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Tafofobia, o medo de ser enterrado vivo

Tafofobia, o medo de ser enterrado vivo

Numa pequena elevação no cemitério Evergreen, no bairro de West River, New Haven, Vermont nos Estados Unidos há um túmulo um tanto curioso, totalmente diferente das outras lápides ao seu redor. Neste túmulo há um bloco quadrado de concreto de 90 centímetros e no meio deste, uma pequena janela de vidro de aproximadamente 30 centímetros. Hoje em dia não se consegue ver o interior do túmulo, devido ao vidro estar obstruído por fungos acumulados por anos de condensação de vapores vindo do fundo da sepultura, porém em 1893, poderia se espionar por essa janela o rosto em decomposição de Timothy Clark Smith.

Timothy C Smith foi um médico e diplomata. Recebeu seu diploma de médico na Universidade de Nova Iorque, em 1855 e foi cirurgião da equipe do exército russo até 1857. De 1861 a 1875, ele foi cônsul dos EUA em Odessa na Rússia e depois em Galatz, Romênia de 1878 a 1883. Antes de se tornar médico, trabalhou como professor no Departamento de Tesouro do Estados Unidos.

Tafofobia, o medo de ser enterrado vivo

Túmulo de Timothy Clark Smith | Crédito da foto

Ao longo de sua vida, Timothy sofria de um medo incurável de ser enterrado vivo. Distúrbio conhecido como Tafofobia, da palavra grega “taphos”, que significa “grave“, é o medo de ser declarado erroneamente morto e colocado em uma sepultura ainda vivo. Apesar de não ser muito comum atualmente, naquela época, antes do advento da medicina moderna, tal receio não era inteiramente irracional. No decorrer dos séculos, tem havido inúmeras histórias – lendas urbanas talvez – de pessoas que foram enterradas vivas acidentalmente. Há relatos de deixar os cabelos em pé sobre vítimas que caíram num estado de torpor ou coma, acordando dias, meses depois, e se descobrirem que se encontravam sepultados.

Tafofobia, o medo de ser enterrado vivo

“The Premature Burial” (1854), uma pintura do artista belga Antoine Wiertz que ilustra um despertar de uma vítima de cólera após ter sido colocada em um caixão.

O filósofo e teólogo escocês John Duns Scotus (1266-1308) teria sido enterrado vivo, após entrar em coma por consequência de um derrame e declarado erroneamente como morto. Anos depois, seu túmulo foi aberto e seu corpo foi encontrado fora do caixão. Os dedos de suas mãos estavam tortos devido às tentativas de fuga. Em fevereiro de 1885, o jornal The New York Times reportou um caso perturbador de um homem identificado como “Jenkins”, cujo corpo foi encontrado virado dentro do caixão e marcas de arranhões por todo o interior do ataúde.

Outra história relatada pelo mesmo jornal em janeiro de 1886, dizia que o corpo de Collins, uma garota canadense havia sido encontrado com os joelhos dobrados por baixo do corpo e a mortalha a qual foi enterrada, rasgada em pedaços. Além dessas notícias ocasionais, muitos escritores na época escreveram histórias perturbadoras sobre pessoas enterradas vivas para assustar seus leitores. Edgar Allan Poe (1809-1849) escreveu “O Enterro Prematuro“, “A Queda da Casa de Usher“, “O Barril de Amontillado“, “Berenice” e, em menor grau, “O Gato Preto“, foram obras baseadas neste medo natural de ser enterrado vivo.

Tafofobia, o medo de ser enterrado vivo

Um espécie de cofre funerário construído em 1890 para proteger contra enterros prematuros, onde o morto vivo poderia abrir o túmulo através de uma manivela pelo lado interno.

Os mais obcecados por esse medo começaram a usar o que é conhecido como “caixão de segurança”. São caixão equipado com um mecanismo para evitar o enterro prematuro ou permitir que o ocupante sinalize que eles foram enterrados vivos. Um grande número de projetos para caixões de segurança foram patenteados durante os séculos 18 e 19 e as variações da ideia ainda estão disponíveis hoje em dia. A maioria os projetos incluía uma corda que os mortos-vivos pudessem puxar do interior do caixão e tocar um sino ou levantar um bandeira no lado exterior. Outros tinham escadas, escotilhas de escape e até mesmo suprimento de comida e água. Ironicamente, muitos projetos esqueceram de incluir o elemento mais essencial – um tubo de respiração para fornecer oxigênio. O site do Museu Australiano em Sydney observa: “a maioria dos modelos apresentou falhas de projeto suficientes para sugerir que provavelmente não teriam funcionado corretamente caso precisassem ser usados“.

Tafofobia, o medo de ser enterrado vivo

O vidro fixo do túmulo de Timothy Clark Smith | Crédito da foto

Embora muitas pessoas desejassem se enterradas em um caixão de segurança ou solicitassem aos seus familiares que verificassem seus corpos após vários dias de sua morte, ou que atrasassem o enterro (o ex presidente americano George Washington em seu leito de morte, pediu para que o enterrassem pelo menos dois dias após ser declarado morto), há muito pouco casos registrados de pessoas que realmente usaram um caixão de segurança, ou de alguém que foi salvo por ele. Quando Robert Robinson, um ministro dissidente inglês, morreu em Manchester em 1791, um painel de vidro móvel foi instalado em seu caixão e o mausoléu tinha uma porta através da qual um vigia podia ir inspecionar o corpo para se certificar de que ele ainda continuava morto.

Também naquela época, as pessoas mais importantes da comunidade eram enterradas nos fundos da igreja. Assim, no caixão era incorporado um tubo, que saía para a superfície e acabava numa casinha à qual o padre tinha acesso, onde pudesse observar o comportamento da pessoa enterrada. Se ele enxergasse qualquer movimento, ou não sentisse cheiro de putrefação, mandava abrir o túmulo e resgatava a pessoa. Neste mesmo tubo passava ar e poderia mandar até comida, para manter o morto vivo até que se pudesse sair dali.

O caixão de Timothy no Cemitério Evergreen era um desse modelo de segurança. Quando ele morreu no Dia das Bruxas de 1893, foi enterrado em seu túmulo especialmente preparado, com um tubo e um vidro fixo sobre sua sepultura, direcionado a sua cabeça, situada a um metro e oitenta de profundidade. Além disso, foi enterrado com um sino em sua mão, para que pudesse pedir ajuda, caso estivesse realmente vivo. De acordo com os registros do cemitério, há uma segunda sala dentro da cripta funerária que abriga a esposa de Timothy. Um conjunto de escadas conduz à cripta, coberta por uma pedra na parte inferior em frente ao elevado de sua sepultura.

O túmulo de Timothy Clark Smith é um exemplo raro de um fenômeno ainda não muito esquecido. Nos Estados Unidos, a patente mais recente para um caixão de segurança foi arquivada em 1995. Este caixão de segurança moderno incluía um alarme de emergência, sistema de comunicação, lanterna, aparelho de respiração, monitor cardíaco e estimulador.

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Projeto de um caixão de segurança | Crédito da foto

Fontes: 1 2 3

“A sabedoria não nos é dada. É preciso descobri-la por nós mesmos, depois de uma viagem que ninguém nos pode poupar ou fazer por nós”. – Marcel Proust

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