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Joshua Slocum, o capitão que navegou pelo mundo e não sabia nadar

Joshua Slocum, o capitão que navegou pelo mundo e não sabia nadar

De repente, nuvens cinzentas encobriram o céu e uma chuva de granizo metralhou as embarcações que navegavam pela costa leste dos Estados Unidos, seguida por um tornado que avançou sobre Nova York, estilhaçando prédios e árvores. Mesmo os grandes navios atracados nas docas romperam as amarras e bateram uns contra os outros. Quatro dias depois, numa noite em que os trabalhadores do cais ainda se refaziam do susto, um pequeno e mal iluminado barco, com as velas já desgastadas pelo tempo, surgiu ao longe e ancorou tranquilamente no porto de Boston. Não se tratava, porém, de um veleiro qualquer: era o Spray, comandado por Joshua Slocum, o obstinado capitão que, ao retornar para aquele mesmo local de onde partira há mais de três anos, tornou-se o primeiro homem a dar a volta ao mundo navegando solitário. Ou seja, completamente sozinho num barco a vela.

Joshua Slocum

Ei, vejam só! É o Spray“, alguém gritou, surpreso ao reconhecer o marinheiro barbudo e magricela como seno o teimoso capitão Slocum. A extraordinária jornada solitária daquele navegante tinha levado exatos três anos, dois meses e dois dias, período em que ele navegou 46 mil milhas náuticas (cerca de 85 mil quilômetros) em torno do globo, escapando de ventos traiçoeiros, tempestades capazes de arruinar o casco de embarcações robustas e de piratas. Toda a aventura foi cumprida com apenas um compasso, surradas cartas marítimas, um relógio com mostrador quebrado, pouquíssimas ferramentas de manutenção e só. Isso, sem falar na curiosa limitação que o próprio lobo-do-mar admitia ter: ele não sabia nadar!

Se nos dias de hoje – apesar da parafernália tecnológica disponível para enfrentar o mar – continuam os desaparecimentos de velejadores solitários, naquela época, a façanha de Slocum soou como algo inacreditável. “Impossível”. Foi o que teve que ouvir até que exibisse todos os papéis carimbados em mais de 20 países e portos espalhados por terras distantes por onde passara.

Slocum, diziam, sempre tivera um caráter fora do comum. Nascido num 20 de fevereiro muito frio de 1844, na cidade canadense de Nova Escócia, aos 16 anos ele se revoltou com o pai autoritário e fugiu para os Estados Unidos, onde naturalizou-se cidadão norte-americano e tornou-se capitão aos 25 anos, quando recebeu o comando de um veleiro. Depois disso, nunca mais conseguiu viver longe do mar. A partir daquele ano de 1869 viajou sem parar entre os Estados Unidos e a China, a Austrália e o Japão. Numa passagem por Sidney, casou-se com Virgínia Walker, que acompanhou parte de suas viagens mundo afora. Em 1884, lançou-se numa viagem à América do Sul acompanhado da mulher e dos 5 filhos. Foi uma época fatídica: Virgínia morreu em Buenos Aires e, ainda abalado, ele acabou naufragando seu veleiro na baía de Paranaguá, no Paraná. Munido de apenas um machado, Slocum foi às matas brasileiras, derrubou árvores e sozinho fez um barco de 10 metros – o Liberdade -, que levou ele os filhos de volta para casa.

Joshua Slocum, o capitão que navegou pelo mundo e não sabia nadar

Dois anos após aquela trágica passagem pela América do Sul, Slocum, casado pela segunda vez e sem dinheiro para sustentar os filhos, resolveu se tornar escritor. Transformou a travessia entre o Brasil e os Estados Unidos em livro (A viagem do Liberdade), o que, entretanto, não amenizou as dificuldades financeiras em que estava metido. Foi em 1892, entretanto, que a vida de Slocum deu uma guinada repentina.

Durante três anos, ele derrubou carvalhos, pinhos e cedros para transformar uma velha carcaça, presenteada por um amigo, no veleiro Spray (um simples “borrifo” em português), que se tornaria seu companheiro inseparável até o misterioso desaparecimento de ambos, em 1909. Até hoje não se sabe exatamente quando ele resolveu dar a volta ao mundo. Mas no dia 24 de abril de 1895, com o vento favorável, o comandante e seu barco se afastaram de Boston em direção ao Estreito de Gibraltar, próximo a Espanha. “Aceitara poucos conselhos…afinal, o melhor dos marinheiros poderia fazer pior do que eu“, anotou em seu diário nos primeiros dias de viagem.

Joshua Slocum, o capitão que navegou pelo mundo e não sabia nadar

Os planos de Slocum eram de navegar sempre em direção ao leste. Mas o aviso de que havia muitos piratas na costa africana, somado à forte corrente marítima que o surpreendeu na altura das Ilhas Canárias, fizeram com que mudasse de rumo. Com a atenção voltada para o vento, que sacudia todas as tábuas do Spray, o comandante não notou a aproximação sorrateira de um barco de piratas. Por sorte, uma onda gigantesca colheu o pequeno veleiro e jogou-o para a frente. Tentando controlar o Spray como se fosse um cavalo selvagem, Slocum viu pela última vez os bandidos lutando para manter em pé a embarcação pirata sobre o mar bravio. Então o vento soprou firme, os mastros envergaram e, em 40 dias, Slocum chegou ao Rio de Janeiro. “Colombo, há mais de 400 anos, não fora tão feliz e nem tão confiante no sucesso do que empreendera“, escreveu.

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A partir do Brasil, no entanto, ele enfrentaria um dos trechos mais dramáticos de toda a sua jornada: a travessia do Estreito de Magalhães, a perigosa passagem em direção ao Pacífico, que separa a massa continental da América do Sul da Terra do Fogo. Slocum entrou nesse estreito em fevereiro de 1896 e foi recepcionado pelo pior que a natureza podia oferecer: rajadas violentas, ondas agressivas e uma chuva de granizo que lhe cortou o rosto. Cansado do embate que durou horas, o comandante acabou cometendo um erro que poderia ter sido fatal. Sem querer, mudou a rota para o leste e encontrou um mar ainda mais feroz no Cabo Horn, no extremo sul da América do Sul. Conseguiu, porém, retornar ao estreito e dois meses depois, finalmente, entrou no Pacífico.

Pouco antes de sair daquele purgatório marítimo – foi a maior provação do Spary durante toda a expedição -, Slocum se valeu de um truque para enganar os selvagens que tentaram atacá-lo em Punta Arenas, no Chile. Ao perceber a aproximação de uma canoa, o marinheiro foi por três vezes ao convés para trocar de roupa e aparecer rapidamente em disfarces diferentes. Na última vez, surgiu empunhando um rifle. Julgando ser um barco conduzido por várias pessoas, os nativos deixaram de lado o plano de assalto.

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Nem sempre, porém, havia ação. A viagem até a Austrália, por exemplo, passando por Samoa, foi uma daquelas velejadas tranquilas. E, sem ter muito o que fazer quando chegou àquele país, o aventureiro resolveu dar palestra, cobrando ingressos dos interessados em ouvir sobre sua viagem.

Slocum se valeu desse mesmo artifício para ganhar alguns trocados nas Ilhas Maurício, já no Oceano Índico, próximo da costa africana. Logo após deixar essa ilha, entretanto, ele precisou vencer um furacão na Canal de Moçambique, onde se viu no meio de uma tempestade de relâmpagos e trovões, que parecia não ter fim. Não bastasse as intempéries da natureza, na África do Sul teve que enfrentar o mal-humor do presidente Johannes Kruger. Ao participar de uma das palestras de Slocum estava fazendo naquele país, Kruger duvidou, em público, de várias das histórias contadas pelo marinheiro – o que fazia dele um grande charlatão. Cansado desse tipo de incredulidade, zarpou do continente africano em direção ao Caribe.

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Em maio de 1898, porém, Slocum já estava perto de realizar a façanha a que se propusera. Mas poderia ter morrido por uma razão estúpida, já que naqueles dias, na região do Caribe, os Estados Unidos travavam uma guerra contra a Espanha. E era ali que o Spray cruzava de volta para casa. Para qualquer direção que velejasse poderia dar de cara com navios de guerra. Por pura sorte, um vento o empurrou para longe dos conflitos militares. Essa sorte, mais uma vez, não o abandonaria – e nem ao Spary – quando escapou do tornado que desabou sobre Nova York, pouco antes do espetacular regresso ao porto de Boston. “Só Deus sabe o que passamos”, disse aos marujos, atônitos, que estavam ali, na madrugada do dia 27 de junho de 1898.

Joshua Slocum, o capitão que navegou pelo mundo e não sabia nadar

Em 1909, aos 65 anos, sem conseguir se adaptar à vida em terra firme, Slocum saiu para uma nova aventura: iria navegar pelo Rio Orenoco, na Venezuela, e depois pelo Amazonas, no Brasil, até alcançar o Atlântico. Foi sua última viagem. Ainda hoje, o desaparecimento dele e do Spray é um mistério. Não há registros sobre o local ou a data em que foram tragados pelas águas. Mas independente da situação que tirou-lhe a vida, é provável que Slocum a tenha enfrentado com toda a tranquilidade. No seu livro “Velejando Solitário ao Redor do Mundo”, o bravo capitão, após quase morrer num vendaval, deixou registrado: “Qualquer que tenha sido o perigo, posso garantir com toda a franqueza que aquele foi um dos momentos mais serenos de toda a minha vida”.

As aventuras de um navegante no Brasil

Depois de cinco meses navegando pelo Oceano Atlântico, o capitão Joshua Slocum sentiu-se aliviado ao avistar o litoral brasileiro. A sua viagem estava só no começo e, no dia 15 de setembro de 1895, ele atracou num pequeno porto ao norte de Olinda, em Pernambuco. Não era, porém, a primeira vez que o velho marinheiro vinha ao Brasil.

Joshua Slocum, o capitão que navegou pelo mundo e não sabia nadar

Slocum já navegara muitas vezes ao longo da costa do país, mas suas experiências por aqui não foram nada boas. Entre 1884 e 1887, como dono do barco Aquidneck, transportou mercadorias de Buenos Aires para o Rio de Janeiro, acompanhado da esposa Virgínia Walker e dos cinco filhos. Aquele período, no entanto, foium dos mais difíceis de sua vida: Virgínia morreu, ele pegou varíola e ainda perdeu o Aquidneck, naufragado na baía de Paranaguá. Ali, Slocum viveu numa cabana à beira-mar por quase meio ano. No dia 13 de maio de 1888 – dia da abolição da escravatura no Brasil -, ele entrou no mar com um novo barco, o Liberdade, e, dois meses depois, estava de volta à sua casa, em Boston, nos Estados Unidos.

Mas Slocum viria novamente ao Brasil. Em 1893, quando já estava completamente absorvido pelo projeto de volta ao mundo, foi contratado para levar o navio Destroyer de Nova York até o Rio de Janeiro, onde receberia o pagamento diretamente do governo brasileiro, o comprador da embarcação. Slocum trouxe o Destroyer mas não encontrou quem deveria pagá-lo e nem viu o dinheiro. Dois anos mais tarde, aproveitando uma escala de sua jornada no Rio de Janeiro, resolveu cobrar a velha dívida. Procurou ministros e altos oficiais do governo, mas o máximo que conseguiu foi uma provisão de frutas e legumes para sua viagem. Mesmo assim, doada por amigos cariocas.

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Fonte: Revista Terra

“Tudo o que o homem não conhece não existe para ele. Por isso, o mundo tem para cada um o tamanho que abrange o seu conhecimento”. – Carlos Bernardo González Pecotche

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Meu nome é Julio Cesar, e sou de Santa Catarina e idealizador do site Magnus Mundi. O site tem como objetivo informar sobre lugares curiosos, estranhos ou inóspitos e também histórias, lendas, eventos inusitados pelo mundo afora.

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