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Porto Flavia, o porto incomum da Sardenha

Porto Flavia, o porto incomum da Sardenha

Na costa oeste da Sardenha, a segunda maior ilha do Mar Mediterrâneo, em Comune de Iglesias, Itália, havia no passado um porto suspenso chamado Porto Flavia, único no mundo. Era uma pequena abertura na face rochosa com vista para as ilhas rochosas de 132 metros de altura, conhecidas como Pan di Zucchero (Pão de Açúcar). Tal abertura ficava nas falésias calcárias acima do mar, que leva diretamente às minas de Masua, através de um túnel de 600 metros de comprimento.

O centro de Masua era um complexo de várias operações de mineração na região de Sulcis, uma região da Sardenha rica em carvão, enxofre, bário, zinco, chumbo, prata e outros metais, onde cerca de 700 mineradores trabalhavam. A extração começou em 1600, mas tornou-se economicamente relevante apenas no início dos anos 1900, quando os negócios de mineração em toda a região experimentaram uma rápida expansão. O complexo de Masua, inclui uma aldeia de mineração na encosta íngreme de Punta Cortis com escola, hospital, igreja, laboratórios e casas cercadas por vegetação localizada em diferentes alturas na encosta rochosa.

Os minérios eram levados pelas correias transportadoras até a boca do túnel, a partir do qual um braço mecânico carregava o minério diretamente em navios que esperavam abaixo. O engenhoso porto foi construído em 1924 pelo engenheiro Cesare Vecelli, que o nomeou Porto Flavia, em homenagem a sua filha.

Foto histórica

Crédito da foto: Cortesia ASM (Arquivo Histórico de Mineração, coleção digital)

Antes de o porto ser construído, o minério tinha de ser transportado das minas para a praia, onde eram embarcados em pequenos barcos com duas velas (bilancelles) e levados para o porto da ilha de Carloforte, a trinta quilômetros de distância. O minério era então armazenado nos porões dos navios a vapor, até que a carga estivesse completa para ser despachado para as fundições na França, Bélgica e Alemanha.

O processo de transporte era dispendioso, lento e perigoso, e os barcos carregados de minério afundavam frequentemente em mares tempestuosos. Em mau tempo, era necessário até dois meses para carregar totalmente um navio a vapor em Carloforte. Mesmo quando as condições eram boas, a espera não era inferior a sete dias.

Porto Flavia, o porto incomum da Sardenha

Esquema de como funciona Porto Flavia

O proprietário das minas contratou o engenheiro italiano Cesare Vecelli para que planejasse uma solução que encurtasse o tempo e os custos de carregamento nos navios a vapor. Cesare pesquisou as costas de Masua e encontrou o local perfeito no alto das falésias em frente a Pan di Zucchero. Ali, o mar era profundo o suficiente para os calados dos navios e bem protegido dos ventos e das ondas para permitir uma amarração segura, enquanto o minério podia ser carregado diretamente dos penhascos.

Foto histórica

Crédito da foto: Cortesia ASM (Arquivo Histórico de Mineração, coleção digital)

O projeto de Cesare consistia em dois túneis sobrepostos, cada um com 600 metros de comprimento, ligados por nove enormes reservatórios verticais (silos), com 18 metros de altura, para o minério processado. No túnel superior, um trem elétrico era usado para levar o minério as entradas dos reservatórios, enquanto no túnel inferior, uma correia transportadora recebia o minério dos reservatórios e o levava até a doca de carregamento, onde outra correia transportadora de uma braço móvel depositava o minério diretamente nos porões dos navios ancorados na base do penhasco.

Os reservatórios, esculpidos diretamente na rocha, eram capazes de armazenar mais de 10.000 toneladas métricas de minério. As extremidades dos túneis voltados para o mar eram adornados com torres de concreto e placas decorativas.

Entrada

Entrada para o Porto Flavia | Crédito da foto

Quando Porto Flavia entrou em operação em 1924, reduziu os custos de produção de minério em até 70%, permitindo que a empresa belga Vieille Montagne ganhasse uma forte participação de mercado em pouco tempo. A construção do porto se pagou em menos de dois anos e foi considerada uma maravilha técnica no negócio de mineração.

Outros operadores de minas não foram autorizados a usar o túnel e o porto, contando ainda com o trabalho manual ou em rotas ferroviárias mais longas. A abertura de Porto Flavia deixou muitos marinheiros de Carloforte sem emprego, prejudicando a economia da ilha vizinha.

Foto histórica

Crédito da foto: Cortesia ASM (Arquivo Histórico de Mineração, coleção digital)

As condições de trabalho em Porto Flavia eram melhores que nas minas devido a um sistema funcional de remoção de pó, boa ventilação, luz natural, maquinário de primeira classe e melhores salários. Mas houve acidentes fatais: um dos trabalhos mais arriscados foi feito pela Squadra della Morte (Esquadrão da Morte), um grupo especial de trabalho que tinha que entrar nos silos, amarrados em cordas para remover os minérios que ficavam presos nas paredes rochosas. Em condições normais, o sistema de Porto Flavia foi capaz de entregar mais de 500 toneladas métricas de minério por hora a um navio em espera.

Vista para o mar de Nebida e a ilha rochosa de Pan di Zucchero

Vista para o mar de Nebida e a ilha rochosa de Pan di Zucchero | Crédito da foto

A importância do Porto Flavia diminuiu na década de 1960, após o declínio da atividade de mineração em Sulcis-Iglesiente e uma vez que as minas fecharam definitivamente na década de 1990, o Porto Flavia também fechou. Hoje o porto é uma atração turística e um local protegido pela UNESCO. A vista deslumbrante combinada com a genialidade do trabalho confere a este sítio arqueológico industrial uma grande atração para todos os visitantes e turistas.

Porto Flavia visto de cima

Porto Flavia visto de cima | Crédito da foto

Porto Flavia, o porto incomum da Sardenha

Entrada do primeiro túnel | Crédito da foto

Porto Flavia, o porto incomum da Sardenha

Minas de Masua | Crédito da foto

Galeria de Porto Flavia

Galeria de Porto Flavia | Crédito da foto

Portão por onde entrava os minérios para serem despejados nos reservatóriosa

Portão por onde entrava os minérios para serem despejados nos reservatórios | Crédito da foto

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