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Vilarinho das Furnas: Uma aldeia romana submersa

Vilarinho das Furnas: Uma aldeia romana submersa

Vilarinho das Furnas, situada na freguesia de São João do Campo, no concelho de Terras de Bouro, no Minho, no norte de Portugal, era uma antiga aldeia que foi apagada do mapa em 1972, pela construção de uma barragem próxima, entre o vale da Serra Amarela e da Serra de Gerês, mas que são conhecidas como Terras de Bouro. Quando o reservatório de água da represa de Braga está normal, Vilarinho das Furnas fica escondida pelas águas do Rio Homem, mas não por toda a eternidade. Quando o nível das águas desce, fenômeno raro e sazonal, geralmente nos meses de verão, às edificações fantasmagóricas da vila reaparecem.

O destino cruel da vila foi súbito, mas a história do lugar está gravado pelas paredes ainda existentes depois de quase duas décadas. É sempre a mesma história – Grande empresa quer terras para um grande projeto, e consequentemente tal empresa quer às pessoas fora do lugar, para demolir suas casas. Neste caso, a grande empresa era a Companhia de Eletricidade Portuguesa e o grande projeto, era uma hidrelétrica de 125 MW.

Dezenas de pequenas cidades e vilas de todo o mundo sofreram o mesmo destino nas mãos de empresas de energia ou dos governos. Mas Vilarinho das Furnas não era qualquer aldeia. Era uma vila de mais de 2.000 anos de idade, construída durante a época romana. As origens da aldeia remontam, segundo algumas versões, a perto do ano 75, quando foi construída a estrada Geira, um caminho romano que unia Braga a Astorga, de onde havia ligação para Roma. Segundo uma das lendas, sete trabalhadores fixaram-se em Portela do Campo. No entanto, quatro desses homens mudaram-se para um local junto à margem direita do Rio Homem, e assim, dando inicio ao povoado de Vilarinho das Furnas.

Embora não seja possível confirmar a origem romana, há pelo menos provas da passagem e instalação de romanos no local. Nas imediações há três pontes de origem romana, assim como duas vias pavimentadas que, pelo lado sul, davam acesso ao local. Em tempos mais recentes, Vilarinho das Furnas era composta por um conjunto de casas de granito entre as quais, desfilavam ruas sinuosas.

A casa típica da aldeia tinha dois pisos independentes. O piso térreo servia para acolher o gado, galinha, porcos e outros e para guardar ferramentas e produtos agrícolas. No primeiro andar, servia de habitação, com cozinha e quartos. Em Vilarinho das Furnas, havia leis internas, já que imperava um regime comunitário. Quem as fazia respeitar era um grupo de seis pessoas, dirigidas por um líder. Na época em que a vila foi inundada, Vilarinho das Furnas tinha cerca de 250 pessoas de 57 famílias. Terras aráveis eram escassas e as pastagens se localizam nos topos das colinas. Assim, as casas foram construídas próximas entre si na beira do rio.

A aldeia foi evacuada a partir de setembro de 1969 e o último morador saiu em 1971. A empresa de energia pagou quase nada a essas pessoas como indenização pelas suas propriedades – apenas meio escudo por metro quadrado de terra, o que era o suficiente para comprar meia sardinha naquele tempo. Para casas e outras estruturas, foi fixado em cinco escudos por metro quadrado. Assim, os moradores levaram tudo o que podiam carregar, inclusive as telhas, deixando apenas as paredes feitas de pedras.

Em 1972, os muros de contenção foram explodidos e um dilúvio do Rio Homem engoliu para sempre Vilarinho das Furnas. Ironicamente, foi a construção da barragem e a subsequente inundação da aldeia que permitiu Vilarinho das Furnas ser lembrada nos dias atuais, se não, seria mais uma das tantas outras aldeias sem destaque, espalhadas pelo mundo, mesmo com idades tão antigas, quando essa. Agora, quando uma estiagem mais longa se abate na região, turistas aparecem de todos os lugares para vislumbrar a aldeia emergente às margens do reservatório. Para manter a memória da povoação foi erigido, com pedras da aldeia, o Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas, inaugurado em 1989.

Vilarinho das Furnas: Uma aldeia romana submersa

Uma foto antiga de Vilarinho das Furnas

Vilarinho das Furnas: Uma aldeia romana submersa

A barragem de Vilarinho das Furnas | Crédito da foto

Fontes: 1 2 3

“Tudo o que o homem não conhece não existe para ele. Por isso, o mundo tem para cada um o tamanho que abrange o seu conhecimento”. – Carlos Bernardo González Pecotche

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Ver Comentários (1)

1 Comentário

  1. Paulo Rodrigues

    28 de agosto de 2018 às 21:45

    Cada família recebeu, em média, 360 mil escudos. O que, usando o conversor do INE, corresponderia a EUR 95 000 nos dias de hoje. Ou seja, o suficiente para comprar uma pequena casa de aldeia na região, como aquelas em que essas famílias viviam na sua aldeia natal. A história é triste porque houve gente que teve de abandonar as suas casas para que outros recebessem energia eléctrica, mas não venham com a história de que não receberam praticamente nada em troca.

    Fonte:
    https://aps.pt/wp-content/uploads/2017/08/ensaio_ENS4648761c97611.pdf

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