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A infame bota homenageada nos Estados Unidos

A infame bota homenageada nos Estados Unidos

Um memorial da Guerra Revolucionária Americana no Saratoga National Historical Park, em Nova Iorque chama a atenção porque existe uma única bota esculpida em pedra, com uma placa dizendo: “Em memória do soldado mais brilhante do Exército Continental que foi ferido seriamente neste local, conquistando para seus conterrâneos a batalha decisiva da Revolução Americana e para si mesmo o posto de Major General.

O que chama a atenção, não é só a bota em si, mas também que o memorial não leva o nome de ninguém especificamente. Mas entende-se que ele honra o General Benedict Arnold (1741-1801), que lutou nas Batalhas de Saratoga pelo Exército Continental. O Major General Benedict Arnold é considerado o traidor mais infame da Guerra de Independência dos Estados Unidos. Mas como um pessoa ilustre da história americana é lembrado nessa forma? Para termos essa resposta, só mesmo dando uma passada pela história da pessoa em questão.

A infame bota homenageada nos Estados Unidos

O memorial da bota | Crédito da foto

Arnold nasceu na colônia de Connecticut e se tornou um próspero comerciante marítimo, casou-se com Margaret Mansfield e com ela teve três filhos. Quando a Guerra Revolucionária eclodiu entre a Grã-Bretanha e suas treze colônias americanas, Arnold se juntou ao Exército Continental em Boston e se distinguiu por sua inteligência e bravura. Arnold foi crucial na captura da guarnição britânica em Forte Ticonderoga, no norte do Estado de Nova Iorque em maio de 1775.

Mais tarde naquele ano, Arnold liderou uma expedição em uma jornada do Maine até Quebec em pleno inverno. O objetivo era privar as tropas britânicas de uma base ao norte das 13 colônias. Tentou fazer a população canadense se voltar contra os britânicos, como não conseguiu, lançou um ataque a cidade. Nessa batalha, ele feriu sua perna, sendo afastado da luta em que centenas de americanos foram mortos, feridos ou capturados, e o Canadá acabou sendo uma base britânica.

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Major General Benedict Arnold

Em 1776, Arnold recuperou-se suficientemente de sua ferida para voltar a ocupar seu posto. Ele desempenhou um papel importante em impedir uma invasão britânica do Canadá a Nova Iorque no outono daquele ano. Prevendo que o General britânico Guy Carleton iria trazer uma força invasora pelo Lago Champlain, Arnold supervisionou a construção apressada de uma flotilha americana para defender o lago e surpreendeu seu inimigo perto da baía da ilha de Valcour. Embora essa batalha não tenha sido vitoriosa, mas a ação de Arnold atrasou a abordagem de Carleton por tempo suficiente para que, quando o general britânico chegasse a Nova Iorque, a temporada de batalha estivesse chegando ao fim e os britânicos voltassem para o Canadá. O desempenho de Arnold na Batalha do Lago Champlain resgatou a causa patriota do desastre em potencial.

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Memorial Gorton dedicado aos defensores que caíram durante a Batalha de Groton Heights

Apesar de seu serviço heroico, Arnold sentiu que não recebia o reconhecimento que merecia. Ele renunciou ao Exército Continental em 1777, depois que o Congresso promoveu cinco oficiais subalternos e não ele. O general George Washington, comandante em chefe do Exército Continental, convenceu Arnold a reconsiderar. Assim ele voltou ao exército a tempo de participar da defesa do centro de Nova Iorque de uma força britânica invasora do general John Burgoyne, que ficou conhecida com a Batalha de Saratoga.

Nessa luta contra Burgoyne, Arnold serviu sob o comando do general Horatio Gates, um oficial que Arnold chegou a desprezar. A antipatia era mútua e Gates a certa altura livrou Arnold de seu comando. Não obstante, na Batalha de Bemis em outubro de 1777, Arnold desafiou a autoridade de Gates e assumiu o comando de um grupo de soldados americanos que liderou em um ataque contra as tropas britânicas. O ataque de Arnold desnorteou o inimigo e contribuiu grandemente para a vitória americana. Dez dias depois, Burgoyne entregou todo o seu exército em Saratoga.

As notícias da rendição convenceram a França a entrar na guerra ao lado dos americanos. Mais uma vez, Arnold havia trazido seu país um passo mais perto da independência. No entanto, Gates minimizou as contribuições de Arnold em seus relatórios oficiais e reivindicou a maior parte do crédito para si mesmo. Enquanto isso, Arnold feriu gravemente a mesma perna que ele havia ferido em Quebec. Tornado temporariamente incapaz de um comando de campo, ele aceitou a posição de governador militar da Filadélfia em 1778. Enquanto estava lá, suas lealdade ao seu país começou a mudar.

Durante seu mandato como governador, circularam rumores, não totalmente infundados, que acusava Arnold de abusar de sua posição para seu lucro pessoal. Também foram levantadas questões sobre o namoro e casamento de Arnold com a jovem Peggy Shippen, filha de um homem suspeito de trabalhar para os britânicos. Arnold e sua segunda esposa, com quem teve cinco filhos, viveram um estilo de vida luxuoso na Filadélfia, acumulando dívidas substanciais. A dívida e o ressentimento que Arnold sentia por não ter sido promovido mais rapidamente eram fatores motivadores em sua escolha de se tornar um vira-casaca.

Ele concluiu que seus interesses seriam melhor atendidos pelos britânicos do que continuar sofrendo por um exército americano que ele considerava ingrato. Arnold também ficou frustrado com a aliança com a França (um regime absolutista tirânico) e a falha do Congresso em aceitar a proposta de paz britânica de 1778, que daria um auto-governo as colônias, mas manteria seus laços com a Coroa. Tais ações ajudaram ele a decidir mudar de lado.

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Memorial em Saratoga que homenageia 4 generais, porém um dos espaço está vago | Crédito da foto

Em julho de 1780, ele recebeu do presidente George Washington o comando do forte West Point em Nova Iorque e iniciou negociações secretas com os britânicos para entregar o forte, em troca de dinheiro e de um comando no exército britânico. O principal intermediário de Arnold foi o major britânico John André. André foi capturado em setembro de 1780, enquanto cruzava linhas britânicas e americanas, disfarçado de civil e com ele, foram encontrados documentos que revelavam o esquema. Após saber da captura de André, Arnold fugiu pelo rio Hudson até encontrar o navio HMS Vulture, evitando por pouco a captura pelas forças do general George Washington, que havia sido alertado da situação. West Point permaneceu nas mãos dos americanos, e Arnold recebeu apenas uma parte de sua recompensa prometida. André foi enforcado como espião em outubro de 1780.

Arnold logo se tornou uma das figuras mais detestadas da história dos EUA. Ironicamente, sua traição se tornou seu serviço final para a causa americana. Em 1780, os americanos ficaram frustrados com o lento progresso em direção à independência e suas numerosas derrotas no campo de batalha. No entanto, a palavra da traição de Arnold revitalizou o moralismo dos Patriotas.

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Ilustração com Benedict Arnold

Arnold liderou tropas inglesas em ataques contra os mesmos homens que ele comandou na Virgínia e em New London e Groton, no sul de Connecticut, antes da guerra acabar na vitória americana em Yorktown. No inverno de 1782, ele se mudou para Londres com sua esposa. Em 1787, Arnold voltou ao negócio mercantil junto com seus filhos Richard e Henry em Saint John, no Canadá. Ele eventualmente retornou para a Inglaterra, se assentando em Londres de forma permanente em 1791, onde viria a morrer uma década mais tarde, aos 60 anos.

A história é relatada que quando Arnold liderava as forças britânicas contra seus antigos compatriotas na Virgínia, entre seus prisioneiros havia um oficial conhecido, em resposta à pergunta de Arnold: “O que os americanos farão comigo se me pegarem?” respondeu: “Eles vão cortar a perna que foi ferida quando vocês estava lutando tão gloriosamente pela causa da liberdade, e enterrá-la com todas as honras militares, e pendurar o resto de seu corpo em uma forca.”

De fato, o memorial da bota em Nova Iorque homenageia apenas o pé ferido de Arnold, que tinha sido alvejado e machucado durante as batalhas, mas não menciona o seu nome. O monumento a vitória em Saratoga, um obelisco de pedra tem quatro nichos para homenagear quatro generais. Três deles estão ocupados por estátuas, mas o quarto nicho, onde uma estátua de Arnold deveria aparecer, esta vazio. Da mesma forma, na Academia Militar dos Estados Unidos, em West Point, há placas comemorativas de todos os generais que serviram na revolução. Uma das placas tem apenas uma classificação e uma data, mas nenhum nome e diz: “Major General…nascido em 1970“.

Já no Memorial Gorton, dedicado aos defensores que morreram durante a Batalha de Groton Heights, uma placa diz: “Em memória dos bravos patriotas massacrados em Forte Griswold, próximo a este local em 6 de setembro de 1781, quando os britânicos, sob o comando do traidor Benedict Arnold, incendiaram as cidades de New London e Groton e espalharam a desolação e a dor por toda a região.

A verdade era que, se tivesse a sorte de morrer no campo de Saratoga, ele seria um dos nossos grandes heróis americanos. Infelizmente para ele, e para New London, que ele incendiou após se tornar um traidor, ele não morreu em Saratoga“, disse Dale Plummer, historiador de Norwich, a cidade onde Benedict Arnold nasceu.

A aversão por Benedict Arnold é tão grande em sua cidade natal que, nos manuscritos dos registros de nascimento da cidade, alguém escreveu “esse foi o traidor” sobre seu nome. Um morador de Norwich e ex senador estadual disse que foi suspenso do ensino médio em 1948, depois de escrever um artigo relatando as realizações militares de Arnold, e como fizeram dele o americano mais valioso que já existiu.

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Ilustração da rendição do general britânico John Burgoyne em 17 de outubro de 1777. A figura central é Horatio Gates | Crédito da foto

Mas agora há um movimento crescente em todo o país para reconhecer o papel de Arnold na história da independência americana. Na década de 1990, Norwich ergueu o primeiro monumento no local onde era a casa de Arnold. No escritório de turismo da cidade, há lembranças peculiares como uma caneca que mostra o rosto de Arnold e a palavra patriota. Mas quando a água quente é despejada na caneca, a palavra traidor aparece.

Marcadores históricos que lembram dele pelo nome também aparecem em vários locais, como em Danvers, Massachusetts, comemorando a expedição bem sucedida de 1775 de Arnold a Quebec, e outro no Lago Champlain, em Nova Iorque, e dois em Skowhegan, Maine. A casa onde Arnold viveu no centro de Londres tem uma placa descrevendo-o como um “Patriota Americano“. O clube de professores da Universidade de New Brunswick, na cidade canadense de Fredericton, há até uma sala “Benedict Arnold“, com cartas escritas por Arnold expostas em quadros nas paredes.

Fontes: 1 2 3

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