Abandonados

Magic Bus, o farol da estupidez

Magic Bus, o farol da estupidez

Aqueles que leram o livro do jornalista Jon Krakauer, Into the Wild (Na Natureza Selvagem) publicado em 1996, e que foi adaptado em filme com o mesmo nome, em 2007, dirigido por Sean Penn, com Emile Hirsch no papel principal, devem se lembrar de Christopher McCandless. A historia de Chris, ou Alex Supertramp, como gostava de ser chamado é bem conhecida e interessante. O livro é o relato real de um rapaz que tinha tudo para ter uma vida normal, namorada, boa condição financeira, boa família, amigos, mas que largou tudo e resolveu seguir outro rumo mais aventureiro, mais livre.

Chris é um americano de classe média de 24 anos, recem saído da universidade, que abandonou sua família e amigos, doou 24 mil dólares que tinha em poupança para instituições de caridade e saiu caminhando pelos estados americanos e depois, se aventurou nas florestas do Alasca, em abril de 1992 com poucos alimentos e equipamentos, esperando viver apenas do que encontrava pelo caminho e principalmente, buscando a solidão. Ele tinha certo desprezo pelo materialismo da sociedade americana. Os livros de Jack London, Leon Tolstói e Henry David Thoreau tiveram grande influência sobre Christopher, que sonhava em deixar a sociedade para um período total de contemplação solitária.

Ele permaneceu cerca de quatro meses nas florestas do Alasca e em 6 de setembro de 1992, dois aventureiros acharam uma mensagem na porta do Fairbanks City Transit Bus 142 ano 1946, também conhecido como “Magic Bus” que dizia: “S.O.S. Preciso de ajuda. Estou debilitado, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou totalmente só, não estou brincando. Pelo amor de Deus, por favor, tentem me salvar. Estou lá fora apanhando frutas nas proximidades e devo voltar esta noite. Obrigado, Chris McMandless.

Magic Bus, o farol da estupidez

Fotografia de Christopher McCandless recuperada de sua câmera em 1992

Seu corpo foi encontrado em estado de decomposição, pesando apenas 30 quilos, por um grupo de caçadores de alce em agosto de 1992, dentro de um saco de dormir no interior do ônibus, já morto há cerca de duas semanas. A causa oficial da morte foi inanição. O autor do livro, Jon Krakauer acredita que Chris morreu por ingerir sementes de batata selvagem (Hedysarum alpinum) com mofo, que foram encontradas no ônibus. Essa espécie de batata não é considerada venenosa — a sua raiz é comestível, mas há evidência de que as suas sementes contêm um alcaloide que interfere no metabolismo da glicose pelo organismo. Nunca se saberá a verdade.

Chris morreu feliz, ele próprio conta em seu diário, quando percebeu a gravidade de seu estado de saúde: “Tive uma vida feliz, a agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe a todos“. O Magic Bus está localizado fora dos limites norte do Parque Nacional e Reserva de Denali e atualmente é um local de peregrinação para centenas de aventureiros que seguem os passos de Chris pelos Estados Unidos.

Christopher McCandless nasceu em 1968 na cidade de El Segundo, na Califórnia e mudou-se em 1976 para Annandale na Virgínia. Seu pai trabalhou para a NASA como um especialista em antenas e sua mãe foi secretária na empresa Hughes Aircraft e mais tarde, ajudou o marido a fundar e dirigir uma bem sucedida empresa de consultoria.

Pouco depois de concluir o curso na Universidade de Atlanta em 1990, Christopher saiu de casa, sem avisar a família e começou sua jornada. Já não era a primeira vez que Chris decidia fazer uma viagem por vários estados americanos sozinho, dependendo da natureza e do que encontrava no caminho. Devido a um problema com seu velho carro Datsun amarelo, Chris abandonou-o perto do lago Meade, em Detrital Wash. Encarou a situação como um sinal do destino e abandonou junto ao seu carro, grande parte de seus pertences e queimando todo o dinheiro que trazia consigo, cerca de cento e vinte dólares.

Partiu a pé em direção ao Oeste, adotando um novo estilo de vida, no qual era livre e assumiu o nome Alexander Supertramp, segundo os ideias que lera nos livros, em busca de experiências novas e enriquecedoras. Foi de carona que chegou a Fairbanks no Alasca, fazendo amigos e conhecendo lugares magníficos pelo caminho. Entre as suas aventuras, destacam-se uma descida de canoa pelo rio Colorado. Os pais de Chris ainda tentaram encontrá-lo, mas em vão. Apenas sua irmã Carine recebia umas cartas de vez em quando, e mesmo ela não sabia a sua localização. Os anos foram passando, e Chris continuava sozinho, passando por lugares, tais como: Carthage, Bullhead City, Las Vegas, Orick, Salton City, entre outros, até chegar finalmente ao destino pretendido. Por onde passou, alterou as vidas das pessoas que o conheceram. A sua personalidade forte, inteligente e simpática cativava a todos.

No Alasca, ele caminhou cerca de 32 quilômetros na Stampede Trail em direção ao Monte McKinley, uma trilha de caminhada localizada no Parque Nacional Denali. Depois de cruzar dois rios, encontrou o ônibus velho, deixado lá nos anos 60 por uma empresa de construção. Quando chegou, já fazia dois anos que tinha iniciado a viagem. Ele começou a usar o ônibus como um abrigo de caça. Suas provisões eram mínimas e de acordo com seus registros, ele tinha 4.5 quilos de arroz, um rifle semiautomático Remington com 400 munições, alguns livros e alguns equipamento de camping, quando chegou ao ônibus. Começou a caçar pequenos animais, tais como esquilos, porcos espinhos, pássaros e gansos.

Num dado momento, ele tentou retornar, mas se encontrava no lado errado do rio Teklanika, que estava cheio, decorrendo do degelo de verão, bem diferente quando ele atravessou, meses antes. Fazer uma travessia como o rio daquele jeito estava fora de questão. Através de um diário que manteve na contracapa de vários livros, com centro e treze anotações, podes-se compreender o que realmente aconteceu com Chris na sua viagem ao interior do Alasca. O seu diário contém registros cobrindo um total de 113 dias diferentes. Esses registros cobrem do eufórico até ao horrível, de acordo com a mudança de sorte de Chris.

As autoridades acreditam que Chris morreu de fome. Alguns insistem que ele morreu por comer plantas tóxicas que desconhecia. O que todos concordam é que a morte de Chris era evitável. Diferente de Jon Krakauer, assim como Sean Penn, e muitos leitores do livro, que possuem uma visão simpática de Chris, alguns alasquianos possuem uma opinião negativa tanto de Chris como daqueles que romantizam a sua morte. Chris desconhecia um vagão operado manualmente que cruzava o rio a cerca de 400 metros da trilha Stampede Trail, e também desconhecia a existência de um abrigo nas redondezas com alimentos de emergência. Chris estava mal equipado e era inexperiente para lidar com as adversidades da natureza, e muitos consideram seus atos estúpidos e sua morte trágica, equivalente a suicídio. A história de Chris levantou muitas perguntas e causa debates diferentes sobre a segurança na natureza e o que não fazer.

O guarda-florestal do Parque Denali, Peter Christian escreveu: “Eu vivo dizendo sempre ao que chamo de ‘fenômeno McCandless’. Pessoas, quase sempre homens jovens, vêm ao Alasca para se desafiarem contra um implacável cenário selvagem onde oportunidade de acesso e possibilidade de resgate são praticamente inexistentes… Quando você considera McCandless da minha perspectiva, você apercebe-se que o que ele fez não foi particularmente corajoso, apenas estúpido, trágico e inconsciente. Primeiro de tudo, ele gastou muito pouco tempo aprendendo como realmente se vive na selva. Ele chegou em Stampede Trail sem um mapa da região. Se ele tivesse um bom mapa ele poderia ter saído daquela situação difícil… Basicamente, Chris McCandless cometeu suicídio“.

Judith Kleinfeld escreveu no jornal The Anchorage Daily News que “muitos moradores locais reagiram com raiva a essa estupidez apelidada por muitos de “aventura”. Tem-se que ser um completo idiota, para morrer de fome no verão a 30 quilômetros de distância da estrada do parque, disseram eles.

A estranha atração e fascínio sobre Chris McCandless tornou-se uma preocupação para as autoridades do parque, pois o caminho que conduz ao ônibus é cheio de perigo. Anos atrás, uma dúzia de aventureiros precisaram ser resgatados pelas autoridades do parque e polícia estadual, e também um turista suíço afogou-se no rio, tentando cruzá-lo. Pior ainda, alguns tentam seguir seus passos, acampando ao lado do ônibus e privando-se de comida.

Muitas pessoas acreditam que o ônibus deveria ser removido, pois é um ‘farol à estupidez’, embora ele possa sumir antes mesmo das autoridades agirem. Nos últimos 20 anos, o ônibus está sendo desmontado lentamente, virando apenas um esqueleto, pois os aventureiros que passaram por lá, acabaram tirando um pedaço dele e levando como lembrança. Alguém pegou o volante alguns anos atrás, depois o painel.Quatorze das 26 janelas desapareceram e as outras doze foram destruídas e o ônibus está mostrando sinais do tempo, com ferrugem por todo lado. “Eu não acho que, com a condição atual do ônibus e a quantidade de pessoas que vão lá, e pegam um pedaço dele, ele vai durar muito tempo“, disse Kris Fister, porta-voz do Parque Nacional Denali.

Fontes: 1 2 3

“Aprenda com o ontem, viva para o hoje, acredite no amanhã. O importante é não parar de questionar!”. – Albert Einstein

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