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Stolpersteine, as pedras memoriais de Berlim

Stolpersteine, as pedras memoriais de Berlim

Com centenas de coisas para se ver Berlim na Alemanha, poucos turistas prestam atenção ao que está sob seus pés. Pequenas pedras cúbicas de concreto com cerca de dez centímetros, com um dos lados coberto por uma chapa de latão, a qual contém uma inscrição são fáceis de perder no início. Uma vez que você sabe que elas existem, você começa a se deparar com elas com surpreendente frequência.

Cada pedra é gravada com o nome, data de nascimento e destino de um individuo que sofreu sob o regime nazista, e é afixada na calçada diante da antiga moradia da vítima. Conhecidas como “Stolpersteine” (pedras-obstáculo, do alemão: stolpern = tropeçar, Stein = pedra), existem mais de oito mil delas na capital alemã, e dezenas de milhares deles estão espalhadas por toda a Alemanha e outros países europeus, tornando-se o maior monumento descentralizado do mundo.

Stolpersteine, as pedras memoriais de Berlim

Dois Stolpersteine ​​fora de um edifício em Heidelberg, Alemanha para Max e Olga Mayer. Ambos escaparam da Alemanha em 1939 via Suíça e Espanha para os EUA e sobreviveram ao Holocausto. | Crédito da foto

A ideia as pedras memoriais foi concebido pela primeira vez pelo artista alemão Gunter Deming em 1992 para relembrar as vítimas do nazismo mortos durante as deportações, nos campos de concentração ou por escolherem o suicídio para escapar do extermínio. Cada bloco, com a inscrição que começa com “Aqui viveu”, é colocado exatamente no último lugar onde a pessoa vivia livremente antes de ser vítima do terror nazista.

A intenção de Demnig é, entre outras, a de recuperar os nomes das vítimas do nazismo que foram reduzidas a simples números nos campos de concentração. O ato de inclinar-se para ler os textos das pedras-obstáculo deve funcionar como uma reverência as vítimas. Com as marcações nos lugares aonde ocorreram as deportações, frequentemente em áreas de alta densidade populacional, o projeto ao mesmo tempo coloca em questão a desculpa de certas testemunhas à época de não terem percebido as deportações.

Depois da ideia original do projeto em 1992, houve uma primeira exposição em 1994 na igreja Antoni, em Colônia. O pastor local então encorajou o artista e instalar essas pedras em outros lugares. Em 1995, Demnig experimentou transpor algumas pedras sem permissão para Colônia, em seguida para Friedrichshain-Kreuzberg (em Berlim) na rua da Nova Sinagoga situada na Oranienburger Straße.

Stolpersteine, as pedras memoriais de Berlim

Stolpersteine em Wroclaw |Crédito da foto

Em 1996 durante o projeto artístico “Künstler forschen nach Auschwitz” ou seja, “artistas pesquisam Auschwitz“, Demnig posicionou 55 pedras em Berlim. No ano de 1997 transpôs as primeiras pedras para os membros da Testemunhas de Jeová em Sankt Georgen bei Salzburg na Áustria estimulado pela Iniciativa Artística KNIE e o Serviço Austríaco em Memória do Holocausto. Quatro anos mais tarde, após vencer obstáculos burocráticos e desconfianças da prefeitura de Colônia, conseguiu a permissão de admissão de 600 pedras. Demnig já colocou mais de 70.000 pedras em toda a Europa e na Rússia. Ele pessoalmente supervisiona a instalação de cada um deles, uma tarefa que mantém Demnig na estrada por 300 dias por ano.

Stolpersteine, as pedras memoriais de Berlim

Daniel Demnig instalando um Stolpersteine | Crédito da foto

Ao contrário de outros memoriais do holocausto que se concentram apenas em judeus, as Stolpersteine honram todas as vítimas do regime nazista, incluindo judeus, ciganos, afro-alemães, deficientes, dissidentes e gays. Lembra aqueles que foram assassinados em campos, assim como aqueles que sobreviveram, mas também aqueles que escaparam fugindo para a Palestina, EUA ou outros lugares. Por essa razão, você encontrará esses pequenos monumentos até mesmo em países que nunca foram ocupados pela Alemanha nazista, como a Suíça e a Espanha.

As Stolpersteine na Suíça lembram principalmente pessoas que foram flagradas contrabandeando material ilegal escrito na fronteira alemã. Na Espanha, um grande número de republicanos fugiu de seu país para a França após a vitória de Francisco Franco. Eles foram capturados pelos nazistas depois de terem invadido a França e foram deportados para o campo de concentração de Mauthausen-Gusen. Cerca de sete mil espanhóis foram presos lá e foram submetidos a trabalhos forçados.

Os pedidos de colocação desses blocos comemorativos vêm de diferentes grupos, geralmente os familiares das vítimas, mas também dos atuais moradores das casas anteriormente ocupadas pelas vítimas e pelas escolas que frequentaram. Cada aplicação é cuidadosamente pesquisada pelos grupos locais da vizinhança de cada Stolpersteine, compostos por voluntários, antes que eles possam decidir onde e quando a colocação da pedra pode ocorrer. Tal é a demanda por essas placas que uma solicitação pode levar seis meses para ser cumprida.

Stolpersteine, as pedras memoriais de Berlim

Stolperstein de Frau Martha Liebermann, esposa do artista Max Liebermann, na Pariser Platz 7, Berlin-Mitte. | Crédito da foto

Apesar de seu grande apelo, nem todo mundo apoia o projeto. Charlotte Knobloch, ex-presidente da Comunidade Judaica de Munique e da Alta Baviera, sente que é indigno de pisar nos nomes das vítimas do regime nazista. “Afinal, não foram os nacional-socialistas que usaram suas botas para humilhar e machucar?“, ela questiona. Em 2004, o conselho municipal de Munique proibiu a instalação das Stolpersteine. Apesar disso, há cerca de duas dúzias delas na cidade, porém em terrenos particulares.

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Stolpersteine ​​em Berlim | Crédito da foto

Mais que 200 pedras-tropeço para vítimas de Munique já foram produzidas e não podem ser instaladas; elas estão armazenadas num porão que foi alugado pela iniciativa “pedras-tropeço para Munique”. Michael Friedrichs-Friedländer, o artesão que fabrica cada Stolperstein, falou em apoio ao projeto. “Não consigo pensar em uma forma melhor de lembrança“, diz ele. “Se você quiser ler a pedra, você deve se curvar diante da vítima.

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Stolpersteine em Leipzig | Crédito da foto

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Há um aplicativo com a localização na Europa das Stolpersteine | Crédito da foto

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Curioso desde sempre, queria um lugar para guardar às curiosidades de lugares e histórias inusitadas que lia em livros ou pela internet e assim nasceu o site Magnus Mundi em 2015. Me chamo Julio Cesar, sou natural de Blumenau e morador de Porto Belo, litoral de Santa Catarina.

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