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Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Entre os monumentos mais notáveis da antiga civilização egípcia figuram os obeliscos, esbeltos pilares de faces planas, terminados em ponta e talhados num só bloco de granito. Estes obeliscos, cuidadosamente polidos e decorados com desenhos e inscrições, foram criados há quase 4.000 anos com instrumentos totalmente rudimentares.

O maior de todos, que pesa 455 toneladas e mede cerca de 32 metros de altura, foi construído por encomenda do faraó Tutmosis III, e atualmente está instalado na praça de São João de Letrão, em Roma; mas na pedreira situada perto de Assuã, próximo da primeira catarata do Nilo, onde eram feitos os obeliscos, existe um maior ainda que ficou sem terminar. Dois dos obeliscos mais interessantes, encomendados também por Tutmosis III, erguiam-se como sentinelas na entrada do templo do Sol, em Heliópolis, ao norte de Cairo. Em épocas posteriores decidiu-se chamá-los de Agulhas de Cleópatra (Cleopatra’s Needle, em inglês), e atualmente encontram-se em Londres e Nova Iorque.

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Uma das Agulhas de Cleópatra em Londres nas margens do rio Tâmisa

Pelo que parece, a função dos obeliscos era em parte religiosa e em parte cerimonial, para comemorar e homenagear ao deus do Sol em 1468 a.C., e o primeiro de todos ergueu-se em Heliópolis, principal centro de culto ao deus. Mas as inscrições neles talhadas relatam as façanhas de governantes humanos: os territórios conquistados, os inimigos vencidos e os adversários de seus reinados. As inscrições esculpidas no centro das faces das Agulhas de Cleópatra destacam as virtudes de Tutmosis III, e cerca de duzentos anos mais tarde acrescentaram-se novos hieróglifos que contam as vitórias de outro grande faraó, Ramsés II.

As Agulhas de Cleópatra estão talhadas em granito vermelho, e é possível que procedam da mesma pedreira de Assuã onde se encontra o gigantesco obelisco inacabado. Se as pedreiras não tivessem encontrado uma inesperada ruptura no granito, obrigando-os a abandonar o trabalho, este obelisco seria o maior de todos os conhecidos, com uma altura de mais de 41 metros e um peso de 1.168 toneladas. Para os arqueólogos representa uma descoberta valiosíssima, pois demonstra como se fizeram todos os outros obeliscos. Levavam anos e milhares de homens para extrair a pedra em forma de obelisco até o lugar de destino e a muita controvérsia dos especialistas de como eles faziam isso.

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Sendo construída a embarcação que levaria o obelisco a Inglaterra

Os obeliscos foram extraídos das pedreiras abrindo sulcos no perímetro. Antes de talhar os hieróglifos, se polia a superfície com pó de esmeril. Para comprovar a qualidade do polimento, se pressionava a pedra contra uma superfície plana, coberta de ocre vermelho, que marcava as zonas salientes; estas eram polidas e então voltava-se a testar a superfície. As inscrições eram talhadas com esmeril, talvez com a ajuda de ferramentas de cobre para aplicar o abrasivo. O cobre era o metal mais utilizado pelos egípcios até o Império Novo, que por si só não era bastante duro como para talhar as pedras mais duras, como o granito.

Tutmosis III encomendou pelo menos sete obeliscos, cinco para Tebas e dois para Heliópolis . Quatro deles ainda existem, mas nenhum continua em seu lugar original. A história mais curiosa é a das duas Agulhas de Cleópatra. Durante 1.500 anos permaneceram em Heliópolis, enquanto que o Egito caía sucessivamente em poder dos etíopes, os persas e os gregos dirigidos por Alexandre Magno. Alexandre fundou Alexandria, onde mais tarde reinaria Cleópatra, última representante da dinastia tolomeica, que mandou construir às margens do Mediterrâneo um palácio dedicado a Júlio César, chamado Caesareum.

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Detalhes das inscrições nos obeliscos

Ao morrer Cleópatra, no ano 30 a.C., o Egito caiu uma vez mais em mão estrangeiras, nesta ocasião as do Império romano. Os dois obeliscos de Heliópolis transladaram-se a um novo local, na entrada por mar ao palácio de Cleópatra, por ordem de César Augusto. Depois de alguns séculos, adquiriram o nome de Agulhas de Cleópatra, embora realmente foram criadas quinze séculos antes de que a rainha nascesse.

Ali permaneceram durante outros 1.500 anos, enquanto o palácio de Cleópatra caía em ruínas e desaparecia. Em algum momento – não se sabe quando -, um dos dois obeliscos caiu ao chão, ficando meio coberto pela areia, tal como observou em 1610 o viajante George Sandys. Em 1798, Napoleão Bonaparte desembarcou no Egito, com a intenção de arrebatar o Oriente Médio aos turcos, mas foi derrotado pela marinha e o exército britânico. Em agradecimento, os turcos consolidados no poder aceitaram de boa vontade a sugestão britânica de levar à Inglaterra o obelisco caído. Afinal, Napoleão teve a intenção de levar os dois, e já se haviam atado os cabos ao obelisco ainda erguido com o objetivo de derrubá-lo.

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Agulha de Cleópatra em Londres

No entanto, ainda passariam sessenta e cinco anos antes de que a promessa se levasse à prática, anos durante os quais o obelisco permaneceu no chão, sofrendo as agressões dos turistas, que arrancavam pedaços para levar com lembrança. Em 1867, a situação agravou-se, já que um empresário grego chamado Giovanni Demetrio havia comprado o terreno onde se encontrava o obelisco, com intenção de urbanizá-lo. Não podendo retirar o obelisco intacto, estava disposto a despedaçá-lo e utilizá-lo como material de construção. Foi então que acudiu ao resgate, sir James Alexander, que, ao saber da situação, apelou à opinião pública e traçou um plano para transportar o obelisco para Londres.

Para efetuar o transporte do obelisco, que pesava cerca de 224 toneladas e 21 metros de altura, projetou-se uma embarcação especial de metal em forma de tubo, batizada de Cleópatra que ia rebocada pelo navio a vapor Olga. Enquanto o mar estava calmo, tudo foi bem, embora existissem dificuldades de comunicação entre os dois barcos e o Cleópatra cabeceava como um balanço. No entanto, ainda faltava o pior. Na baía de Biscaia teve início uma tempestade. Com o mar revolto, a embarcação que levava o obelisco partiu as grossas cordas que o amarravam ao rebocador, deixando-o a mercê das ondas e quase prestes a ir ao fundo do mar. Um pequeno barco com seis marinheiro foi lançado ao mar para tentar ligar o Cleópatra ao navio, porém, este se chocou contra o pequeno barco fazendo-o afundar e matando os seis homens. Quando o tempo amainou, o Olga voltou à procura do Cleópatra, este havia desaparecido completamente.

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Um dos obeliscos ainda em pé, em Alexandria

Porém o Cleópatra não se havia afundado. Outro navio inglês, o Fitzmaurice, localizou a curiosa embarcação quase submersa, com as ondas batendo sobre ela, e a arrastou com enormes dificuldades até o porto de El Ferrol, onde chegou completamente tombada. Para recuperá-la foi necessário esperar a que se saldasse os custos do resgate apresentado pelos proprietários do Fitzmaurice. Por fim, o Cleópatra chegou à desembocadura do Tâmisa, e seu precioso carregamento, instalando-se em 1878 em seu atual local em Victoria Embankment, nas margens do rio Tâmisa.

O outro obelisco de 193 toneladas foi transportado aos Estados Unidos, em 1880 num navio bastante resistente e foi instalado no Central Park em Nova Iorque. Este foi inaugurado em janeiro de 1881 e sendo presenteado por Ismail Paxá em 1869, após a abertura do Canal de Suez, com a esperança de fomentar as relações comerciais entre os dois países. O transporte do obelisco do porto até seu local atual demorou 112 dias, avançando 30 metros por dia, pelas ruas de Nova Iorque sendo puxado por 32 cavalos.

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Obelisco já dentro da embarcação que seria rebocado até Londres

Os dois obeliscos – da mesma forma que os outros, instalados atualmente em Paris, Istambul e Roma – saíram do Egito antes que o mundo moderno começasse a se conscientizar acerca de despojar uma nação de seus tesouros culturais. Roma adquiriu sua coleção de treze obeliscos na antiguidade, o mesmo que Istambul, enquanto Londres, Paris e Nova Iorque obtiveram os seus no século 19. O irônico é que agora todos eles passam quase inadvertidos, rodeados de tráfego e diminuídos por edifícios modernos. As mesmas pessoas que pagariam um bom valor para apreciá-los em seu entorno egípcio original, não lhes concedem um segundo olhar em sua atual localização. Reza a lenda que ambos os obeliscos chamados Agulhas de Cleópatra são mal assombrados e carregam uma maldição e durante muito tempo os britânicos evitam o local onde estava erguido a noite.

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Ilustração do reboque da embarcação chamada Cleópatra

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Ilustração em cores do reboque da embarcação chamada Cleópatra

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Ilustração da chegada do obelisco em Londres

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Método utilizado para levantar e deixar o obelisco em pé. O mesmo utilizado pelos egípcios antigos

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Método utilizado para levantar e deixar o obelisco em pé. O mesmo utilizado pelos egípcios antigos

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Obelisco já na posição atual

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Obelisco deixado inacabado na pedreira de Assuã

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Chegada do obelisco em Nova Iorque

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Ilustração do obelisco sendo erguido no Central Park

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Agulha de Cleópatra no Central Park

Agulhas de Cleópatra, os obeliscos do Egito Antigo

Detalhes do pedestal do obelisco do Central park

Fontes: 1 2 3

“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem)

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