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O mundo simples e solitário dos Amish

O mundo simples e solitário dos Amish

No tourist, no cameras, no photos, please.” O cartaz na vitrine da loja de equipamentos equestres não deixava nenhuma dúvida sobre o que o dono pensava de bisbilhoteiros. Antes que as aparências enganem, um aviso: não estamos falando de uma terra hostil. Pelo contrário. A hospitalidade é uma marca registrada das enigmáticas pessoas que vivem no vilarejo de Intercourse, bem no centro do Condado de Lancaster, no Estado americano da Pensilvânia.

O lugar é um dos principais redutos da comunidade Amish, a maior e mais conservadora facção de um grupo conhecido como plain people (pessoas simples), religiosos ortodoxos que deixaram a Europa para refugiar-se com seus costumes puritanos no interior dos Estados Unidos. O outro grupo de plain people são os menonitas, que vivem em muitas regiões lado a lado com os Amish, mas têm um comportamento um pouco menos radical. Amish e menonitas fixaram-se na América há quase 300 anos. E adaptaram-se ao país mais moderno do mundo mesmo vivendo como se ainda estivessem no século 17.

O mundo simples e solitário dos Amish

Os trajes conservadores distinguem de imediato os Amish dos demais habitantes dessa região predominantemente rural do interior americano. Há séculos, os homens só usam o mesmo tipo de roupa, por eles mesmos confeccionadas: calça preta ou azul escura, camisa azul, colete preto sem bolsos, suspensórios e chapéu preto de feltro ou de palha. Por tradição, os mais velhos cultivam uma longa barba, mas raspam o bigode – traço característico dos antigos militares e, por isso mesmo, banido pelos Amish.

Mulheres e meninas andam com os longos cabelos presos sob um boné de organdi branco, blusas de manga comprida e saias roxas ou azuis que chegam até o meio da canela. Por cima, um avental preto ou branco. Frivolidades como roupas estampadas e joias são abominadas e até os botões, considerados enfeites, não fazem parte do vestuário feminino. Quando é preciso, elas usam alfinetes – menos nas roupas das crianças, as únicas que, por segurança, tem botões.

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Por trás dos trajes antiquados e dos hábitos espartanos resiste uma filosofia religiosa profundamente enraizada, à qual os Amish aderem com ferrenha determinação. Para eles, a vida se explica pela Bíblia, de cuja interpretação provém, entre outras características, a falta de vaidade e a aversão à tecnologia. Os Amish não precisam de luz elétrica – computadores, televisão ou telefone são equipamentos que consideram uma ameaça ao equilíbrio da família e da religião.

Também não dirigem veículos motorizados, apesar de trafegarem pelas estradas da Pensilvânia com suas bugies, chacretes de capota preta puxadas por cavalos trotadores e equipadas. Com pisca-pisca, faróis e um triângulo vermelho na rabeira, tudo para alertar os automóveis dos “ingleses” – é assim que os Amish se referem aos que não pertencem à sua seita, sejam eles americanos ou não.

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Os Amish são bons negociantes e não têm nenhuma aversão ao dinheiro, mesmo sem usar cartões de crédito ou cheques – no comércio deles, tudo tem que ser pago em dinheiro. É uma maneira de simplificar as relações entre eles e evitar qualquer ligação burocrática com instituições bancárias ou mesmo com o Estado. Eles também recolhem impostos, embora a contragosto, porque não usufruem de nenhum benefício e nem aceitam ajuda governamental para nada.

Os Amish, por exemplo, não costumam ir a hospitais, apesar de ficarem doentes como qualquer ser humano. À exceção de casos mais graves, eles preferem se tratar dentro de casa. Até os partos são feitos em seus lares, pelas parteiras – e são muitos, já que eles não usam nenhum tipo de contraceptivo e cada família tem, em média, oito ou nove filhos. Diante dessa despreocupação com os índices de natalidade, Amish e menonitas já somam quase 110 mil pessoas dentro da Pensilvânia. A população cresce cerca de 20% ao ano e apenas 5% dos jovens abandonam a comunidade para ir vive no “mundo moderno” das grandes cidades. E, mesmo entre os que preferem partir, muitos acabam voltando.

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Afinal, não há muitos motivos para viver fora da comunidade. Para cumprir os ensinamentos da Bíblia é ser um bom fazendeiro, uma boa esposa, mãe e dona de casa, só há necessidade de estudar até o ginásio. As crianças frequentar durante oito anos uma escola construída e mantida pela comunidade, onde aprendem a ler e escrever em inglês, além do alemão, pois seus principais livros de orações e a Bíblia, numa tradução luterana, são impressos nesse idioma.

Os menonitas, que também frequentar colégios próprios, chegam a cursar universidades. Mas os Amish não dão muita importância a atividades profissionais como a medicina ou a engenharia, já que para eles o verdadeiro sentido da vida está no trabalho na terra, de onde tiram todo o sustento.

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As casas dos Amish, quase todas têm apenas três cores: marrom (como a terra), verde (a grama) e a azul (o céu). Além da imediata associação com os tons da natureza, tais cores permitem uma limpeza mais fácil das paredes. A cozinha costuma ser o lugar mais aconchegante de uma casa Amish: é lá onde todos sentam juntos nos bancos sem encostos da grande mesa, para rezar, estudar, escrever, ler, costurar, conversar.

Geralmente, a cozinha é composta de um fogão a gás, utilizado no verão, de um fogão a lenha para aquecer o ambiente durante o inverno e três pias: uma para lavar a louça, outra para verduras e legumes, é uma terceira para que os homens, ao retornar do campo na hora das refeições, possam se lavar.

Sem abrir mão desses cotidiano simples e saudável, o projeto de vida de todo Amish é ter uma fazenda e criar a família dentro da comunidade. Hábeis agricultores, eles se orgulham do trabalho no campo, onde plantam feno, milho, aveia, alfafa, tabaco e legumes e criam gado, porcos e aves. Doces e geleias caseiras são especialidades regionais, além das verduras e frutas, que podem ser compradas em quitandas montadas diante das casas.

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Todo o dinheiro que ganham é reinvestido nas fazendas e na compra de novas terras, que são herdadas pelos filhos à medida em que estes vão se casando. As proles numerosas inflacionaram violentamente os preços e, na área de Lancaster. O problema seria facilmente resolvidos se os Amish aceitassem comprar terras mais baratas em outras regiões do país. Permanecer juntos, porém, é um dos pilares de sua filosofia de vida – assim como ser banido da comunidade é o pior castigo imposto a quem quebra os mandamentos do grupo.

Unidos em cada momento, eles organizam mutirões para fazer a colheita de cada fazenda e são capazes de erguer um novo celeiro em menos de um dia, caso uma família perca o seu num incêndio ou vendaval – e quem, assistiu ao filme A Testemunha, com Harrison Ford, que se passa em parte dentro de uma comunidade Amish, sabe da solenidade desses momento. O cenário é emocionante. Como se fizessem parte de uma bem ensaiada orquestra de martelos e serrotes, os Amish, exímios carpinteiros, reúnem-se às dezenas – famílias inteiras, mulheres e crianças ajudando como podem.

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E, em poucas horas, fazem a construção brotar do solo. O que parece um milagre é, na verdade, como tudo o que cerca a vida dos Amish, algo bem mais simples: uma sólida é impressionante lição de solidariedade. Em Intercourse, Terre Hill ou outros vilarejos do Condado de Lancaster, as festas dominicais costumam reunir centenas de Amish para alegres danças e lautas refeições. É o momento em que eles celebram sua união e a fartura de seus campos cultivados.

Cristãos, puritanos e pacifistas

A história dos amish remonta ao século 16, quando surgiram na Suíça os cristãos anabatistas. Alegando que se os bebês não tinham discernimento para escolher sua fé, eles defendiam um segundo batismo na idade adulta. Pacifistas extremados, os anabatistas afastaram-se dos demais grupos religiosos e do Estado. E começaram por isso a sofrer perseguições. Sob a liderança do padre holandês Menno Simnons, o movimento cresceu rapidamente.

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Do nome do padre surgiu o termo menonitas, que passou a ser usado para designar o grupo. Em 1693, quando os menonitas já se espalharam por boa parte da Europa, principalmente Holanda e Alemanha, explodiu aprimora dissidência dentro da seita. Inconformados com o que considerava um relaxamento de princípios básicos, o padre suíço Jacob Ammann fundou seu próprio grupo, que adotaria a denominação Amish.

Um dos pilares da nova ordem era o banimento de todo membro que se afastasse das rígidas regra do grupo, a ponto de não compartilhar com eles as refeições. Para marcar o inconformismo com um mundo que consideravam cada vez mais materialista, os Amish rejeitavam tudo que fosse moderno.

Perseguidos na Europa, Amish e menonitas fugiram para a América e fundaram colônias na Pensilvânia. Vivendo na mesma região e com modos parecidos, Amish e menonitas muitas vezes foram confundidos. Ao longo dos anos, porém, ficaram mais evidentes pequenas divergências entre eles, como o uso do automóveis e telefones pelos menonitas, que também constroem e oram em igrejas, hábito que os Amish não cultivam. Seus cultos dominicais soa realizados nas próprias fazendas, num sistema de rodízio.

O mundo simples e solitário dos Amish

Texto originalmente publicado em fevereiro de 2016

Fonte: Revista Terra nº 9

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