de vista dos traficantes, o golpe fora um sucesso, exceto pelo detalhe de que, ao invés de afundar, as latas boiaram, e começaram a aparecer uma a uma.

Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

As latas apreendidas em São Paulo, primeira região onde elas apareceram | Foto Lúcio Marreiro – Arquivo O Globo (05-10-1987)

As embalagens recheadas com aproximadamente 1,5 quilos de cannabis de excelente qualidade começaram a chegar ao litoral e causou uma “corrida a lata” entre pescadores, surfistas, oportunistas e autoridades. Até a história começar a ser divulgada maciçamente pela imprensa e ganhar o noticiário brasileiro, os contos sobre as latas de maconha eram tratados com descrédito ou até como uma “viagem” de algum usuário da droga.

Para se compreender o que o assunto significou na época, basta constatar que no auge da “caça as latas“, a Polícia Federal paralisou todos os outros casos e focou apenas naquela investigação.

Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

Uma das latas de maconha que foram jogados ao mar pelos tripulantes do Solana Star | Foto José Doval – Arquivo O Globo

Por quase dois mil quilômetros de litoral, as latas chegaram nas praias ou ficaram presas nas pedras, sendo capturadas pelos banhistas e pescadores. Há relatos que o Verão da Lata transformou a vida de muitas pessoas que “fizeram muito dinheiro” com a venda desta droga, que segundo o que se dizia, é que era “fumo do bom“.

No documentário do canal History, o Procurador Federal dos EUA, Joseph Urbaniak explica porque a maconha das latas eram de melhor qualidade: “A maconha tailandesa costumava ser popular porque tinha mais, você sabe o caule com algum envoltório ao redor das flores e muitas vezes mergulhado em óleo de haxixe ou de cannabis. E o principal ingrediente ativo, que é chamado de THC, parecia ser maior na maconha tailandesa que na maconha comum”.

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Banhista nada para tentar recuperar uma das latas de maconha na praia do Rio | Foto Lúcio Marreiro – Arquivo O Globo (11101987)

Com a fama que o assunto ganhou no país, a lata se transformou em “ritual” e numa “homenagem” informal pela qualidade do produto, criou-se a gíria “da lata” para se referir a algo quando era de qualidade. Porém de uma dia para o outro, toda a maconha comercializada no país passou a ser proveniente das latas.

Os traficantes se aproveitaram do ocorrido e passaram a comercializar o produto em latas afirmando que eram vindos do mar. Para alguns pesquisadores, mesmo sendo um produto diferenciado, a maconha da lata não era mais potente que as outras em circulação. Esse fator foi atribuído ao produto por uma questão lúdica, causada pela estranheza do episódio.

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Prisão de Stephen Skelton, cozinheiro do Solana Star | Foto Guilherme Pinto – Arquivo O Globo (26-09-1987)

Na época, pela popularidade da droga, a maconha era classificada em diversos tipos, cada um com suas características. Dentre os mais comuns estavam o tipo “rabo de raposa“, que apresentava um cor dourada, proveniente da Bahia; e o tipo “cocô de bode“, que vinha prensada no formato de ‘bolinhas pretas‘, consideradas uma especiaria.

Ainda, naquela época, começavam a chegar por aqui a maconha prensada no Paraguaí, com selo de identificação, e muitos outros tipos. A droga enlatada só veio ampliar o imaginário, devido ao episódio inusitado, à gratuidade da maconha para quem encontrasse a lata e à visibilidade conferida pela imprensa.

Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

Policiais recolhem latas encontradas por banhistas em Ipanema, na Zona Sul do Rio | Foto Lúcio Marreiro – Arquivo O Globo (11-10-1987)

Se o imaginário popular “viajou longe“, a fama delas foi eternizada com a música “Veneno da Lata” da cantora e compositora Fernanda Abreu. Em 2012, o escritor Wilson Aquino lançou o livro “O Verão da Lata: Um verão que ninguém esqueceu“, que aborda o assunto detalhadamente. Em 2014, o History Channel lançou o documentário “Verão da Lata”, de Tocha Alves e Haná Vaisman.

Mas a chegada das latas reluzentes as praias trouxe junto uma mudança de comportamento. O Brasil acabava de sair da ditadura, e elas serviram como uma válvula de escape, uma espécie de salvo conduto para “pirar“. Para muitos, foi uma cerimônia de libertação da sociedade após trinta anos de repressão.

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Enquanto o caso ganhava destaque absoluto na mídia durante aquela temporada, a polícia e a justiça faziam sua parte para solucioná-lo. O navio só foi localizado quando já estava atracado no porto do Rio de Janeiro e todos os sete tripulantes (cinco americanos, um haitiano e um costarriquenho), haviam fugido do Brasil, só restando um deles, que se declarou cozinheiro do Solana Star.

Identificado como Stephen G. Skelton, ele deveria ter saído do país junto com os outros comparsas, mas se apaixonou por uma brasileira e permaneceu em terras tupiniquins. A paixão de verão custou caro e ele foi preso e condenado a vinte anos de prisão, mas cumpriu apenas um ano. O STF (Superior Tribunal Federal) considerou falta de provas para mantê-lo preso e o libertou, porém o expulsou do país.

Verão da Lata, um verão que ninguém vai esquecer

Ao final, a ação conjunta das Polícias Militar, Federal e até a Marinha conseguiu apreender apenas 3.292 latas das quinze mil que foram jogadas no oceano. A maioria delas foram recuperadas por banhistas e pessoas que as encontravam boiando no mar e posteriormente, as vendiam por bons preços devido a sua qualidade. Se o produto chegasse ao destino final teria rendido cerca de 90 milhões de dólares aos traficantes.

Com a conclusão do caso, o navio foi confiscado em novembro de 1987 por determinação da Justiça do Rio de Janeiro. Ele foi leiloado dois anos depois, em 1989, quando foi comprado por um empresário que pretendia transformar o barco em iate de luxo. Por falta de dinheiro, no entanto, ele acabou sendo vendido novamente em 1992, para uma empresa de rebocadores que decidiu transformar a embarcação em barco de pesca de atum.

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No final, a embarcação de bandeira japonesa, teve um final trágico. Por uma infeliz coincidência, o barco afundou justamente na mesma região onde anos antes foi despejada a carga de maconha. Em sua primeira viagem após o episódio, com destino a Santa Catarina, foi surpreendido pelo mau tempo e naufragou em outubro de 1994 na região de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, matando onze tripulantes, das 31 pessoas a bordo.

Um rompimento de uma chapa do setor de proa, no fundo do barco, teria sido a causa do afundamento. Na época, um dos sobreviventes contou que a queda de um balde com toneladas de sardinha dentro do barco teria causado o rompimento.

Verão da Lata
Reportagem sobre o ocorrido pelo Jornal do Brasil

O navio está hoje numa profundidade de 65 metros, praticamente intacto. Devido a curiosidade gerada pela sua história, o Solana Star transformou-se num point para mergulhadores experientes que pagam cerca de 400 reais para visitar o maior protagonista do verão mais doidão que já existiu.

Muitos acreditam que o destino trágico do navio se deve a uma antiga maldição dos mares. Muitos pescadores acreditam que não se deve mudar o nome de uma embarcação, porque está fadada ao naufrágio. O Solana Star foi lançado ao mar em 1973, com o nome de Foo Lang III. Em 1980, passou a ser chamado de Geraldtown Endeavour. Em 1986, recebeu o nome de Solana Star e em 1990 virou Charles Henri e afundou com o nome de Tuna Mar.

Fontes: 1 2 3

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2 Comentários

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  2. Amauri

    10 de setembro de 2019 às 16:37

    Não sei, Vivia nessa época no litoral e não vi nenhuma lata dessas. Se existiram, foram todas recuperadas

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