Guerra

Zone Rouge, as zonas proibidas da França

Zone Rouge, as zonas proibidas da França

Em áreas ao longo do nordeste da França, que no passado perfaziam um total de mais de 1.200 quilômetros quadrados e atualmente 100 quilômetros quadrados (aproximadamente o tamanho da cidade de Paris), onde na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ocorreu a sangrenta Batalha de Verdun, que vitimou mais de 700.000 soldados alemães e franceses e varreu do mapa nada menos que nove vilas, há áreas que permanecem isoladas e com acesso proibido, cercadas com altas cercas de arame farpado, devido a incalculável quantidade de explosivos não detonados (incluindo armas químicas) e munição enferrujada, bem como restos humanos e de animais mortos nos conflitos que se espalham pelas áreas. O solo e fontes de água estão altamente contaminados por chumbo, mercúrio, zinco, arsênico (chumbo, arsênico e mercúrio não são biodegradáveis) e gases químicos advindos das bombas, granadas de gás e dezenas de outros tipos de explosivos.

Zone Rouge, as zonas proibidas da França

A região conhecida como Zone Rouge (Zona Vermelha) continuou a fazer suas vítimas após o fim da guerra, sendo comum um ou outro explosivo levar pelos ares, animais, tratores e pessoas. Também era comum, pessoas ficarem doentes, por comerem produtos vindos dessas áreas e somente depois de 2004, quando pesquisadores descobriram níveis até 300 vezes maiores do que o permitido de arsênico na água da região e níveis elevados de chumbo registrados em alguns animais, especialmente em fígados de javalis caçados, é que o acesso e a produção agrícola nessas áreas foram proibidas a partir de 2012.

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Local onde era a vila Douaumont, totalmente destruída na Primeira Guerra Mundial

Alguns lugares como Ypres e Woëvre, 99% de todas as plantas morreram ao longo do tempo após os conflitos e amostras do solo, registraram 17% de arsênico contido no solo. Tais áreas dentro da Zona Vermelha são conhecidas como “Place-à-Gaz“. Também em 2012, foi emitido um decreto proibindo o consumo de água potável em 544 municípios da área, devido aos níveis excessivos de perclorato, sendo 90% utilizados na fabricação de explosivos e foguetes. Cada um desses municípios afetados pela proibição, ficam exatamente nos locais das linhas de frente, dos principais locais de batalhas durante as duas grandes guerras mundiais.

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O governo francês formou uma agência especial dedicada ao problema, chamada Department du Deminage e com o tempo eles conseguiram reduzir o tamanho da Zona Vermelha e limpar áreas menos afetada para uso civil e agrícola. Infelizmente, em alguns casos, isso foi tarde demais. A cada ano, dezenas de bombas não detonadas são recuperadas. Na região de Verdun, placas na beira da estrada, indicam lixeiras para que os agricultores possa deixar explosivos encontrados por eles, para serem recolhidos pelas autoridades. Outros, simplesmente deixam as bombas e granadas acumuladas nas margens dos campos onde trabalham, na esperança de impedir que pessoas em busca de metais mais valiosos, como cobre e latão, procurem eles mesmos ou colecionadores atrás de relíquias militares. Em teoria, não se deve mover bombas e munições encontradas e notificar imediatamente os serviços de remoção, mas eles respondem à situação de acordo com os locais da descoberta e sua periculosidade.

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Local onde havia uma igreja

As autoridades chamam isso de “colheita de ferro”, em que cerca de 900 toneladas de explosivos não detonados, são recuperados a cada ano pelos agricultores belgas e franceses após ararem seus campos. De acordo com a agência de Segurança Civil, no ritmo atual, poderá levar de 300 a 700 anos para limpar totalmente a regiões e assim, o governo francês em vez de limpar algumas áreas mais críticas, decidiu deixar a natureza agir, evacuando as pessoas das áreas e proibindo totalmente o acesso, tornando-o as uma região fantasma.

Até meados da década de 1970, grande parte da remoção de explosivos não detonados eram feitas apenas superficialmente, destruindo centenas de milhares de bombas convencionais e químicas, sem considerar os vazamentos e contaminação do solo e da água. A quantidade alarmante de detritos de chumbo espalhados por estilhaços (algumas bombas e granadas podiam conter 300 esferas de chumbo) também foram deixados no local, contaminando o solo com chumbo não biodegradáveis, mercúrio e zinco e as estimativas dizem que continuará contaminando ainda por mais 10.000 anos. Ainda hoje, em algumas áreas onde existem lavouras, em apenas alguns minutos se consegue pegar centenas de grama de chumbo, numa única pá fincada na terra.

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Limpar a zona vermelha é um trabalho extremamente perigoso, e baixas não são incomuns entre os removedores de artefatos explosivos

Em 1923, o exército francês se livrou de 3.000 toneladas de munição da guerra, jogando-as em uma cavidade natural localizada no planalto de Jura, onde a 128 metros abaixo, contem uma fonte de água subterrânea que abastece a região de Département du Doubs, tal lugar agora é monitorado constantemente pelas autoridades.

Após a Primeira Guerra Mundial, às áreas da região se converteram rapidamente em lavouras e pastagens para animais. Há registros que a primeira fazenda de porcos se instalou em 1929, perto do local onde ocorreu a Batalha de Verdun e ocupava uma área de 25 hectares, cheia de crateras de bombas, com os resíduos químicos dos explosivos contaminando o solo e a água. Não é a toa, que a palavra francesa “Verdunisation“, uma referência ao uso do cloro no tratamento da água potável, que se originou em Paris em 1911, partiu desta região.

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Enquanto isso, aldeias e vilas que ficam nos limites das zonas vermelhas tentam tirar o melhor que podem desta desastrada situação feita pela bestialidade humana. Para compensar todas as áreas em quarentena, que provavelmente nunca poderão mais habitar ou explorar comercialmente, e nem por os pés nos próximos anos, alguns moradores tiram proveito da história militar da região.

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Café e restaurante Le Tommy

Em Pozières, uma das aldeias que foi completamente destruída na Primeira Guerra Mundial e posteriormente uma das poucas autorizadas a serem reconstruídas, há um café e um restaurante chamado “Le Tommy”, que reconstruiu uma trincheira da guerra em seu jardim, para a apreciação dos turistas, dedicado ao sacrifício das tropas aliadas. Muitos moradores se mantém ocupados, explorando a regiões atrás de artefatos de guerra, recolhidos ao longo dos anos e mantendo-os em seus próprios museus privados de guerra e ou fornecendo peças para museus turísticos locais.

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Local onde em 1923, o governo francês se desfez de 3.000 toneladas de munição da Primeira Guerra Mundial

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Determinadas áreas, 99% da fauna e flora pereceram

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Preparando bombas e minas para serem explodidas controladamente

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Explosão controlada de artefatos explosivos da Primeira Guerra Mundial

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Bombas recortadas e réplicas para mostrar como é a composição da pólvora e chumbo no interior

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Área contaminada de 20 hectares abandonadas pela Sociedade Francesa de Recuperação de Munição, que faliu em 2006. Ninguém sabe o efeito dessa poluição e quando a área será limpa

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Terreno que ocorreu a sangrenta Batalha de Verdun

Crédito das fotos: Olivier Saint Hilaire

Fontes: 1 2 3

Leia também: As cicatrizes da Batalha de Verdun

“Tudo o que o homem não conhece não existe para ele. Por isso, o mundo tem para cada um o tamanho que abrange o seu conhecimento”. – Carlos Bernardo González Pecotche

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Me chamo Júlio César e moro em Porto Belo, Santa Catarina. Sou o idealizador do site Magnus Mundi, uma revista digital feita para pessoas que gostam de ler e saber mais profundamente sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos pelo mundo afora, bem como lendas, eventos e outros assuntos inusitados.

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